Não
foi fácil para nenhum deles sair da água e caminhar até a praia. Depois da
despedida, ainda ficaram estudando conchas, moluscos, peixes e outras criaturas
de arrecife que passeavam por entre suas pernas. Era uma profusão de cores que
nenhum deles havia visto antes. A explosão de vidas ali era tão agressiva que
causava assombro e alguma irritação, pois, para desprazer deles, muitas dessas
criaturas também gostavam de lamber suas peles.
Quando
puseram as cabeças fora da água, o espanto foi maior ainda. Não sabiam o que
era uma praia, nem florestas. Nunca haviam visto uma árvore e não entendiam os
sons que escutavam. NA e Vethusta foram os primeiros a tentar. Não era nem como
sair das piscinas de entrada dos quartos que habitaram no Oceano Profundo. O
peso que sentiam no corpo era muito maior e quando perceberam o vento na pele
molhada, mergulharam imediatamente, pois lhes parecia assustador. Levou horas
para que se acostumassem a novidade e pisassem na areia.
NA
olhou para o céu e sabia o que era o astro que enxergava, mas o calor que ele
produzia na pele e a intensidade da luz eram diferentes do Planeta mãe. Depois
que sua pele secou e a estranha sensação da brisa no corpo molhado acabou, teve
muito prazer em sentir o vento em seus cabelos, novamente, e, mais que tudo,
adorou aquela espuma branca que as ondas produziam. Estava totalmente absorvida
em senti-las no passar das ondas entre suas pernas, quando Vethusta, num
arroubo de excitação, pulou sobre ela e os dois caíram na água. NA se levantou
com o cabelo cheio de areia e, feliz, agarrou-lhe as pernas, arrastando-o para
o fundo. Ergueram-se e olharam para ZU e, juntos, pularam sobre ele, levando-o
para as ondas. Enquanto os três corriam, nus e desarmados, como loucos, pela
praia, não perceberam que a única que não estava bem era Metvah. Ela não estava
nem um pouco contente.
Assim
que colocou a cabeça fora da água e sentiu seus longos e fartos cabelos
grudarem em seu corpo uma repulsa imediata tomou conta de seu ser. Não se
importou com o vento, nem com onda ou espuma. A areia em seus pés foi como o
toque de um mau concubino. Andou alguns passos com muito nojo e sentou na
areia, olhando os três malucos à sua frente. Abraçou suas pernas, seus cabelos
cobrindo-a até os pés. De quando em quando olhava para a floresta e apenas
odiou tudo. Metvah havia travado. Sua descisão de rejeição ao lugar e tudo que
aparecesse ali já havia se consolidado dentro dela e só um ato de extrema
importância mudaria isso. Mesmo assim, a partir daquele dia, as florestas tropicais
que eram consideradas exuberantes, passaram a ser luxuriantes, devido a forte e
incisiva energia da filha de Tétis.
Mas
isso os três entenderam ao vê-la sentada como um animal acuado na areia. Não
havia muito o que se pudesse fazer se um dos gêmeos não se sentisse bem no
ambiente. Havia acontecido com ZU no Oceano Profundo e agora era a vez de
Metvah não se adaptar. Voltar não era uma opção, havia um chamado, que se
intensificava dolorosamente depois de completadas as adaptações de chegada.
A
praia não era extensa e a floresta quase tocava o mar. O sol, NA nunca
esqueceria, estava atrás de suas costas e ela soube aonde aparecia e
desaparecia no céu. O chamado agora era uma mensagem que dizia para se
aproximarem. Seguiram alguns metros dentro da mata, Metvah no meio para
proteção do que pudessem encontrar. Até que viram que a pontas das arvores que
enxergavam da praia, e que pareciam pequenas, eram imensas. Mesmo para alguém
do tamanho deles, as árvores que viam eram largas e gigantescas e todos olhavam
boquiabertos. NA falou para ZU que sentia a presença de um casal e a energia
que sentia vir deles era muito agradável.
Quando
tocaram as árvores, foram transportados para o topo delas de uma forma que NA não
soube explicar. Cada casal de gêmeos para uma árvore diferente. Havia
construções no topo dessas imensas árvores e NA viu que uma vila inteira
habitava o topo das árvores. Viu que estava num quarto imenso com um canto
cheio de almofadas. Não houve tempo para observar melhor o local, pois ela viu
ZU muito espantado e procurou com os olhos o que o havia impressionado.
Antes
que enxergasse o casal que estava em pé no canto, ZU correu e abraçou a pequena
fêmea que sorria e brilhava. NA olhava rapidamente de um para outro, muito
surpresa. A fêmea havia agradado seu gêmeo de uma forma que ela nunca havia
visto. Era pequena, seus cabelos da cor do astro luminoso deles, a pele era
dourada. O gêmeo dela era alto, o que era estranho pois geralmente eram da
mesma altura, tinha cabelos, curtos, e eram da mesma cor dourada da pele. Ele e
NA olhavam surpresos para seus gêmeos já trocando fatores. NA ficou preocupada
pelo comportamento de ZU não ser apropriado. Ele mandava mensagens silenciosas
para NA dizendo o quanto a pequena era macia e meiga. NA ficou constrangida,
pois sentiu que o longo período com Metvah o havia modificado. Com certeza a
pequena fêmea era tudo o que ele sentira falta e não lembrava.
Olhou
para o Quarto marido. Comparava com as vibrações de seu próprio gêmeo e estava
encantada. Aproximou-se e olhou-o fundo nos olhos. Estava imóvel e ela sentia o
coração dele pulsar forte. Tocou sua pele e viu que era coberta por pequenos e
abundantes pelos, muito macios, da mesma cor dourada. Aquilo a agradou muito.
Ele a olhava intensamente, algo nervoso, seus grandes olhos cor dourada muito
abertos e os músculos tensos, NA não entendia se por estar excitado ou com
medo, pois recebia os dois sinais. Mas não se importou, pois a pele coberta por
aquele pelo tão macio a fez passar as mãos pelo corpo dele todo abraçando-o
encantada com o toque da sua pele naquele pelo.
Foi
o recado que ele precisava...tinha sido aceito e ela seria sua esposa. Pode
tocá-la, com cuidado, pois embora confiasse em seu instinto, ela era temida
pela fama que a precedia e não seria fácil segurá-la se fosse atacado. Beijou-a
devagar e foi bem recebido, então beijou-a várias vezes. Era mais bela do que
imaginara e sua longa espera havia acabado. Sim, ela não sabia, mas era
esperada ali e ele a cobiçava desde quando soube que viria para o planeta. Além da energia dela ser
muito forte, sentia tanta felicidade que precisou se deitar, puxando-a sobre
si.
Quando
NA se sentou sobre seu novo marido, os fatores começaram a circular velozmente
e sua aparência imediatamente mudou. Seu corpo se cobriu de pelo e ela ficou
completamente dourada, emitindo uma forte luz que acompanhava a cor agora
amarelo ouro dos seus cabelos. A intensidade da luz era a mesma do prazer que
ambos sentiam. NA nunca havia experimentado tanta energia, tanto prazer e
felicidade como com aquele marido.Era uma surpresa. Uma honra que só não era
maior do que a que sentia por seu gêmeo.Tudo era perfeito e certo naquele
momento que durou várias horas. Quando as diferenças de energias se
equilibraram e os quatro descansavam no piso daquela plataforma, NA soube que o
nome de seu Quarto marido era Jaguar e a Terceira esposa de ZU chamava-se Aletah.
A
troca de fatores continuou até o anoitecer, quando NA sentiu necessidade de
descer da árvore para o chão da mata. Não compreendia esse chamado. ZU e Aletah
não se largavam, então o chamado era para ela somente. Olhou para Jaguar em
constrangimento, mas ele parecia saber o que estava acontecendo e explicou:
-Eu
sei sim. É para você ir e participar das caçadas. Eu sei quem você é, todos
aqui sabem que você é a que luta. Não vai ser diferente dos outros lugares que
esteve. Você recebe o chamado para caça por isso e terá que ir sem mim. É seu
chamado e estou muito orgulhoso de ter uma fêmea como você por esposa. Perceba
as mudanças que o fator daqui lhe causaram e vá ver com seus próprios olhos a
sua posição aqui. – ele estava feliz e NA viu que a forte natureza do chamado
não poderia ser evitada, então desceu para o solo sozinha.
Seu
corpo estava diferente. Era coberto por aqueles pelos dourados e era muito
maleável. Desceu pelo imenso tronco da árvore de frente para o solo, usando
suas garras e rabo. Num pulo gracioso, tocou o solo e viu, assim que se ergueu,
um animal de cor negra e pelo reluzente, andando em círculos. NA não sabia o
que era um felino, nunca havia visto um, mas era no que ela e os três haviam se
tornado ali. Era a forma física que os casais recém chegados tomariam quando
dentro das matas à trabalho. Não sabia o que era aquela criatura, mas sabia ser
Vethusta e correu para ele que, quando a viu, pulou em sua direção.
Abraçaram-se:
-Você
está tão diferente, como pode ser? – estava muito curioso com as novas energias
de NA e não perdeu tempo em trocar fatores com ela.
NA
estava encostada ao tronco da árvore e foi tomada por emoções fortes. Estava
sentindo prazer com Vethusta de uma forma que não havia atingido no Oceano
Profundo. Depois do fator ser passado através do cristal que Tétis havia
colocado em seu peito, NA só conseguia sentir prazer se seu gêmeo e Metvah
estivessem perto. Ali não. Naquela primeira noite na mata, encostada na árvore
e com os fatores de seus novos maridos e esposas, NA aprofundou a troca com
Vethusta e o resultado foi muito forte. Seus corpos emitiam grandes jatos de
energias, que não passaram desapercebidas para os habitantes locais e
engrandeceu enormemente a mata, para profundo orgulho de seus pares. NA estava
completamente integrada a seus maridos agora. Estava plena e fortíssima,
modificando Jaguar, Aletah e ZU de forma intensa, porém, por infelicidade,
Metvah não estava recebendo as energias e NA viu o porquê quando ela e Vethusta
terminaram de estabilizar seus campos.
NA encontrou Metvah dentro do oco de uma das
árvores, olhando, sem se mover, nem mesmo piscar o olhos, para o que seria seu
novo e Terceiro marido, Neruh. Perguntou para Vethusta o que acontecia.
-Ela
não está se sentindo à vontade ainda e não consigo fazê-la sair desse oco de
árvore. – então ela entendeu que tinham
um problema sério ali.
NA
havia observado que ele havia absorvido fator de sua Terceira esposa, Nia. Uma
imensa e negra fêmea, de cabelos negros lisos e muito compridos, belíssima e
forte. Vethusta disse que havia gostado imensamente dela, mas terminou dizendo
que, mesmo assim sentira falta dela, fazendo NA sorrir. Ele sabia que ZU tinha
agora uma esposa pequena e doce e brincou que era justamente o que ele
precisava depois de Metvah. Não estava sendo desonesto. Metvah era sua gêmea e
esposa eterna, mas ele bem sabia do que ela era capaz e alguém suave para ZU
era bem vindo. Talvez ele pudesse convencer Metvah a sair do oco da árvore.
Dando
uma pausa com a pequena fêmea, ZU e Aletah se aproximaram de onde NA e Vethusta
emitiram o chamado. A pequena nova esposa, com o maior sorriso que haviam
visto, olhava para NA com adoração e isso nunca mudaria. Ela simplesmente os
cultuaria como algo sagrado para sempre, para estranhamento profundo de NA.
Um
novo ZU, mais forte, mais sábio, se aproximou do oco da árvore com segurança e
estendeu a mão para Metvah, pedindo que ela saísse. Só ouviram um grunhido. Ela
não se movia. ZU continuou com a mão estendida falando com ela em tom suave,
explicando o que tinha acontecido com NA no Planeta Mãe e como não queria vê-la
sofrer sem fator. Disse que entendia ela não gostar do novo marido, mas que
tudo ficaria bem e que estava com saudades dela, que não os deixasse esperando.
Metvah
olhou para a mão estendida dele, olhou para Neruh, que estava tenso como um
felino que sente perigo, e acenou com a cabeça, iria sair. ZU voltou para o
grupo que esperava ao lado da árvore, não dando tempo para ver o salto que
Metvah deu. Quando se virou, viu Neruh ser atacado sem piedade. Seu trunfo era
ser um macho grande e forte como Vethusta, e que se valeu dos seus dotes
felinos para se defender da fêmea mais agressiva que já havia visto, e que
seria sua esposa eterna.
O
grupo estava paralizado com a violência que presenciavam, mas sabiam que nada
podia ser feito. Neruh teria que se virar sozinho. Nem Vethusta se atreveria a
ajudá-lo agora, não era louco. Todos se viraram e foi ZU quem falou:
-Depois
que acabar a gente recolhe o que sobrar dele.
Mais
tarde os dois levaram o pobre macho para a enfermaria e tentaram consolá-lo
dizendo que ela melhorava com o tempo, com muito tempo. Ele estava todo
cortado, mas sorriu e disse fracamente que era excelente aquisição para sua
linhagem e estava feliz. Só não foi seu dia de sorte.
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