Era uma noite comum. A cor negra das rochas com seu brilho molhado fazia
as montanhas ainda mais belas de se olhar. A rajada de fogo que soprava na aurora
daquele dia estava como sempre. O brilho vermelho com suas nuances em laranja e
amarelo ouro como que despencavam céu afora, mas sem modificar o rubro do
horizonte tão familiar para os moradores da lua.
Dentro de uma das muitas cavernas que existem no sem fim de montanhas, um
casal da raça que habita esse mundo está passando por um dos momentos mais
intensos de suas vidas, embora não fosse a primeira vez. São criaturas de
grande proporção, beirando os quatro metros de altura, cuja pele marfim reluz
maciamente ao olhar. A fêmea tem uma cabeleira farta, vermelha como a aurora
dessa lua,seus olhos são claros, é uma figura extremamente forte, mas
encantadoramente delicada, seu nome é FAH. Seu marido, BÔ, é da mesma altura e
porte, embora mais forte, e em tudo parecido com ela, menos pelos cabelos. Em
seu lugar, dois chifres três vezes curvados, mostram que está no auge da
maturidade. Não há roupas cobrindo seus corpos, uma faixa envolve a cintura
dilatada da fêmea e um cinto com uma espada é só o que veste seu marido.
Ele olha com muito carinho e preocupação para sua esposa que está
reclinada sobre um patamar dentro da caverna, da mesma pedra negra e brilhante
que se enxerga nas montanhas do lugar. Ela se contrai com regularidade, em
alguns momentos olha para BÔ e seus olhos sorriem, “está dando trabalho”,
explica mentalmente, “mas eles estão bem”. Seu marido retribui um olhar
encantado para ela. BÔ está esperando a hora de fazer a sua parte, que chega
quando FAH contrai seu imenso corpo de forma violenta. Dentre suas pernas
escorre uma bolsa de cor cinza chumbo. Algo se mexe dentro dela e a estoura,
vazando um líquido negro viscoso e duas criaturinhas cujas pernas estão unidas
por uma membrana. Carregarão a marca da união para sempre.
BÔ, agora pai, os limpa com as mãos, sem os tirar do chão, pois as
rochas absorvem todos os mucos que saíram com os dois bebês. A pequena fêmea é
a primeira a tossir e abrir os olhos. Como que chamando para a vida, ela grita
para o pequeno macho, ainda atado a ela pelas pernas. Este abre os olhos
inseguros e tosse. Assim que as rochas terminam de absorver os líquidos,o pai
os ergue e os segura junto a seu peito. Ficarão lá pelo tempo que estiverem
unidos pelas pernas. Seus movimentos são confusos, estão surpresos com a luz
que enxergam. Eles se olham pela primeira vez, suas pequenas mãos curiosas
tocam o pai e um ao outro. Os recém nascidos se maravilhavam, como se não
soubessem que eram dois e não um só.
FAH ainda está reclinada, seus olhos estão fechados, o parto ainda não
se completou, ela expulsa líquidos que são absorvidos pelo solo rochoso, solo
esse que parece cuidar de FAH como se fosse uma parteira invisível. A membrana
que une as pernas dos pequenos começa a se desfazer lentamente. BÔ está muito
feliz em segurá-los e olha para FAH com intensidade. Os gêmeos parecem com os
pais em tudo, são miniaturas idênticas: a femeazinha semelhante a mãe e o irmão,
ao pai, mas sem os chifres. A única diferença é que eles são azuis, sua peles
não tem a cor da dos pais, nem o cabelo, ainda molhado, da filha é vermelho,
mas azul.
Ali, enquanto FAH se recupera do parto, ela se lembra de como foi a
concepção. O tempo de procriar havia chegado e amar seu compaheiro era aquilo
que a movimentava estes milênios todos. Mas isso requeria um esforço maior, pois
as fêmeas geravam clones femininos e os machos clones masculinos. Assim,
enquanto ela formava um feto fêmea com a união de BÔ, ele também passava pelo
processo de gerar um feto com o fator dela. Ambos ficavam muito vulneráveis
nesse período, então permaneciam dentro da caverna que escolheram para a
criação dos filhos. Não era a primeira gravidez que gestavam, mas sua espécie
procriava uma vez em milênios, então havia muito tempo que isso não ocorria.
Ambos agora eram mais velhos e experientes.
Sabiam o motivo dos bebês serem de cor diferente e ela não pode evitar
a lembrança do dia em que a gravidez havia sido afetada com aquela inesperada
contaminação. Ninguém sabia como lidar com os machos da nova espécie que havia
sido trazida para a lua. Não imaginava encontrar um deles e quando aconteceu
não pode se defender como faria, usando o bastão que havia sido o pesadelo de
vários machos inexperientes e atrevidos. Se colocasse sua conhecida ferocidade na
luta, perderia os gêmeos e BÔ não poderia estar com ela por muito tempo. Agora,
vendo sua família, não se arrependia de ter entregue o combate. Contudo, os
filhotes nasceram com traços da contaminação vinda daquele macho estrangeiro.
Voltou seu pensamento para quem amava desde sempre. Gostava de ver BÔ
gerar, o momento da mudança do feto do corpo dele para o dela, onde terminaria
de se desenvolver junto de sua irmã, era muito delicado. BÔ era tão amável, tão
preocupado em que tudo desse certo que era difícil crer que tamanha criatura,
capaz de combates tão ferozes, pudesse ser pai tão carinhoso. Seus recém –
nascidos veriam isso claramente, com o passar do tempo.
Quando BÔ percebeu que FAH havia se recuperado um pouco, colocou os
gêmeos, cujas pernas agora haviam se separado, em cima de seu ventre. Ela
abraçou os filhos e pode olhá-los com cuidado. Chamou-os NA, a pequena fêmea e
ZU o pequeno macho. Os olhos de ambos observavam a mãe com curiosidade. Mamaram
nos seus seios e dormiram seu primeiro sono da mesma forma como se posicionaram
dentro do seu útero e o fariam para todo o sempre: ZU envolvendo NA com os braços,
ela recostada em seu peito.
Em outras muitas cavernas das montanhas, vários casais já estavam com
seus filhos no colo e alguns ainda no processo de parto. Todos eles se
assemelhavam, em tamanho e aspecto, com FAH e BÔ, mas alguns eram de cor
diferente, e suas crianças, mesmo nascendo com as pernas unidas, tinham cores
que não o azul. Alguns eram verdes, outros púrpuros, mas todos eles cópias
idênticas aos pais, todos eles casais gêmeos. Aquela aurora foi a da produção
de uma nova geração de seres daquele mundo
Não eram muitos, em comparação ao tamanho da lua, pois a raça era
extremamente dispendiosa para o local e
para os outros povos. Eram criaturas que exigiam muito espaço físico para se
desenvolver e quantidades enormes de energias do local aonde habitavam para
manter sua vida. Eram belicosos também, embora não soubessem o que guerra
significasse.
Por muito tempo os bebês não sairam das cavernas, que como eram extensas
e seguiam montanha adentro, não faziam com que se sentissem aprisionados. O
desenvolvimento era lento, mas FAH estava contente em ter filhotes de novo, e
não sentia pressa em levá–los para fora. BÔ está muito satisfeito com o aspecto
de FAH, isso o fazia sair para o Conselho com mais alegria. Não se preocupava
com a segurança deles, pois mesmo os poucos que poderiam se interessar em entrar
nas cavernas, não o faziam quando sentiam o cheiro das crias. Todos no lugar
conhecem as histórias sobre a defesa das mães quando se sentiam ameaçadas e FAH
tinha um reação surpreendente. Ele mesmo poderia sair muito machucado se ela
sentisse algum tipo de ameaça, pois quando uma fêmea deles está em posição de
defesa, não escolhe quem irá atacar. Machos maiores e mais velhos que ele carregavam,
com orgulho, cicatrizes de dias ruins com suas fêmeas. Não queria ter que se
defender dela, daria muito trabalho.
FAH e BÔ saiam da caverna por vezes, para se reabastecer de um mineral
vital à sua espécie e do qual se alimentavam em intervalos regulares. Fora
isso, não havia outra fonte de alimentação. Suas energias eram supridas
diretamente da atmosfera que, embora rarefeita, os envolvia. Nas ocasiões que
os pais saiam, ZU cuidava de NA, e, como sempre faria, vigiaria cada passo de
sua irmã. Sim, pois NA mostrava, como todo filhote de todas as espécies do
Universo, o seu caráter bem cedo. Ela era a parte ativa e curiosa dos gêmeos,
nunca está muito quieta, sempre se movimenta e sempre o faz com rapidez. Mesmo
antes de poder andar com segurança ela já tentava seguir ruídos, ou sombras. ZU
era calmo e quando se movimentava o fazia lentamente, como se precisasse
avaliar cada passo. Mas seus olhos se mexiam muito, pois não deixavam de seguir
a irmã, e nas ocasiões em que a perdia de vista, gritava até FAH aproximá-los
novamente. Sempre que NA pulava pelo corpo da mãe, seu irmão observava com
prazer estampado em seus olhos, mas não fazia o mesmo. Sua natureza era passiva
e seria assim para sempre, mesmo quando houvesse embates, e estes seriam menos
agressivos e rápidos que o da irmã. Assim era a espécie e assim sempre seria. Ficava
satisfeito em sentir as energias que NA produzia, era dela que vinha o que
sentia do mundo, era ela que recebia e transmitia para ele.
Todas as espécies nativas desta lua tinham apenas um meio de digestão
que se dava por contato direto com o que os circundava. Com exceção dos
minerais que precisavam colher das ‘rochas que choram’, como as chamavam, não
precisavam de mais nada. Como forma de expelir os excessos do que digeriam, os
casais gêmeos se abraçavam na posição em que nasceram e permitiam que os
diferenciais se igualassem, que as poucas energias de um fossem preenchidas
pelas que estavam em excesso no outro. Assim, todos da raça ficavam em posição
de conforto tantas vezes quantas precisassem para se equilibrarem.
BÔ abraçava sua filha mas ela só permanecia quieta quando seu irmão o
fazia. Ela sempre achou seu pai muito grande, e se divertia, quando em seu
colo, colocando suas mãos no rosto e nos chifres dele. Os olhos de ambos
brilhavam tanto que chegavam a soltar faíscas. FAH também abraçava seu filho,
mas isso só enquanto bebê, pois as energias eram mais bem distribuídas com a
fêmea no centro. O abraço da mãe causava cócegas em ZU e o fazia mexer-se
muito, o que era mais estranho ainda para ele que se movimentava lentamente, e
causava riso nos pais, que ele entendia muito menos.BÔ também tinha passado por
isso na infância.
Na primeira vez que saíram todos juntos da caverna, as crianças já não
eram bebês e suas alturas atingiam os joelhos dos seus pais. Estavam curiosos,
a pequena andando e mexendo em tudo, o irmão atrás dela surpreso com a grande
diversidade de sensações e energias que experimentava. Sentia prazer em ver a
felicidade da irmã com o mundo novo que se abria para eles.
Era exatamente assim para os outros gêmeos da espécie. Podia acontecer
de a fêmea ser passiva e calma e o macho irrequieto. Muito dificilmente havia
partos de mais que gêmeos. Isso gerava muita confusão, pois os irmãos e irmãs
seriam extremamente belicosos e brigariam muito entre si, dando muito trabalho
para os pais e para a sociedade, tendo que ser separados ainda bem jovens e
criados por outras espécies que não tinham filhos na mesma época.
Então houve um período, também longo, onde a infância desse casal de
gêmeos era feita de caminhadas de inspeção, idas as rochas que os supriam de
minerais e brincadeiras na caverna enquanto BÔ ia ao Conselho. FAH não ia, pois
as fêmeas em período de gestação e de criação se afastavam do grupo. Como todas
procriavam ao mesmo tempo, não havia um Conselho nessas épocas, para as fêmeas.
As idas aos locais das “rochas que choram” era muito agradável para todos os
filhotes, pois podiam se olhar, embora não gostassem de se tocar. Não
brincavam, apenas ficavam se olhando e observando os pais se alimentarem. Essas
rochas eram negras como todas, mas suavam um líquido que cristalizava e assim
era consumido por todos os adultos. As crianças apenas mamavam, então, ao acompanhar
os pais, apenas observavam.
Alguns filhotes verdes apresentavam pelos em seus ombros. Eram macios e
arrepiados. Todo adulto tinha a cor da pele branca, só se podia ver a diferença
das raças pelos filhotes. O que se via em comum era que a beleza envolvia a
todos. Seu porte e movimentos faziam o quadro todo ser uma agradável visão para
os quem os observava sem interferir.Uma outra espécie acompanhava de perto os
casais daquela lua Eles eram um povo diferente, cujos seres não eram tão altos
e fortes, mas delicados e pequenos. Todos rodeados por um campo de luz branca
translúcida. Cuidavam para que os habitantes daquela lua, e de muitas outras,
não fossem perturbados em seus momentos de procriação. Apenas observavam, não
causavam incômodo, eram uma presença conhecida dos pais e mães e não dos
filhotes porque ainda não era o tempo.
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