Mas o tempo de conhecer o povo do Facho De Luz chegou. Aconteceu quando
NA viu, da entrada da caverna, uma forte luz no horizonte. Essa luz emitia um
chamado. Não era um som audível mas todos na caverna sentiram a convocação. FAH
e BÔ se olharam, esse era um bom sinal, ficaram satisfeitos, porém ansiosos. Para
lá se dirigiram, saidos de suas respectivas cavernas, todos os pares do lugar. A
família de FAH caminhou longo tempo por entre as montanhas até um planalto
abaixo delas. Ali, uma grande lona vermelha, de proporções gigantescas, se
estendia, sem sustentação, a dez metros do solo. Embaixo da lona estavam todos
os casais com seus respectivos filhos. Todos olhavam para um imenso buraco de onde
saia um facho de luz intensa. Muitos estavam ajoelhados, outros em pé, mas
todos imóveis e olhando fixamente para a luz. NA enlouquecia de curiosidade,
provocando preocupação no irmão que, para acompanhá-la, tinha que se movimentar
com uma rapidez da qual não gostava. ZU sentia que precisava proteger sua irmã,
pois havia uma energia muito forte vinda através de NA e isso não seria bom
para ela, se ficassem ali muito tempo.
Quando ZU viu a irmã se deslocando por entre todos, para chegar perto
do facho de luz, procurou, com os olhos, pelos pais. Estes o olharam com muita
calma, como se ali estivesse algo bem conhecido deles e importante. Também
diziam para ir com ela. Foi o que bastou para se mover como nunca havia se
movido – com muita velocidade.
NA estava bem perto do buraco, quando ZU se aproximou dela. Ali ela
percebeu que toda aquela experiência era demais para ela e procurou o conforto dos
braços de ZU para equilibrar suas energias. Enquanto estavam assim, algo na luz
se moveu e um som se fez ouvir pelo planalto. Seres muito luminosos e
longilíneos saíram de dentro dela e envolveram, em círculo, os dois, que
buscaram, intrigados, os pais com olhar. Eles também ficaram envolvidos pela
luz e estavam muito felizes. Seus filhos estavam maduros para outra etapa.
FAH e BÔ conheciam os seres que habitam o Facho de Luz. Eles eram os mensageiros
de muitos planetas. A luz era o seu meio de transporte e de todas as raças que
eles tinham conhecimento. Eram criaturas muito tranqüilas e tinham bom relacionamento
com todos os quais FAH se lembrava. Não entendia direito por que só eles eram responsáveis
pelo transporte, mas a movimentação entre planetas e dimensões requeria muita
habilidade. Era muito bom que os seres do Facho de Luz o fizessem, confiava
muito neles e seus filhos confiariam também. Mas, como muitas mães neste
Universo, FAH ainda não sabia que um de seus gêmeos não concordaria totalmente
com seu ponto de vista.
Foram transportados para um local do outro lado da mesma lua, aonde as
planícies pareciam sem fim. NA observou que crescia ali uma grama avermelhada
e, passando as mãos curiosas, sentiu como eram tenras. Viu que havia diversos
animais que se alimentavam disso e dos arbustos. Ficou muito intrigada e
curiosa para saber onde poderiam estar, pois o céu não tinha a faixa vermelha
no horizonte. Era mais escuro, e mais difusa a claridade que o iluminava. Não
havia cavernas, então dormiram em uma parte da planície onde os arbustos
formavam uma pequena floresta. Passariam a dormir menos horas, seus pais
também.
Ali os gêmeos perceberam que haviam filhotes mais velhos, nenhum da sua
geração havia vindo junto, nenhum havia sido envolvido pelo facho de luz.Seus
desenvolvimentos não estavam completos. Portanto, estavam em um ponto daquela
lua onde eram as crias mais jovens, e não chegaram a ver as de sua geração,
enquanto lá estiveram.
Isso não foi comum, pois, geralmente, todas as crias amadureciam juntas,
o que não pareceu motivo de preocupação para ninguém, mas não era comum. Assim,
os gêmeos ZU e NA continuaram crescendo e desenvolvendo suas habilidades sob o
cuidado amoroso de seus pais. A exploração do ambiente, naquele lado da lua, ensinou
os gêmeos a interagir com os outros seres e com a natureza local. Não haviam as
“rochas que choram”, mas parecia não haver mais a necessidade da ingestão dos
minerais que elas exudavam. A alimentação deles continuava a acontecer
naturalmente, da interação com a atmosfera e os filhotes pela amamentação, seus
excessos sendo regulados pela posição de conforto entre os casais. Isso foi
assim até que veio a puberdade, a conhecida transição para a idade de
maturidade física plena, comum em quase todas as espécies de todos os mundos.
Na espécie a qual pertenciam os filhotes nasciam em tudo iguais aos
adultos. Embora da mesma espécie, as raças tinham pequenas diferenças físicas
que faziam com que não houvesse relação entre gêmeos de casais diferentes, além
disso, era da natureza deles não se interessarem uns pelos outros, apenas pelo
seu único gêmeo.
A puberdade dos filhotes chegou com o desagradável aumento do ventre. A
certa altura, NA observou que o corpo de ZU começava a se modificar e sentia,
ultimamente, uma pressão muito grande no baixo ventre. Eles se olharam por muito
tempo, com muita suspresa. FAH, ao perceber o que acontecia, chamou BÔ sentindo
muita felicidade. Conversaram em linguagem falada, como não faziam há muito
tempo, e foi FAH quem disse:
-- A hora do encontro chegou, meu marido. Nossos filhos se reunirão em
breve. BÔ olhou com fascinação para os ventres levemente inchados.
-- Era mesmo tempo FAH, será muito bom vê-los nascer de novo. Você acha
que eles estão bem?
-- Sim BÔ, eles estão muito bem, mas precisamos voltar a nos reunir.
Eles têm que entender que é natural.
-- Sim, nos reunirmos será certo e belo, minha esposa.
Assim, em um dia qualquer, os pais de todos os gêmeos começaram a se unir
em longos abraços, o que não acontecia desde o inicio do período de procriação.
Como se uma primavera estivesse no ar, os maridos e esposas se uniam por todos
os lados na planície e sua ausência causava surpresa aos filhotes. A relação
deles era algo que produzia uma cor no ar que maravilhava os olhos. As crias
olharam com curiosidade para as nuvens coloridas por algum tempo e depois
perderam completamente o interesse, como a maioria dos filhotes do universo
faz. As cenas se repetiam por vezes e vezes, ensinando, pelo exemplo, o que em
breve os jovens casais iriam ter de passar.
Esse tempo chegou depois de um lento e sofrido período de crescimento
dos ventres até o ponto de estarem tão distendidos que toda colônia parecia
estar grávida. Aquilo causava grande constrangimento nos filhotes, que se
sentiam feios e fora do contexto como qualquer adolescente no universo. Não
sabiam que, enquanto pequenos, absorviam os componentes pelo leite da mãe, e a
passagem para a idade adulta faria que passassem a absorvê-los direto do
ambiente. Essa transição era o que inchava os ventres, e que desencadeava a
passagem para a adolescência. Mas, para quem passava por isso, tudo era uma
grande e triste confusão. Os pais se divertiam com o desconforto dos jovens e
faziam piadas, que não ajudavam a se sentirem menos abatidos. O ritual de
passagem chegava quando os ventres, tão dilatados, provocavam dores físicas que
os filhotes nunca tinham sentido. A dor desencadeava substâncias dentro de seus
corpos que levavam os agora não mais filhotes a se unirem para além da posição
de conforto.
Esse dia chegou quando a química desencadeada impeliu os gêmeos, em
desespero, um ao outro, num ritual instintivo de passagem e, assim como em muitos
outros, deixaram a natureza de sua espécie agir. As gêmeas possuiam um ferrão
interno que perfurava o orgão masculino e provocava a liberação do líquido que havia
se acumulado em seus ventres, fazendo-o escorrer. O alívio a que isso seguia
fazia com que não parassem de se abraçar. Outros casais de gêmeos, de outras
pelagens, também liberavam os líquidos das mesmas cores de suas peles. Dessa
forma, a planície se tornou uma grande palheta de cores, e o ar ao redor o
reflexo de um imenso arco-íris. O líquido, de caracteristicas gelatinosas,
permanecia sem evaporar ou ser absorvido pelo solo e, como era muito volumoso,
chegava a envolvê-los como numa banheira. Quem os visse, além da beleza das
cores, poderia sentir o alívio que presenciavam, e perceber uma espécie de
torpor que os tomava como que tornando-os sonâmbulos. Todos os pais observavam
de longe, deixando para seus filhos a privacidade de viver um dos momentos mais
importantes de suas vidas, assim como eles já haviam vivido num passado
distante.
Os habitantes do Facho De Luz, como sempre, os observavam e, para eles,
o ritual de acasalamento era a maturidade dessa espécie que eles seguiam a
incontáveis milênios. Os campos de maturação eram, no ápice da época de
procriação, um evento ansiosamente esperado, porque havia poucos acontecimentos
no universo que envolvessem aquele tipo de beleza. Cada casal produzia,
enquanto se unia, um som, uma gama de cores, uma fragrância específica. Os
casais de gêmeos, naquela que já era uma das planícies mais famosas do
universo, por sua paisagem fabulosa, tornava o evento um espetáculo sensorial
que, mesmo para quem estava acostumado a isso, como os guardadores do facho de
luz, sentia falta nos séculos que se seguiriam até a próxima temporada de
procriação.
Como o ventre desinchava lentamente e o torpor ia se diluindo concomitantemente,
foram se abraçando, por meses, parando apenas para dormir, o que acontecia
dentro dessa bolsa de gelatina que provia alimento, calor e proteção. Eram
muitos filhotes se descobrindo, inclusive o prazer e o seu par. Quando começou
a recobrar sua consciência, NA ficou surpresa com o que via em ZU. Nunca havia
enxergado tão longe dentro dos olhos dele. Ela não compreendia o que via. Era
seu irmão de gestação, seu marido agora, mas tinha algo mais que NA não sabia
nem mesmo pronunciar. Sendo muito nova, não sabia que estava amando e acordou
para essa nova consciencia com as duas mãos no tórax dele, olhando seus olhos e
envolta pelo líquido que os dois derramavam.
Estavam ainda deitados quando ZU pronunciou suas primeiras palavras
faladas. Ele lhe perguntou:
-- Eu tenho você dentro de mim? – disse com os olhos brilhando.
-- Sim ZU, você me tem dentro de você. Você enxerga onde você está?
-- Sim NA, eu estou dentro de você.
-- Sim, você está. – finalizou devolvendo o mesmo brilho nos olhos.
Nenhum dos dois sequer percebeu que haviam escutado a voz do outro e a
própria, pela primeira vez. Estavam muito absorvidos pela surpresa. Também não
perceberam que a cor azul da pele deles ia se transformando, conforme o líquido
escorria. Ambos estavam ficando da cor dos pais, marfim, e os cabelos de NA
agora mostravam o vermelho da aurora do planeta.
Quando o líquido todo foi absorvido, ZU se ergueu e estendeu a mão para
sua, então, esposa. Puderam ver que estavam mais altos, mais desenvolvidos e
seus olhares mais vívidos. Agora eram dois belos e genuínos representantes da
raça a que pertenciam. NA estava com os seios mais fartos e ZU estava bem mais
forte. Ela, por toda a eternidade, não se esqueceria da forma como os olhos
grandes e claros de ZU se dirigiram à ela, naquele dia. Era um olhar de
pertencimento que só aquela relação poderia trazer para toda a eternidade. Não
sabiam que a forma como reagiram ao ritual era sem precedentes para a espécie a
qual pertenciam. Entenderiam a profundidade disso mais tarde.
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