NA
não se despediu de Tripoli nem de Nereu, Dorís ou Tétis e Proteus. Embora o chamado
que os quatro sentiam fosse muito forte, nada dizia que não voltariam. Não
estava preocupada com a jornada. Sequer sabia aonde estavam indo, mas sabia que
aquilo deveria ser cumprido. Calcularam de onde vinha a fonte que emitia o
chamado e tomaram rumo naquela direção.
Nadaram
por muito tempo, levando dias para chegar no Oceano Intermediario. Era
necessário que parassem por alguns dias para adaptar seus corpos as condições
de pressão e temperatura dali. Foram recebidos por uma equipe de médicos em
muito parecidos com os que socorreram ZU na vila. NA não escondia o profundo
alívio em não ver ninguém do Povo do Facho de Luz. Era a primeira vez que
viajava sem o auxilio deles e estava sendo muito agradável. Os quatro se
divertiam conhecendo seres que nunca haviam visto e isso os fazia muito alegres.
Tão alegres que NA não percebeu que havia alguem acompanhando cada movimento
deles e, sim, pertencia ao Povo do Facho de Luz.
Entre
os seres que ajudavam os quatro viajantes a se adaptarem as mudanças do Oceano,
estava um pequeno macho que lembrava algo do Povo do Facho de Luz, mas NA não o
reconheceu como um. Era alto, esguio, tinha olhos claros, pele clara, cabelos encaracolados
e de cor dourada, que ela nunca havia visto. Era uma figura frágil e NA achou
fantástico quando ele quis se aproximar com intenções claras. Se toda a
distração ali não a tivesse relaxado tanto, perceberia que foi a única que teve
alguma aproximação de outros seres e aquilo era intencional.
Vendo
a criatura tão pequena em comparação a ela, tão jovem e frágil, se aproximar como
se fosse um grande esforço, decidiu deixá-lo, por conta da famosa curiosidade, tocá-la.
Sua pele era macia e sentiu que ele não tinha uma fêmeas conectadas à
ele,portanto não sabia como agradar a uma. Seu Primeiro concubino também não
tinha esposa, mas ele soube tocá-la e o fato deste não saber a conquistou. Não
parecia sentir prazer no que fazia, parecia até triste, mas achou que aquilo
era como um pequeno lanche numa parada e permitiu a troca de fatores.
NA
soube, milênios mais tarde, que ele era parte da equipe que a acompanhava desde
o nascimento e ele foi escolhido para implantar nela outro dispositivo, além
daquele escudo em seu peito, que controlaria suas energias. A causa era a mesma
fêmea que ela ouviu Michael mencionar na discussão na nave, e que ainda estava
causando estrago, fazendo com que o Povo do Facho de Luz tomasse mais uma
medida de precaução.
Mas,
para instalar o dispositivo, alguém teria que se aproximar intimamente dela e a
escolha de quem seria foi causa de tristeza. O Povo do Facho de Luz não trocava
fatores da mesma forma que a espécie de NA ou Vethusta. Eles não eram divididos
em machos e fêmeas. Aquele que o fizesse se tornaria um concubino, ou seja,
receberia energias vindas de NA, por toda eternidade. A sensação seria comparável
a de comer algo difícil de digerir cada vez que recebesse as vibrações dela. Ninguém
queria se aproximar de NA e havia um impasse na sala de reuniões.
Aquele
jovem se ofereceu relutantemente, num gesto muito pessoal, porque se sentiu
responsável por NA. Cada casal de gêmeos que nascia era acompanhado, para
sempre, por dois seres do Povo do Facho de Luz e NA e ZU eram os seus gêmeos.
Como deixaria outro tocá-la sabendo das consequencias eternas e do ódio que ela
fatalmente sentiria ao descobrir o que haviam feito nela? Ele já estava ligado
à eles pela eternidade, mas isso lhe custaria deixar ser o que era
originalmente. Não seria mais um indivíduo de uma fonte, mas mesclado,
diferente dos seus e não havia quem pudesse dizer quais seriam as consequencias
pois não havia registro de algo parecido. Seu amor por aqueles dois gigantes
falou mais alto e disse que implantaria o dispositivo.
Todos
olharam com assombro para ele. Era jovem, estava em treino, poderia fracassar.
Mas ele explicou seus motivos e pediu que não envolvessem mais uma pessoa na
história dos seus gêmeos, que já havia sido muito conturbada. Sua opinião
estava tão clara que todos concordaram, passando para o plano de como salvá-lo
se NA percebesse a manobra.
Assim,
quando se ofereceu para a temida fêmea, sentia muita tristeza pela perda de sua
energia original, mas mais ainda de ter de instalar o dispositivo nela. Se
preocupava em não machucá-la, mas mais ainda em não sair aos pedaços no
processo. Estudava a espécie dela há milênios e as imagens de como as fêmeas
podiam cortar machos não permitidos martelava em sua cabeça, mas NA era como se
fosse seu bebê. Era seu protetor e pesquisador. Respirou fundo e se ofereceu,
valendo das suas observações sobre como machos daquela espécie o faziam.
Quando
tudo terminou e uma satisfeita NA saiu nadando ao encontro de seu grupo, ele
tremia. Havia conseguido instalar o pino sem que ela percebesse. Antes de
desmaiar, viu os outros médicos correrem para ele. As energias que havia
recebido eram de natureza extraordinária e gostaria de estudá-las em profundo...se
sobrevivesse. Não viu mais nada pois foi carregado para a enfermaria de uma das
naves e ficou lá por um longo milenio.
ZU
e Vethusta perceberam a vibração de um novo concubido em NA, mas o chamado se
intensificava e não se interessaram em saber mais a fundo quem ele era, o que
nunca se saberá se foi uma benção ou não. Continuaram a viagem, parando em
pequenas vilas, descansando, adaptando seus corpos e trocando fatores entre si.
As baleias vieram acompanhar o último trecho do percurso. Elas sabiam o caminho
até o Oceano de Superfície e também ouviram o chamado, com a diferença de saberem
o que significava e estavam tristes. Conforme se aproximavam da praia, NA
observou que elas se despediam como se não fosse as ver por muito tempo. Elas pediam
para que não esquecessem do que haviam ensinado. Que sempre dessem importância
a forma certa de se posicionar numa comunicação, de sempre se comunicar e de
nunca, nunca, esquecer a educação e a cordialidade. Despediram-se e, então, os
quatro saíram da água.
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