Não
havia muito tempo que NA e sua família haviam chegado a mata quando a estranha
e inevitável sequencia de eventos começou. Ela e ZU, bem como os outros três
casais já estavam bem integrados e aqueles que saiam nas caçadas não tinham
problemas de adptação. A caça era a forma que o equilíbrio de energias
acontecia ali. Os caçadores recolhiam e encaminhavam os seres que, pela razão
que fosse, haviam entrado em desequilíbrio, bem como as criaturas que tentavam
entrar naquele ambiente sem pertencerem energeticamente ao lugar.
NA
entendeu que cada ambiente para o qual era enviada tinha a mesma tensão entre
forças e que seu papel natural era manter o limite entre elas para que a vida
fosse possível. O caos era bem compreendido por todos e não era visto como algo
ruim, mas era contrário a geração e manutenção da ordem que regia o universo.
Todos tinham uma tarefa, todos iguais em importância e o da espécie dela era de
controladora desses desequilíbrios. Estava em seu sangue e no de ZU, mas ela
era a movimentadora e ele o mantenedor da capacidade de ambos. Era assim que
sua espécie era e sempre seria.
A
estrela daquele planeta estava se pondo e NA estava na plataforma aguardando a
hora das patrulhas noturnas. Pela primeira vez na vida se alimentava de algo
mais do que as energias do ambiente. Ali todos bebiam um líquido que era
servido em copos e os nutria com os elementos que faltavam para seus corpos
operarem propriamente. NA estava com uma taça na mão olhando a mata quando seus
olhos perceberam um movimento e ela viu a criatura mais bela que já havia
conhecido.
Uma
fêmea andava pela mata e o brilho que ela emanava chamou a atenção de NA, pois
era como o do cristal que Tétis havia lhe colocado no peito. Ela era
ligeiramente menor que eles, mas não pequena como Aletah, e sua pele era alva
como a lua dali. NA perguntou para Jaguar:
-Quem
é ela?- seguindo seu olhar, ele enxergou a fêmea e respondeu como se a
conhecesse bem.
-É
a fêmea do humano, Lilitih. É o único casal deles que temos por aqui. – NA se
virou para ele, surpresa:
-Humanos,
aqui? – lembrou-se das imagens que sua mãe havia mostrado do macho que ela combateu
e que havia contaminado a sua gravidez, afetando NA e seu gêmeo.
Essa
fêmea em nada se parecia com a imagem daquele humano. Ele era azul e sua
aparência muito mais bruta que a daquela criatura suave, delicada, de cabelos ondulados
e claros que iam até o calcanhar. Não usava armas, sua nudez era imaculada e em
tudo se parecia mais com o Povo do Facho de Luz do que ao humano que conhecera.
Mais
estranho ainda era que ao andar, imensas serpentes acompanhavam seus delicados
e alvos pés, não deixando que tocassem o solo da mata, mas somente seus largos
e escuros corpos. Ela carregava uma coroa de flores nas mãos. Era demais para
NA... tinha que investigar aquilo. Sua curiosidade estava tão intensa que ZU
sentiu como sinal de uma ameaça e veio ao seu lado. Não deixaria ela ir
sozinha. Algo ali era estranho demais para não acompanhá-la. Vethusta estava
presente e quis ir junto, porque a falta de fatores naquela fêmea deslumbrante
o incomodou. Metvah não se encontrava, pois estava ensinando o pobre Neruh a
saber seu lugar, de acordo com as regras especificas dela.
Seguiram-na
pela copa das árvores e ela, se percebeu, não deu a entender, talvez por estar
triste, e os três estranharam demais uma fêmea tão especial poder estar triste,
isso era inconcebível. Nesse estado de espanto a seguiram até uma pequena
clareira na mata, onde um macho jovem estava recostado em uma árvore. Ele não
estava acompanhando sua fêmea e não estava trabalhando, duas coisas que nenhum
macho ali deixava de fazer. Um olhar mais detalhado chocou NA imensamente: ele
era magro, frágil, como seu Segundo marido, PI, e tinha pele cor do barro, seus
cabelos um pouco mais escuros que sua pele e horríveis pelos embaixo do nariz.
Sim, o humano tinha bigode e NA só veria pelos no rosto em humanos ou mestiços
dessa raça. Achou grotesco.
Lilitih
aproximou-se e ofereceu a coroa de flores, num gesto que era muito comum à
todos os gêmeos e mostrava o amor entre eles. O jovem macho não aceitou o presente
e secamente mandou que ela colocasse no chão e se deitasse ali. ZU, NA e
Vethusta que já estavam surpresos, entraram em choque ao ver o macho se colocar
sobre aquela fêmea e praticar algo que nunca seria uma troca de fatores. Aquela
fêmea não recebeu prazer algum e em míseros minutos estava novamente encostado
na árvore, sem mostrar nenhuma diferença energética nele. Aquilo era um crime
nas espécies de onde vieram, nunca um macho faria isso. Fora de si, Vethusta já
estava descendo das copas para corrigir aquele ser pelo qual tomou desgosto.
Nenhuma fêmea poderia ser tratada daquela forma. NA o segurou com muito
esforço, com ajuda de ZU, que havia se exaltado mas recebeu a mensagem da irmã
de que não podiam intervir, pois esse casal tinha sobre eles a mesma regra que
os dois tiveram no Planeta mãe: ninguém poderia interferir. Embora estivesse
chocada, deveriam voltar para a árvore e pedir explicações para Jaguar, se é
que as tivesse. Vethusta exclamou:
-Qual
o nome dele? Qual o nome desse expurgo indigno de sua própria raça? – ele
tremia tentando se conter.
-Adam.
O nome dele é Adam e ela é Lilitih... Jaguar me disse.
Deixaram
o casal humano na clareira. Não parecia que tivessem percebido a presença
deles. Estavam ambos calados, ela mais triste, ele mais apagado, como se fosse
possível. Havia sido uma experiência horrível para aquelas três testemunhas e
só veriam aquele tipo de contato físico quando mais humanos chegassem nas
matas.
De
volta a plataforma, os três casais presentes falavam sobre o acontecimento.
Metvah se inteirou do que havia acontecido pelas imagens mentais que trocaram
e, como poderia se esperar, marcou aquele macho humano como indesejável e digno
de correção futura. Achou incrível que os habitantes dali, vendo o que se
passava, não houvessem tomado uma atitude ainda. Jaguar disse, com uma atitude
sombria, que outras coisas estranhas estavam acontecendo por causa daquele
casal. Eram o que chamaram de tiros no céu. O resto do grupo não sabia o que
aquilo significava, e ele terminou a conversa dizendo que estavam cada vez mais
frequentes.
Não
demorou muito para que pudessem ver o que significava os tiros no céu. Ao norte
da plataforma, nuvens pesadas começaram a se juntar no céu que antes estava
absolutamente limpo. Eram mais baixas do que nuvens de chuva e produziam relâmpagos
que tornavam as nuvens rubras como fogo. Não havia uma gota de chuva. Embora
fosse bonito de se ver a distância, os instintos de NA deixavam claro que algo
estava muito fora do normal, mas não era um desequilibrio de forças como nos
vórtices que trabalhou.
-Querem
conhecer guerra? – olharam com curiosidade para Jaguar, pois não faziam idéia
do que era aquilo.
-Soube
que guerra tem combate. – disse Vethusta, com interesse evidente.
NA
pensou ser uma boa idéia, pois se havia combate, devia acontecer num ginásio e
queria conhecer as instalações. Mesmo assim, achou muito estranho que os casais
dali estavam apreensivos e não entendia o que causaria isso. Todos foram em
direção as nuvens. NA e ZU voavam, Jaguar, Aletah, Vethusta, Metvah, Nia e
Neruh foram pela copa das árvores. Chegando próximo, Jaguar pediu que NA e seu
gêmeo pousassem para não serem vistos.
Olhando
para o céu acima da copa das árvores, o que NA viu e pode compreender foi que a
nuvem era uma névoa formada pelas substâncias que exalavam dos corpos das
criaturas que atacavam umas as outras numa forma de combate que não podia ser
descrito como tal. Não lutavam como nos treinos do ginásio, nem havia criaturas
a serem controladas , como nos vórtices. Viu armas e estavam sendo usadas com
intenção de ferir o oponente. Todos pareciam ser da mesma raça e aquilo era
simplesmente chocante. Combate era para controle de forças, não para infligir
dor e trazer aniquilação.
Não
só a nuvem que os envolvia tornava-se rubra ao encontro das armas que usavam,
mas havia um forte cheiro no ar que NA nunca mais esqueceria... o cheiro da
guerra. ZU sentiu, pela primeira vez, pavor. Vethusta se desgostou em ver o uso
que aquela raça dava ao combate, embora tivesse apreciado o movimento de vários
deles. Metvah estava estática. Provavelmente acreditando que só podia estar
acontecendo naquele local odiável e cheio de coisas erradas. Era assim que ela
via a situação. ZU fez um comentário:
-Não
vejo machos ou fêmeas, eles não tem distinção! Será isso a causa da guerra? - Foi
Jaguar que respondeu:
-Não
tem distinção. Eles são transportadores e guardiões, que são um tipo de
controlador, mas de criaturas vivas que eles acompanham sempre.
O
cheiro da guerra estava tão forte que NA e ZU voltaram a forma negra e escamosa
da metamorfose que há muito tempo não acontecia. Vethusta e Metvah estavam
felinos. Só os casais dali que não se metamorfosearam. Jaguar olhou com
curiosidade para NA e, mesmo assombrado, achou a nova esposa muito apropriada.
NA
voltou a olhar para o céu e analisou o que enxergava com outros olhos. Aquilo
que via era como se, de volta ao Planeta Mãe, as fêmeas aladas, em vez de
controlarem as criaturas do núcleo, atacassem umas as outras. Isso era inversão
de energia, um tabu absoluto entre todas as espécies do universo, porque era algo
inexplicável e inútil. Os seres que lutavam eram imensos, mesmo para eles e
enquanto alguns tinhas asas brancas, outros tinham-nas escuras. Atacavam-se com
garras, espadas e urros num inferno sem razão. Um deles chamava a atenção pelo
tamanho e beleza. Lutava com manobras que fizeram NA e Vethusta admirarem,
apesar da aversão pelo que viam. Era, sem dúvida, muito bem treinado.
NA
e ZU perceberam que no meio das criaturas aladas, lutava aquele que conheciam
como Pássaro de Fogo, que havia protegido NA tantas vezes no Planeta Mãe e que
a havia defendido dentro da nave de transporte quando Mika-el colocou a placa
no peito dela. Este também estava entre os que lutavam, o que tornava as coisas
cada vez mais estranhas. Passaro de Fogo estava diferente, parecia-se com os
demais, mas era definitivamente aquele ser que conheciam tão bem. Ele estava
visivelmente irado e atacava com intensa raiva.
Jaguar
comentou que as coisas estavam tomando um rumo diferente, algo estava muito
errado e levando mais tempo que o costume para acabar. Neruh, Nia ele e Aletah
olhavam com muita apreensão para o céu. Foi quando escutaram a voz. NA nunca
havia ouvido aquela voz, mas todos souberam imediatamente do que se tratava.
Uma luz clara muito intensa brilhou e paralizou todos no céu. Era a divindade
dali, o Rei a quem todos reverenciavam. Conseguiu escutar Aletah dizer que
talvez eles não devessem estar ali, mas não conseguia se mexer. Uma à uma, as
criaturas foram sumindo no ar, até que tudo esvaneceu e as nuvens se abriram no
céu do crepúsculo. Assim com Nereu e Dóris no Oceano, e a Grande Rainha no
Planeta mãe, ele era o regente e pai de todos os seres dali, incluindo Lilitih
e Adam.
Voltaram
para a árvore. Estavam todos afetados. Tudo na mata parecia ter mudado e não
para melhor. Não era uma sensação de culpa ou mesmo julgamento, era uma
incerteza que eles não sabiam dar nome, mas cuja origem logo se mostraria
evidente.
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