Quando os gêmeos, agora unidos em níveis mais profundos, voltaram para
seus pais, abraços foram trocados, confortos foram sentidos, e agora ZU envolvia
a mãe como um adulto fazia. Não era do tamanho dela, ainda, mas já conseguia
abraçá-la. Isso o deixou muito orgulhoso, e não iria mais sentir as
desconfortáveis cócegas do passado. BÔ abraçou a filha e disse, numa voz que
ela escutava pela primeira vez:
-Você está muito bonita e ZU agora está ai dentro – disse batendo seus dedos
no coração dela.
-Eu sou seu pai, tenho orgulho de saber que minha filha está dentro do
coração de seu marido.
-Sim, pai, eu estou sim!-respondeu NA com muita emoção.
Quase imediatamente, três representantes do povo do Facho de Luz apareceram.
Manifestaram felicitações para FAH e BÔ e disseram que o transporte estava
pronto. Percebia-se a satisfação no rosto dos pais. NA não entendeu o porquê. Não
gostou quando os pais disseram para irem na frente.
-Iremos em seguida. Vão com eles, vocês estão prontos. – disse FAH.
NA e ZU não sabiam que cada casal de gêmeos era transportado para o
planeta aonde as energias fossem mais próximas daquela que haviam produzido
durante o acasalamento. Um erro no endereço de destino e poderiam machucar os corpos
dos dois jovens, mas os habitantes do Facho de Luz não cometiam erros. Levaram
ZU e NA para um planeta gasoso, cuja atmosfera era uma briga de matizes
vermelha, amarela e marrom.
O transporte foi feito através de um canal de luz semelhante ao que NA
havia visto na planície. Pela proximidade da lua onde nasceram com o planeta
mãe, não foi necessário o uso de um veículo de transporte. Em minutos estavam
no planeta e nenhum desconforto foi sentido por nenhum dos gêmeos. Como toda
adolescente, NA estava excitada, embora constrangida pela ausência dos pais,
coisa que nunca havia vivido. ZU, como sempre, observava calado, dirigindo
olhares para NA. Se ela estivesse emitindo bons sinais, ele sempre estaria tranquilo.
Chegaram a uma cidade onde estavam sendo aguardados e foram recebidos
com muita alegria. Os seres masculinos do local eram em algo parecidos com ZU e
as algumas fêmeas tinham a pele mais escura e cabelos negros, mas a maioria era
parecida com NA. Mais tarde ela entenderia que eram uma raça só e que as fêmeas
transmutavam seus corpos consideravelmente, quando precisavam trabalhar.
Os machos levaram ZU para dentro da cidadela da montanha, e NA foi com
as fêmeas para o deserto onde viviam. O planeta, fora sua massiva atmosfera,
era um imenso deserto de areia muito fina. As cores do céu eram fantásticas aos
olhos de NA, que estava se sentindo desconfortável por não ter ZU ao alcance
dos olhos, mas sua curiosidade a levava para onde lhe conduziam. Gostou demais
de tudo o que viu. A areia foi algo novo e bom aos seus pés, e o vento, algo
que não conhecia, lhe deixou muito admirada, pois seus cabelos voavam e isso
era uma experiência que lhe agradava imensamente.
A noite não trouxe felicidade. Não deixaram que visse ZU, nem que
dormisse com ele e aquilo foi um choque para ela. Dormiu pelo cansaço que
sentia com as novas energias entrando, mas palpava uma grande violência contra
seu ser. Sabia que ele não estava sentindo bem, também, mas que obedecia aos
mais velhos. Ele estava do jeito que tanto conhecia: avaliando e tomando notas
mentais de tudo, assustado com a sua ausência, mas era crescido e não podia
gritar por ela como havia feito na infância.
Dentro da montanha, no quarto da cidadela que lhe reservaram, ZU estava
mesmo assustado, mas tinha já avaliado a situação e sabia onde NA estava. Dizia
para si mesmo que estava tudo certo, mas não conseguia sentir isso. Um dos
chefes do conselho, cujo físico era muito semelhante ao dele, disse que não
poderiam estar juntos por algum tempo, que era melhor assim e que todos ali
sabiam como isso poderia doer, pois também haviam passado por isso. Disse que
deveria aguardar com calma, mas essa era uma das palavras para definir ZU,
definitivamente não para NA. Ela permaneceu contida, não calma, pois estava
curiosa com a novidade das asas que lhe nasciam às costas e que não fazia ideia
do que eram, nem que podia tê-las e nem que sabia voar.
Foi naquela noite que as diferenças começaram. NA não havia tido tempo
para entender que a sua espécie partilhava de mais de um companheiro, pois não
havia visto nenhum casal com outro que não o seu gêmeo na lua onde havia
nascido. Ela não sabia que FAH, sendo madura para procriar, havia completado a
união com muitos maridos e seu pai, BÔ, com muitas esposas, embora a fidelidade
para com seu gêmeo uterino fosse eterna. Para poderem chegar a produzir a
gravidez gêmelar característica da espécie a que pertenciam, estava implícito
que haviam completado o numero de uniões necessárias para isso. NA não fazia
ideia do que seria pedido à ela.
E foi assim que, obedecendo a outros rituais muito antigos, naquela
noite as fêmeas mais velhas trouxeram, ou caçaram, NA nunca soube ao certo,
machos de espécies diferentes e trouxeram para o acampamento. Eram machos
jovens, magros e belos, todos calmos como ZU. Eles foram se aproximando da fogueira.
As jovens fêmeas olhavam com interesse, investigando-os como fêmeas geralmente
faziam. NA, sentada, olhava com curiosidade, mas não se ergueu. Nenhum deles
era forte como seu marido, nem tinha o cheiro dele, nem a cor dele muito menos
o jeito de olhar dele. Por isso, contrariando sua natureza investigativa, NA
calou, em profundo desgosto, e não se aproximou de nenhum deles, nem emitiu
chamado para sequer um.
As fêmeas mais velhas não gostaram de ver que NA não se interessava
pelos machos que haviam trazido. Isso não era certo, já que só fêmeas doentes
ou em parto não o fariam. Aquilo desagradou IZAH, a mais experiente da tribo,responsável
pelas fêmeas recém chegadas, que teria que falar no Conselho sobre uma situação
que não acontecia há muito tempo: uma fêmea jovem e saudável não querer escolher
um marido.
IZAH tinha a pele mais escura e cabelos fartamente negros e ondulados,
era belíssima. Não tinha o gêmeo dela perto nem nenhum de seus maridos. Sua
história havia sido diferente do usual e estava no planeta sozinha esperando o
retorno de seu gêmeo. Até que isso acontecesse, por estar lá há muito mais
tempo que qualquer um ali, era a responsável pelo treino das fêmeas jovens e
pelas incursões aos locais onde travavam os combates. Naquele sistema, as
fêmeas eram as responsáveis, por natureza da espécie, a manter a emissão dos
fortes distúrbios dos campos magnéticos que o centro do planeta emitia, e que
era expelido pela mancha, em equilíbrio. As fêmeas absorviam as energias e
transformavam-nas em algo que não debilitava o planeta. Da forma como essas emissões
saiam pelo canal interior,sem interferência das fêmeas, seria provocado um
cataclisma de nível global.
Não era fácil para IZAH, “entre os fortes a mais forte”, fêmea em idade
de procriação, estar sem seus maridos. Pela primeira vez em sua existência
sentiu raiva ao ver aquela jovem recém-chegada que tinha o gêmeo consigo e
teria seu Segundo marido, não deixar o curso natural acontecer. Não era
possível que a filha de FAH, muito conhecida sua e de fama renomada, estivesse
rejeitando um Segundo Marido. Não era natureza da linhagem de NA e causava
outro sentimento desconhecido em IZAH... o da surpresa. Ela presenciava uma
jovem sem treino, filha de uma linhagem tão preparada quanto a sua, rejeitar o
que para ela fazia tanta falta. Isso era demais. Voou até a cidadela para falar
no Conselho.
Na montanha, ZU sentia a energia de NA e foi perguntar aos mais velhos
qual poderia ser a razão dela estar sofrendo. Os conselheiros se entreolharam e
decidiram que era hora de explicar a situação.
O ambiente do planeta era extremamente hostil principalmente para quem
vinha de fora. Isso queria dizer que as energias eram muito pesadas para os
jovens que chegavam. Ele e a irmã aguentariam a vibração do planeta por um
curto tempo, depois disso começariam a adoecer. Em cada local que vivessem isso
se repetiria, e o passo para se adaptar a situações como esta era, no caso da
espécie deles, através de NA. Ela havia nascido receptora. A forma como isso se
processava era que ela recebesse o que era conhecido como “fator”, uma enzima, que
faria com que o corpo de ambos passasse por uma transformação que permitiria à
eles absorverem as energias do planeta e estarem aptos a viver ali. Esse fator
era passado, geralmente, através de um macho nascido no planeta.
-Ela terá o Segundo Marido já? Tão cedo? – ZU perguntou.
-Sim, é necessário. Ela precisa encontrar o Segundo Marido logo, vocês
já estão muito próximos do tempo que recém chegados aguentam por aqui.
-Por que ela está triste?
-Não sabemos, mas parece que há um problema com ela.
-Qual problema?
-Sua irmã não está aceitando os machos locais. - ao falar isso, olhavam
entre si com surpresa. Precisamos que isso aconteça rápido, para que vocês não
adoeçam.
-Mas ela está sofrendo, algo não está bem. – era o que conseguia
explicar.
-Vamos reunir todos e vamos conversar. Você espera nossa decisão.
ZU saiu do Conselho muito abatido. Seus pais não estavam ali para
ajudar a entender e sua responsabilidade era proteger NA. Sentou calmamente e
esperou. Quando o chamaram estavam reunidos todos do Conselho do planeta.
-ZU?- disse o macho mais velho - Há muito tempo não acontece de uma
fêmea não aceitar um macho, seja concubino, ou marido, em sua chegada. Todas as
outras jovens já escolheram um Segundo marido, NA não quis tocar os que as
treinadoras trouxeram.
-Mas isso não pode ser explicado para ela?
-Sim, você fará, e dirá a ela sobre a necessidade de isso acontecer
rápido. Nós escolhemos um jovem macho que tem grande domínio sobre as energias,
que produz um excelente fator e será muito bom começo para resolver essa
situação.
-Ele protegerá NA?
-Sim, ele tem boas capacidades. Ela está vindo para cá agora, vá e
explique a situação.
-Vocês não querem dizer isso pessoalmente?
-Você é o Primeiro marido, você fala com ela. Ela confia em você.
NA veio voando encontrar seu marido. Queria dizer que deveriam estar
juntos, que isso era o certo. Encontrou-o na plataforma de entrada da cidadela.
Não se cabiam de felicidade, ficaram em posição de conforto por bastante tempo.
-NA? Você precisa de um macho daqui. – falou no ouvido dela.
-Eu tenho você em mim, para que outro?
-NA... você precisa de um macho daqui... será seu Segundo marido.
-Do que você fala? Eu tenho marido. – era, realmente, uma conversa
muito estranha para ela.
-Você precisa de outro marido. Nós precisamos que você receba o fator
que fará com que possamos continuar aqui. Nossos pais não virão e você não
poderá ter filhos enquanto não receber o fator daqui.
-Mas, ZU, isso precisa mesmo acontecer? Eles não deixam você comigo. Por
que não?
- Por que se nós ficarmos juntos, sua recepção não fica aberta para o
planeta, só para mim. NA, você precisa disto. Eu não vou poder cuidar de nós se
não pudermos receber as energias desse lugar.
-Você precisa mesmo disto?
-Nós precisamos disto. Você é a porta, NA! Você sabe que é.
-Sim, mas eu não ... – queria dizer que não havia gostado da aparência
dos machos dali, mas calou - tudo bem, ZU.
-Você vai encontrar agora o macho que escolheram para nos ajudar. Não
demore, vá agora. Eu estarei dentro de você!
Dali saiu a figura mais deslocada, mais entristecida, mais encolhida,
que o planeta havia visto em muito tempo, o que não passou despercebido pela
Grande Rainha. Voou até onde encontraria o Segundo marido, não muito longe, no
deserto. Ele estava sentado e a viu chegar. NA olhou para o que parecia um
macho e não pode acreditar. Era estranho, muito estranho. Bem menor que ZU e
magro. Sabia que os machos dali eram menores que as fêmeas, mas no dia que os
trouxeram para o acampamento não chegou tão perto deles. Este tinha cabelos,
eram lisos e negros, tinha olhos puxados, o que constrangeu NA muito. Seu
cheiro não era como o de ZU, não era da mesma cor e não satisfazia o olhar como
seu marido fazia. Não podia ser marido seu, não podia. Ele tentou pôr a mão em
seu ombro e aquilo a incomodou mais do que quando seu ventre cresceu, não podia
ser um marido ...aquilo ... não podia. Não ajudou muito ele tentar acalmá-la,
na realidade nada do que fizesse ajudaria. NA estava assombrada demais para
entender.
Mesmo a distância, ZU percebeu que algo não ia bem. Estava no Conselho
e falou:
-Ela não está bem, algo não está certo. Vocês tem certeza de que esse
macho é o Segundo marido?
-Sim, ele é o Segundo marido.
-Ela está vindo para cá e acho que ela não aceitou ele.
Os conselheiros se entreolharam e abaixaram a cabeça. Fazia muito tempo
que não tinham uma fêmea que desse esse tipo de trabalho. Decidiram intervir.
-Você poderá ficar com ela está noite, ZU. Há muito tempo atrás, outra
gêmea teve problemas quando chegou e estar perto do marido a fez aceitar o
Segundo. Sua irmã lhe tem muito forte dentro de si, deve ficar orgulhoso, ela é
excelente fêmea.
-Obrigado. Ela está muito forte dentro de mim também.
NA aterrissou na plataforma muito agitada. Voou direto para o conforto
no fortes braços de ZU. Tremia. Levou um
tempo para ambos equalizarem seus campos. Ele nunca havia tido trabalho para
acalmá-la.
-ZU, o Segundo marido não parece com você, ele tem cabelos. Isso não é
bom. Não gosto de olhar ele, e cheira outra coisa, não como você.
-Eu sei, eu vejo. Vem dormir comigo.
-Eu posso? Você vai ficar em conforto comigo?
-Sim, venha ficar em conforto. – sorria aquele doce sorriso peculiar
dele.
Dormiram juntos o que realmente foi inconveniente. A regra de separar
os gêmeos até a chegada do Segundo marido, ou esposa, era certa, sendo uma
questão de sobrevivência. No caso de NA, estar juntos ZU não iria ajudar e pela
manhã isso se provou correto. ZU explicou que deveriam tentar deixar o Segundo
marido passar o fator.
PI, o Segundo marido, entrou no quarto com apreensão. Iriam tentar mais
uma vez, com a presença de ZU, para acalmá-la, o que foi outro erro. Ela até
tentou estar calma, observou bem PI, os dois machos se olharam e ZU falou
tranquilamente com PI, agradecendo ele estar ali e ter paciência. NA não gostou
daquilo. Não conseguiu pensar em deixar outro macho estar com ela. Foi sentindo
algo muito ruim, algo que lembrava rocha dura, o toque da rocha fria e dura.
Não houve meios de conseguir deixar ao menos que ele encostasse em sua
pele, ela não aceitava.
-NA, ele veio ajudar. Fica quieta! – não era do seu feitio dar ordens.
-ZU, ele não parece você, não gosto de não parecer você, isso é duro,
não estou bem! -seu irmão sentia que ela não estava bem mesmo.
Conselheiros haviam lhe avisado da necessidade de segurá-la, se ela não
permitisse a aproximação do Segundo marido e foi o que ele fez. Segurou NA
pelos pulsos, deitada, e disse para ela se acalmar e deixar acontecer. Um macho
dessa raça é um pouco maior que a fêmea mas, como BÔ sabia e seu filho não, as
fêmeas eram mais agressivas e nesse momento podiam machucar quem estivesse
perto. Vários machos mais velhos carregavam as cicatrizes do ataque de suas
fêmeas. NA não estava grávida, mas estava se sentindo ameaçada. Ela tentou se
acalmar, pois o toque de ZU naturalmente fazia isso, até que o Segundo marido
tentou, novamente, tocá-la. NA empurrou facilmente ZU, soltou-se e feriu PI sem
dó.
Foi o que bastou para machos do Conselho aparecerem no quarto e
colocarem correntes em NA. Eram mais velhos e conseguiam segurar uma fêmea
jovem e assustada. Amarraram-na a cama onde havia dormido com ZU.Disseram para
seu gêmeo que não poderia ficar lá, pois ela teria que aceitar o Segundo marido
mesmo que para isso tivesse que ser acorrentada.
PI tentou se aproximar mais uma vez fazendo com que aquilo que anteriormente
havia apenas irritado NA se transformasse em ofensa odiosa. Porém, naquele
exato momento, NA orou. A primeira oração de sua vida, dirigida àquela que era mãe
de todos no planeta e ela sabia, por intuição, estar vendo seu sofrimento. Rezou
que não deixasse sua vontade ser violada.
O pedido foi ouvido pela grande responsável do planeta, mas a reação
que ninguém poderia antever aconteceu quando PI tentou deitar sobre o corpo
acorrentado de NA. Em minutos sua pele escureceu e enrijeceu. Uma longa cauda
surgiu, seus olhos já não eram claros e suas unhas agora eram garras. Não um
mostro, mas sim um ser feito para combate. Sua força quebrou as correntes e
estava a ponto de machucar aquele que lhe ofendia quando viu uma águia
gigantesca descendo, suas garras a prendendo junto ao solo. Era toda eriçada e
vermelha, tão forte que chegava ao rubro. Dali veio o nome pelo qual ela o
chamaria para sempre: Pássaro de Fogo.
A imensa ave não só era mais forte que ela, mas seu contato a fez
entrar num torpor que lhe manteve imóvel. Essa criatura olhou para o grupo de
machos do Conselho. Era maior que todos eles. Dirigiu o olhar para ZU, que
estava caído a um canto, olhando tudo com muito espanto , sua pele da cor e
textura da irmã e um rabo que apareceu do nada. Esse pássaro falou:
-Estão satisfeitos agora que criaram um pesadelo para si próprios?
-Grande Alado, não sabíamos que isso acabaria desta forma. Nunca
presenciamos uma metamorfose, sabemos que existe pelo que os antigos contaram. Isso
não se dá a muito tempo.
-Não me interessa o quanto sabem a respeito, mas, agora que aconteceu,
esta fêmea deverá ficar presa até que aceite o Segundo Marido. – e falando isso
ele próprio colocou NA entorpecida de volta as correntes.
-O processo de aceitação do Segundo Marido tem que se completar , mesmo
que a Grande Rainha tenha dado seu fator diretamente a fêmea. Vocês a mantenham
longe do gêmeo dela e de alimento até que ela aceite aquele ali. – e apontou o
bico para PI, machucado e assustado.
NA ficou sozinha, amarrada por muitos dias, era uma fêmea jovem e
forte. A metamorfose a fez mais forte ainda e para enfraquecê-la teriam que
esperar. Seu ventre começou a crescer e a dor foi ficando insuportável. Pela
primeira vez na vida, chorou. ZU sentiu o choro dela, e seus pais também, o que
causou um problema no Conselho. Eram um povo não acostumado a ver um de seus
pares em tanto sofrimento e choravam silenciosamente por isso.
Quando NA, com o ventre extremamente dilatado, e um vapor exalando de
suas recém nascidas escamas, gritou por ZU, num grito parecido com o da hárpia,
de uma tristeza imensa, PI entrou no quarto trazendo uma tigela e panos .O
líquido era verde e ele, com muita cautela, tremendo as mãos, passou o pano
embebido no líquido pelo imenso e escamoso corpo da jovem fêmea que tanto ódio
lhe votava. NA observava, fraca, sentido uma dor profunda e triste como nunca
havia estado. Olhou para o Segundo marido agradecendo o alívio que o líquido
causava em sua pele. Então ele falou:
-Eu não lhe quis mal algum. – NA apenas virou a cabeça dando um
suspiro.
-Também não me deixam ver minha gêmea, enquanto não estiver com você,
NA. – ela olhou para ele, que sentia muito em ver tamanha fêmea sendo obrigada
a algo que não era de seu agrado.
Dois membros do Conselho entraram, com algum desconforto por toda
aquela situação. Nunca haviam visto uma fêmea amarrada daquela forma, nem haviam
observado tanta dor. Tudo aquilo daria muitas reuniões de discussão, com
certeza. Levantaram-na da cama deixando-a em pé. Verificaram as correntes e
saíram.
Assim, a imagem que se via era de uma criatura de grande proporções,
cor agora azul escura, cuja pele lembrava a de um lagarto, longos e fartos
cabelos escurecidos como sua pele, asas e rabo que jaziam murchos ao encontro
da pedra fria, o ventre claramente dilatado, presa a uma parede de rocha clara,
as correntes esticando seus braços e pernas para que não conseguisse quebrar os
elos, o que não acontecia apenas por causa da fome a que impuseram ela.
PI se aproximou dela, seu ódio não tinha passado, mas a dor e a
fraqueza fizeram melhor trabalho que as correntes. Ela não movia um músculo
sequer, era jovem demais para nomear ou mensurar o que passava. O único
sentimento benéfico foi o ventre desinchar conforme o líquido, não azul e
gelatinoso, mas escuro e sanguinolento escorria pelo chão, enquanto PI fazia
sua parte. Não houve uso para aquele líquido, era fruto de uma ofensa e não se
prestava a nada.
Quanto tudo terminou, ZU e outros membros do Conselho entraram no
quarto. PI não conseguiu passar o fator para NA, a intervenção direta da Grande
Rainha já o havia feito, e a metarmofose era prova disso, mas a aceitação como
Segundo marido havia se completado. NA esperou todos entrarem e pronunciou as
únicas palavras de todo aquele drama:
-Nunca haverão crias minhas com este macho.Eu não permitirei.
Tiraram as correntes e NA, sem dar um único olhar para seu gêmeo,
conseguiu voar até um ponto do deserto onde ficou sozinha, calada, imóvel,
absorvida em sentir as dores da primeira ofensa recebida desde que nascera.
Algo que machucava mais ainda por ter acontecido tão perto da grande alegria
que tinha sido descobrir o significado da união nos campos de maturidade.
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