Como prometido, Lilitih foi falar com o casal de humanos. Anjo Belo não acompanhou, porque, embora da mesma linhagem, ele não era humano, mas sentiu bem em levar consigo Metvah, que estava mais agressiva que nunca pois a gravidez a fazia assim. Em momento algum se soube porque Lilitih quis trazê-la, não houve como prever o que aconteceria naquele encontro, mas a presença de Metvah naquele estado foi determinante.
Os quatro se encontraram
na grande plataforma do Conselho, a àrvore mais antiga do local. Adam e Evah
seguiram o chamado que vinha de lá e encontraram as duas imensas fêmeas
esperando. Metvah nunca havia gostado de Adam, um dos piores exemplos de tudo o
que detestou na floresta e o contraste que a união com Anjo Belo mostrou à ela
só reforçou o quão torto tudo aquilo era. Assim que o viu entrar no salão,
puxou-o para si.
Lilitih perguntou a
Evah, depois dos cumprimentos feitos:
-Porque você não
deixa seu marido lhe passar o fator? Porque vocês não se tocaram ainda?
Evah emitia um
estranho padrão de energias. Não era natural nem mesmo para um humano e Lilitih
sabia bem, porque ela era um deles. A face de Evah era calma,mas petulante,
quando respondeu:
-Nós não precisamos
disso.
Embora para quem
visse a cena, a reação que se seguiu parecesse imediata, houve tempo de Metvah e
Lilitih compartilharem imagens de como isso seria possível se todas as espécies
da criação precisavam dos fatores para sobreviver ao ambiente, incluindo eles?
E como Evah se atrevia a falar daquele modo se ela mesma e seu Primeiro marido
Adam estavam visivelmente sofrendo as consequencias da falta de fator em seus
campos, e, para irritar as duas ainda mais, como se atrevia a falar isso se ela
sabia que todos tinham conhecimento do erro de padrão deles e que estavam
causando disturbios em grande escala?
Aquela resposta foi o
fim de uma era.
Metvah, alterada pela
gravidez e mais agressiva do que nunca, avançou para Adam e fez o mesmo que um
dia havia feito com ZU... forçou-lhe o fator, que nele foi absorvido com grande
violência.
Metvah e Lilitih se
retiraram como haviam chegado, calmamente, com a majestade que lhes era de
direito, sem nenhum perdão, a mesma Lei que Vethusta havia mostrado para NA no
Oceano Profundo. Adam, alterado pelo fator de Metvah, tomou sua Segunda esposa
com violência e passou-lhe o fator dele e o recém adquirido de Metvah. Quando a
troca se completou, todos os habitantes da floresta puderam ver, ao longe, o
fogo que desceu dos céus, sem saber o que aquilo significava. Um som grave,
baixo e potente ecoou em todo o céu, sentido na pele por todos e, em um átimo
de segundo, foi como se todo o ecosistema houvesse sido transportado para um
lugar diferente, onde havia menos brilho, menos luz, menos energia, que antes.
Os habitantes não compreenderam que o que acontecera era a queda para uma
dimensão mais densa e não a mudança de lugar. A vibração de tudo e todos havia
sido transformada drasticamente, por razões que ficariam claras centenas de
milenios depois. Todos acordaram como de um sonho, sentiam cansaço e dor, não
conseguiam focar suas consciências, o peso em seus corpos era uma sensação nova
e desagradável.
Esse novo estado da
matéria era uma cópia em quase tudo do paraíso que haviam deixado. As árvores
não eram tão altas e massivas. Havia uma montanha onde antes era floresta e na
base dela habitavam humanos. Eles tinham um corpo diferente dos que NA havia
tido contato, incluindo Lilith e Adam, mas os costumes eram os mesmos e estavam
em muito maior número, ali. Andavam a esmo, como que dementes e todos os
antigos habitantes decidiram fazer o mínimo de contato com eles, depois das
consequencias geradas pelo único casal humano que haviam conhecido. Houve um
lento mas sensível escurecer das cores do lugar, como se uma sombra lentamente
cobrisse tudo. Os antigos habitantes continuavam a ser como antes, seguindo
suas naturezas, mas tudo era penoso, confuso, como se a sonolência que todos
sentiam provocasse a perda gradual de suas memórias. Pouco foi o tempo de NA e
ZU ali.
Os humanos passaram a
cobiçar as fêmeas da floresta. Estavam chegando ao ponto da maturidade sexual,
mas olhavam outras fêmeas que suas gêmeas e sentiam inveja dos corpos maiores e
mais robustos dos outros machos, e isso era motivo de assombro para todos. Ninguém
entendeu como se deu o primeiro ataque dos humanos contra o povo da mata, não
era uma ação aceitável para nenhuma espécie que haviam tido contato, principalmente
sem um chamado.
NA e ZU só perceberam
o ataque quando era tarde, muito provavelmente por causa da lentidão que
acompanhava aquele sono constante. Os dois estavam em posição de conforto na
mesma praia em que chegaram, conversando sobre os estranhissímos acontecimentos
e seus sentimentos sobre isso. Quando sentiram o chamado de Jaguar e de outros
do grupo, já haviam sido sedados pelo Povo do Facho de Luz, como quando fizeram
no Planeta mãe. Naquele exato instante, todos os gêmeos que haviam sido
trazidos ao planeta estavam sendo sedados também. Os pares que pertenciam ao
planeta lutavam, desesperadamente, para conter o ataque e defender seus maridos
e esposas que jaziam inertes aonde haviam caído pelos efeitos dos sedativos.
Perceberam que o
motivo do ataque era sequestrar justamente os casais que não eram do planeta.
Sentiram maior desespero quando entenderam que o Povo do Facho de Luz estava
sedando aqueles à quem os humanos cobiçavam. O povo da mata conseguiu fazer
recuar os atacantes para a base da montanha. Jaguar e Aletha lutavam como nunca
haviam feito antes. Eram bem maiores que os humanos, mas estavam na desvantagem
de dez para um, e, em meio a luta, nenhum deles viu que os que dormiam estavam
sendo levados para as naves. Só quando essas cruzaram os céus foi que entenderam.
Os humanos também perceberam e fugiram, porque o que queriam não estava mais
ali.
Jaguar e o povo da
mata correram para onde viram seus pares pela última vez. O desespero era tão
forte que seus rostos estavam transformados pela dor. Aletha sentia lágrimas
correrem pelo rosto, pela primeira vez em sua, até então, feliz existência.
Quando chegaram na praia, Vethusta, Nia e Neruh já estavam lá, vendo os rastros
deixados na areia. Jaguar soube, então, que a Segunda esposa, que por tanto
tempo havia esperado e que tanta honra havia lhe trazido ao aceitá-lo, havia
sido levada, bem como seu irmão, aquele que havia feito Aletha tão feliz. O
peso da dor o fez cair de joelhos e a mata ouviu seu rugido, mas, pela primeira
vez, de dor. Vethusta tinha o olhar frio como de uma rocha. Havia perdido sua
Primeira esposa e, agora, sua Segunda. Não faziam idéia para onde os gêmeos haviam
sido levados.
Jaguar e Aletha foram
se deitar e trocar conforto, ambos muito entristecidos, mas Aletha havia
sentido o golpe muito mais. Ela tinha verdadeira adoração por seu Segundo marido,
ZU. Jaguar percebeu que o conforto que ele estava passando não estava sendo
suficiente para supri-la de energia como antes da queda, e, depois dessa perda,
estava bem pior. Talvez fosse a dor, algo novo para eles, talvez a sensação de
peso e as sombras que caiam sobre a mata, não sabia ao certo. Entendeu que não
seria fácil aguentar o vazio provocado pela ausência daquela fêmea formidável
que tanto bem havia feito à ele. Ela, que havia sido motivo de história em
todos os cantos dos reinos, pela dificuldade em aceitar outros machos e seus
novos fatores, havia aceitado-o sem luta, com amor e admiração, recebendo seu
fator imediatamente após conhecê-lo. Jaguar chorou suas lágrimas junto com as
de Aletah.
Vethusta derramou
lágrimas junto com todos. Restava sua Terceira e bela esposa, Nia, mas seu
lamento foi ouvido por Tétis e o povo de todos os Oceanos, fazendo sua mãe
emitir um chamado que ecoou fortemente em todos os lados, e que dizia para ele retornar
à casa de sua origem. Olhou para Nia, fêmea forte, como todas suas esposas, sua
pele negra brilhando com lágrimas silenciosas correndo em seu rosto. Ela ainda
teria seu gêmeo para protegê-la e dar conforto. Nia entendeu o que seu olhar
dizia e o abraçou, trocando um último conforto, sem saber quando iriam se ver
novamente, mas isso não importava, porque era certo que o fariam.
Despediu-se de todos
com um olhar e um aceno de cabeça, tudo ali estava muito triste para despedidas
mais longas, e entrou na água. Fez o percurso inverso que os quatro haviam
feito para chegar ali, mas agora sozinho. Não foi impedido pelo Povo do Facho
de Luz em nenhum momento. Voltou à casa de sua mãe e permaneceu lá. Um tempo
interminável se passaria antes que visse NA novamente.
Dias corriam e Aletah
percorria as matas sem rumo, observada à distância por seu gêmeo. Estava
perdendo a cor dourada que ambos tinham. Isso estava acontecendo com os outros
pares de gêmeos que restavam, e as fêmeas estavam sendo sequestradas pelos,
agora, odiados humanos. Iam sem lutar, porque a fraqueza as consumia e já não
se lembravam totalmente de quem eram. Foi o que aconteceu com Aletha. Um macho
humano a violentou, aproveitando seu estado sonâmbulo, em uma relação não
permitida, e, para espanto de Jaguar, a engravidou como anjo Belo havia feito
com Lilith. Aletah foi levada para onde os humanos habitavam. Depois de dar à
luz, foi levada pelo Povo do Facho de Luz.
Foi a vez de Jaguar
vagar sozinho pela mata, sem nenhuma de suas esposas e vendo o mesmo acontecer
com os da sua espécie. Passou a perseguir e matar humanos, percebendo que eles
tinham corpos mortais, e tomou suas fêmeas. Sem suas esposas e concubinas, era
isso que aconteceria com todos os machos de seu porte, cedo ou tarde, pela
falta de conforto e fator. Os humanos tomaram ele por um deus. Faziam isso com
tudo que era mais forte que eles, o que não era difícil. Essa violência
perdurou até encontrar NA e ZU novamente.
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