Todos os habitantes da mata estavam reunidos no salão do Conselho, uma versão gigantesca das plataformas onde residiam e cuja árvore que servia de base era a maior e mais antiga do lugar, para tentar explicar de onde vinha o desequilibrio que observavam na mata e sua relação com os tiros no céu. Deduziram que o motivo daquela raça de seres alados fazer a guerra era justamente o casal de humanos, Lilitih e Adam. Um lado dizia que a fêmea deveria ser afastada e Adam entregue à seus outros irmãos. Sim, essa espécie não nascia aos pares, mas em grupos de três ou cinco e NA lembrou-se de como era conhecido o problema das raças que produziam gestações assim. O outro lado dizia que deveriam insistir na troca de fatores desse casal e não afastá-los, mas isso estava levando tempo demais e prejudicando o equilíbrio de uma area imensa, lar de muitas espécies.
Jaguar era um dos
membros mais antigo do Conselho e disse:
-Devem estar
descontentes com a fêmea humana, que deixou seu macho, indo viver no deserto ao
sul, fora dos domínios da mata.
Neruh lembrou que
Adam havia vindo se lamentar, dizendo que antes de abandoná-lo, Lilitih havia
dito que fosse fazer com o Grande Rei do jeito que fazia com ela, para ver se
ele aceitaria. Todos gargalharam... ela tinha senso de humor.
Nenhuma fêmea ali
tinha simpatia por aquele macho, mas como uma entre elas não estava satisfeita
energéticamente e não estava processando fatores, houve grande preocupação
entre todos os presentes. Uma das fêmeas falou:
-Isso tem que ser
corrigido o mais rápido possível, pois a dor já esta sendo dividida entre todas
nós. – seguido pelo comentário de um dos machos:
-Nos desonra a forma
como o humano trata essa fêmea, não se importando de lhe passar fator e
completá-la. Jaguar concordou, adicionando:
-Mais estranho ainda
é que três das criaturas aladas foram atrás de Lilitih e insistiram para que
ela voltasse. Não sabem respeitar a decisão de uma fêmea. Nunca ouvimos falar
disso.-estava chocado. Nia completou dizendo:
-Ela lhes respondeu
que não desafiassem sua descisão, como toda fêmea de boa linhagem teria dito.
Não entraram em combate com ela, provavelmente com medo do direito a postura
ser clamado.
Foi Aletah que passou
para a parte pratica da questão, dizendo:
-Devemos apresentar
nossos Maridos para ela, não podemos aguentar sentir dor por mais tempo. Algum
deles irá lhe passar fator!
Houve acordo geral e
o Conselho se dissolveu tendo pressa em resolver o desequilíbrio o quanto
antes.
As fêmeas começaram a
apresentar seus companheiros procurando satisfazer a querida irmã. Ela aceitou
a todos com prazer, mas não houve troca de fatores com nenhum. Vethusta foi
enviado por Metvah e NA, e não teve melhor sorte. ZU não foi cogitado. Ele e NA
eram contaminados por linhagem humana e como Lilitih, quando deixou Adam, havia
jurado ódio pelos da espécie dela, era melhor nem tentar.
Ao se esgotarem os
machos locais, Lilitih resolveu, ela própria, o problema. Certo dia,de todos os
pontos da mata via-se um facho de luz que se perdia no céu. Vinha da parte do
deserto onde ela estava morando e era algo anormal. Entre todos que correram
para ver do que se tratava, NA e ZU foram os primeiros, podiam voar, e nunca
mais esqueceram o que viram, porque a cena era sem comparação em beleza e
estranheza.
A criatura alada que
Vethusta e ela tanto admiraram, quando estavam observando a batalha, era conhecido
como Anjo Belo. Não sabiam seu nome, por isso o chamavam dessa forma. Era ele
que estava com Lilitih e havia conseguido o que todos os outros não haviam -
passar o fator. Ele e a fêmea humana se uniram de forma tão profunda, com
tamanha força que um fogo branco os consumia e produzia aquele facho ao redor
deles. A felicidade e prazer de ambos era visível. O problema estava resolvido
e o equilíbrio voltou para todos na floresta por algum tempo, porque alguns
dias depois uma nave do Povo do Facho de Luz trouxe outra fêmea para Adam, mas
de uma geração mais nova. Seu nome era Evah e, por não estar madura, não
poderiam trocar fatores por algum tempo e, embora não parecesse nem mais nem
menos entusiasmado com a nova esposa, o equilíbrio estava de volta e todos estavam
felizes.
A vida continuou
entre as caçadas e as trocas de fatores entre os casais de gêmeos. Passavam o
tempo entre a plataforma, vendo o sol levantar e se pôr, em esplendoroso céu de
uma mata luxuriante, adorando-se uns aos outros, bebendo o ‘líquido que
alimentava’, e mantendo o equilíbrio dentro dos limites da floresta. Para NA,
Jaguar era uma honra que ela admirava todos os dias, um presente, que nunca
deixou de fazer seus olhos brilharem de alegria. ZU e Aletah não se largavam,
por mais que trocassem fatores, e parecia que nunca iriam estabilizar seus
campos, então, sempre sabiam onde estavam e o que deviam estar fazendo.
Vethusta e Nia se complementaram muito alegremente, mas sofriam vendo como
pobre Neruh se esforçava para prover a ávida e luxuriante Metvah, que ainda não
olhava com olhos felizes para nada na floresta.
O tempo de gerar nunca
chegou para eles. Evah e Adam foram o motivo da sequencia de acontecimentos que
provocou isso. O casal não tinha trocado fatores, nem sequer tentado. Evah estava
madura havia algum tempo e Adam não havia tocado ela. Uma nova reunião do
Conselho, novamente sobre o casal de humanos, foi convocada. Todos estavam
irritados com o desequilibrio que voltara a acontecer em suas fêmeas. Todos
falavam, uns menos pacientes que outros:
-Sabemos que os
humanos tem um desenvolvimento diferente dos nossos, mas já é demais! – disse
um.
-Como resolver isso?
Não sabemos se o conflito está em não terem se desenvolvido perto de seus
genitores ou se não estão se adaptando ao ambiente? – outro falou, cortando o
primeiro.
-Pode ser apenas
rejeição entre macho e fêmea! Vamos apresentar, como fizemos com a primeira, os
machos à esta também e rezar que se resolva!. – disse outro.
Jaguar sempre fora
paciente e não seria diferente agora. Pediu silêncio no salão e pensou por
alguns minutos. Falou com voz clara e segura:
-Não sabemos o que
está causando isso. Sem saber a causa , não teremos como ajudar. Lilitih e o
alado que a acompanha são dessa linhagem. Devem saber mais sobre este casal que
nós. Um grupo deve ir até eles e pedir que intercedam por nós.
Fazia sentido, foram
escolhidos NA, ZU, Metvah e Vethusta, para a tarefa, pois NA ganhara
experiencia por o que viveu com o Segundo marido e seu grupo iria com ela.
Atravessaram a
exuberante floresta que aprenderam a gostar, com inquietação em seus corações.
Metvah quase falou que era isso mesmo que poderia acontecer em um lugar tão
ruim, mas como nunca falava, não seria agora, numa situação tão séria, que
faria. Chegaram na divisa com o deserto e admiraram as cores do pôr do sol,
seus tons quentes nas areias e rochas, quase lembrando a lua onde NA e ZU
haviam nascido, numa versão menos drástica, com cores mais amenas.
Foram andando
lentamente, absorvendo todas as informações inquitantes que o ambiente lhes passava.
NA agradecia sentir a areia em seus pés, como no Planeta mãe, acalmando seu
coração e mantendo sua mente tranquila. Nada estava claro... Não era algo que
podia resolver em vôos, nem em combates, e não se sentia confortável com o sentimento
novo de insegurança que aprendia ali. Foi pensando nisso que, descendo um vale
rochoso, encontrou mais uma surpresa. Todos pararam para olhar.
Aquela união incomum
entre a humana e o ser alado já havia gerado seres! Seria uma das visões que NA
também nunca mais esqueceria, pela beleza, pela estranheza e pelas duras
consequencias que seguiriam: sentada estava Lilitih, mais bela que nunca, com
seu halo brilhando intensamente e um bêbe em seus braços. Outros andavam ao seu
redor e de Anjo Belo, que também resplandecia com a energia de um macho que havia
alcançado o grau de gerador. Seguindo a anomalia que os cercou desde o início,
NA viu que o casal não havia gerado como todos. Anjo Belo não produziu os fetos
machos e Lilitih as fêmeas. A concepção havia acontecido com a mistura do
código dos dois em cada filhote que nascera. Era extraordinário! Os filhotes
eram mistos!
Todos estavam mudos,
absorvendo a visão e processando as consequencias em suas mentes. Será que
aquela vibração já havia chegado ao povo da mata ou eram os primeiros a saber?
Foram andando devagar até o local onde estavam. Metvah não tirava os olhos de
Anjo Belo. Todos notaram isso, ele mais ainda, que olhou para Lilitih e, com
sua concordância, caminhou ao encontro de Metvah analisando–a satisfeito.
O que não seria de
acontecer... aconteceu. Anjo Belo envolveu uma Metvah completamente alterada em
um forte abraço e passou seu fator para ela ali mesmo. Os outros três do grupo
pararam estatelados. A sucessão de coisas estranhas não parava de acontecer.
Ninguém iria imaginar que Metvah se interessasse por um ser alado! Enquanto os
fatores circulavam, não havia nada que ninguém pudesse fazer... nem mesmo
depois disso.
O grupo foi convidado
por Lilitih a se sentar nas areias ainda quentes do deserto, sob um céu que se
enchia de estrelas, ao redor de uma fogueira que não se extinguia, para falar
sobre o que os trazia ali. NA começou a trocar imagens mentais com ela, da
melhor forma que podia, pois Lilitih era a única que estava tranquila em relação
ao que se passava entre seu Segundo marido e Metvah.
Enquanto conversavam,
o grupo que havia ido falar sobre o casal de humanos teve tempo de refletir
sobre tudo que aqueles estranhos fatos causaria. Olhavam-se com assombro e
tristeza. Não era assim que normalmente acontecia. Mesmo NA, cujo Segundo
marido havia sido uma má experiência, estava assustada. No caso dela, não havia
sido algo que mudasse o destino de tantos. ZU estava pálido e sério, mas
Vethusta era quem estava com as cores alteradas pelas energias que absorvia
junto com o novo fator que Metvah estava recebendo. Segurava as novas ondas que
lhe percorria o corpo com braveza, sabendo que sua missão ali também tinha que
ser cumprida. Passava -lhe pela cabeça se aguentaria ver o Anjo Belo transformar
NA também, visto que nada tomava o rumo que conhecia como normal.
Em determinado
ponto,as cores de Metvah pararam de oscilar, outro forte facho de luz se
produziu e, para a visível felicidade de Lilitih, que assistia tudo com um
soriso no olhar, Metvah havia concebido. Anjo Belo era algo cuja força NA não
conhecia, não sabia como explicar, nem como lidar, mas o fato de ter trocado
fatores com Metvah no local que não lhe pertencia e já ter gerado nela, da
mesma estranha forma que havia feito em Lilitih, mostrava que sua linhagem era mais
antiga e mais especializada que tudo o que havia conhecido.
Metvah não voltaria a
ser como o resto do grupo por muito tempo, gerando uma disrupção nas energias
que estavam equilibradas entre os três casais de gêmeos. Embora ela estivesse
feliz de encontrar algo tão prazeiroso e completo num lugar que só havia
trazido situações desagradáveis, sabia que não poderia continuar naquele
ambiente e os outros teriam que viver com consequências não previstas de tal
união. Metvah, então, desapareceu no facho de luz, o portal que seu fator com o
de Anjo Belo havia produzido. O distúrbio causado pelo casal humano estava indo
longe demais.
Enquanto tudo isso se
passava, Lilitih e NA trocavam pensamentos a respeito de Adam. Lilitih disse,
por fim, que iria falar com o casal e fazer a união deles se completar. O grupo
voltou para a plataforma da forma que haviam saído: preocupados, tensos, mas
agora tristíssimos também e tiveram que confirmar o que Jaguar e todos na floresta
já estavam prevendo... que a disrupção e as anomalias iriam ter seu preço.
Vethusta sofria porque não era um acontecimento natural que havia levado sua
gêmea e não a veria por um tempo bastante longo. Estava temporariamente, como
NA um dia esteve, sem seu gêmeo. O sentimento de transtorno e transformação
atingiu todos na floresta. Nenhum dos habitantes foi mais o mesmo. As fêmeas, e
isso incluia, Aletah, NA e Nia, não sentiam mais a falta do fator de seus
pares, gerando uma reação em cadeia. Aquilo era o equivalente a uma epidemia e
enfraquecia todos sem distinção.
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