Depois de alguns dias, as criaturinhas aladas brilhantes começaram a se espalhar. O que era uma nuvem ao redor dos gêmeos agora se dispersava. Quando isso aconteceu, NA voltou a se mover. ZU teve de ampará-la, estava enfraquecida e não o reconhecia, nem onde estava ou o que tinha acontecido. ZU ficou horas tentando passar conforto. Como NA não conseguia ficar em pé, deitou-a num local onde improvisou uma cama mais macia e ficou com ela em seus braços por dias, até que ela se recuperou o suficiente para perguntar onde estavam os filhotes e se tudo tinha ido bem. Ele respondeu:
-Os filhotes voaram, e, sim, tudo foi muito bem, você está muito
bonita.- achou engraçado vê-lo paternal, estava diferente.
-Eram muitos? Você viu todos? – sua voz estava fraca, ainda.
-Eram muitos e eu toquei todos.
Como se ouvissem a dúvida da mãe, alguns filhotes apareceram voando e
pousaram em sua face. Eram macios e quentes. Emitiam uma pequena fagulha de
energia que fazia NA feliz. Mas ainda estava cansada e dormiu em posição de conforto,
nos braços de seu gêmeo.
Mais alguns dias e NA conseguiu se erguer. Ficaram em posição de
conforto em pé, esperando que seus campos equalizassem. Ainda apareciam alguns
filhotes para beijar suas peles, de quando em quando. Eles se sentiam alegres,
como se houvessem sobrevivido a algo importante e, felizmente, dessa vez, de
uma forma bem suave.
Quando voltaram para a montanha, foram felicitados silenciosamente por
todos. Não perceberam que muitos também estavam se despedindo, pois já sabiam que
os gêmeos haviam sido escolhidos para seguir adiante em uma nova etapa. Os
filhotes gerados ficariam na área que nasceram sendo entregues aos cuidados de
entidades do planeta.
No amanhecer do dia seguinte, NA entrou no quarto que habitavam desde o
reencontro e viu vários seres do Povo do Facho de Luz. ZU estava a sua frente e
houve tempo de vê-lo ser injetado no pescoço por uma seringa e deitado em um
transporte. NA não teve tempo de pensar, porque entrou em estado de dormência,
e seguiu o veículo que carregava seu marido como se hipnotizada. PI os viu
entrarem na nave, mas não pode se despedir de sua Segunda Esposa, mesmo porque
ela não iria ficar triste com o seu afastamento.
Entraram em uma gigantesca nave com formato achatado que começou a
mover assim que a porta se fechou atrás do grupo. Não viram FAH nem BOH, não se
despediram de ninguém. Assim que entraram, NA foi levada para uma sala onde a
deitaram, ainda sob hipnose, numa mesa. Um indivíduo diferente dos seres do Povo
do Facho de Luz se aproximou e começou a trabalhar em cima do peito arfante de
NA. Seu corpo não era translúcido como os dos seres do Facho de Luz, vestia uma
túnica verde, era tão alto como ZU, sua pele era clara, seus olhos castanhos e
seus cabelos da mesma cor eram encaracolados. Tinhas asas maiores que as de NA,
porém eram brancas.
NA não sabia, mas ele era de uma raça que já estava no planeta para onde
estavam se dirigindo, eram parentes próximos do Povo do Facho de Luz, por isso
a semelhança. Ele inseria sob a pele de NA, com grande destreza, uma placa fina
como papel, que mudava de dourado para prateado e cobriu todo o seu peito,
fixando-se na caixa torácica. Tudo não levou mais que alguns minutos e, quando
finalizado, aquele ser passou a mão por sobre a pele de NA e nenhuma cicatriz
pode ser vista. NA não soube da presença dessa placa por milênios.
As primeiras imagens que se lembrou, quando sua consciência começou a
voltar, foi de estar sentada e ver seres do Facho de Luz passando ao fundo da
sala e dois de outra raça discutindo ferozmente, mesmo que suas vozes não se
alterassem. Um deles,embora em aparência fisica muito diferente do que conhecia,
era Pássaro de Fogo, muito irritado e falando bruscamente:
-Você errou e sabe disso! Ela é minha responsabilidade também! Eu
deveria ter sido consultado! – como ele tinha uma forma diferente, suas penas
não arrepiavam e achou estranho.
-Sou responsável pela segurança dos que habitam lá. Não quero mais
problemas do que a outra fêmea já está causando. Já me basta uma.- achou esse
ser muito desagradável, não gostou dele de imediato.
-Tudo o que acontecer, ou deixar de acontecer, com ela, por conta da
placa, será você a responder! Está bem claro... Mika-el? – Pássaro de Fogo
deixava claro que a conversa se encerava ali. O outro respondeu a pleno peito:
-Sim, eu bem sei!- se olharam com ódio e sairam por portas diferentes.
NA voltava da inconsiencia diversas vezes e quando o fazia, pensava no
que havia presenciado. Pensava que sabia a origem de Pássaro de Fogo e tinha
forte ligação com ele, mas vendo os dois juntos, percebeu que, por algum
motivo, eram de raças relacionadas. Algo os assemelhava de forma que não
compreendia. Tinham a mesma estatura e pareciam se conhecer profundamente.
Aquilo a incomodava, tanto como o fato de não conseguir se mover e entender
onde estava seu gêmeo. Nunca havia visto paredes como aquelas, nem vestes
assim, eles não usavam armas, nada ali a fazia se sentir calma.
Pela forma como os seres se comportavam, pode ver que aquele a quem chamavam
pelo estranho nome de Mika-el era quem dirigia o que quer que fosse aquilo. Seu
corpo formigava quando abria os olhos e pensou ser melhor não dar a entender
que acordava para avaliar a situação. Sentia que ZU estava na mesma dormência e
que não haviam lhe causado mal e saberia o que fazer que sentisse perigo.
NA não saberia por milênios à frente que a placa era um modo de conter
a ligação energética entre ela e seu gêmeo. Enfraquecia a transmissão entre
seus centros energéticos do coração, pois era por onde eram mais unidos. Esse
ponto não recebendo tanta energia, todos os outros centros de trocas em seus
corpos também se enfraqueceriam e os faria menos reativos a qualquer situação
que viessem a passar.
A decisão daquela criatura desconhecida, embora calculada, veio a
causar reações colaterais nos gêmeos por um tempo longuíssimo, que foram tão
imprevisíveis quanto aquilo que ele tentava evitar e tão ruins quanto o que
queria previnir. Mas era a autoridade do lugar para onde estavam sendo levados
e teve autorização para fazer o que fez. NA e ZU não souberam desse
procedimento e não puderam entender muitas das coisas que vieram a passar
daquele momento em diante.
NA percebeu que não havia apenas seres do Facho de Luz e dessa espécie
a que Mika-el pertencia, e que cada um tinha uma função naquele lugar. Ela não
tinha entendido que era um veículo de transporte pois não sentia movimento. Isso
até que, ainda recobrando da dormência e sentada no mesmo local que a haviam
colocado, pode ver uma grande movimentação e uma tela imensa se abrir na parede
do fundo de onde estava. Viu a mesma nave, cinza chumbo, achatada, flutuando
acima de algo que se movia. Parecia líquido, mas não pode dizer se era como o
campo magnético da Grande Mancha. A nave flutuava nesse líquido e começou a
afundar, lentamente, com jatos desse líquido sendo esguichados pelas laterais.
Ali soube que era uma nave, já havia visto alguns no Planeta mãe. Sabia que eram
usados para transportes em viagens de grande distância. Sentiu um aperto no
peito pensando o quão longe do planeta os teriam levado, mas encantou-se de ver
a nave submergir lentamente no líquido. Sentiu estar rodeada por algo que não
conhecia e o fato de ser novo touxe a metamorfose. Ali perceberam claramente
que ela havia acordado.
Então foi solta dentro de uma caixa imensa, conseguia enxergar por todos
os lados. Não entendia qual era o material, mas era transparente e não deixava
que ela saisse de onde havia sido colocada. Cordas trouxeram seu irmão. Eles eram
muito maiores que as criaturas que movimentavam a máquina. O imenso corpo de ZU
estava inerte e NA ficou completamente arrepiada, mais ainda por ver que ele
não se arrepiava junto. Percebeu o quanto ele não estava bem. As cordas o
baixaram dentro da caixa lentamente e um teto transparente se fechou por cima
de suas cabeças. Assustada, rápidamente abraçou seu gêmeo e chamando diversas
vezes por ele. Os seres do Facho de Luz os olhavam e faziam anotações. Ser
observada assim a deixou mais irritada ainda.
Depois de algumas horas, com ZU despertando e sentindo muito cansaço, a
caixa transparente começou a ser preenchida, lentamente, com um líquido. NA
abraçava seu irmão, preocupada com ele não estar trocando fatores, sua força
estava drenada como ela nunca havia sentido. O líquido era algo que NA percebeu
ser muito agradável na pele, era relaxante de uma forma que nunca havia sentido
e sua famosa curiosidade só não foi maior por ver que o líquido piorou a
condição de ZU mais ainda.
A caixa já estava completamente preenchida com o líquido e os gêmeos
flutuavam nele. NA achou estranho respirar aquilo, era mais pesado que o ar,
mas sentia-se a vontade, se não fosse por ver o que pareciam fêmeas os
observando e escrevendo. Não pareciam felizes, mas aborrecidas. NA não sabia
que elas enxergavam a placa que não sabia que agora possuia no peito. Concentrava-se
em ficar na posição de conforto e tentar reestabelecer seu irmão o mais rápido
possível.
Haviam outros recipientes iguais ao redor com outros casais dentro, todos
imensos e pode, ainda, reconhecer algumas espécies que nasceram na mesma lua
que a sua. O desconforto era geral, em alguns casos a fêmea estava sentindo
mais a diferença, noutros, o macho, como no caso de ZU.
Os transportadores estavam esperando que os gêmeos que haviam trazido
para aquele planeta se recuperassem para serem soltos. Esperavam que os sinais
vitais se equilibrassem e isso só aconteceria se todos trocassem fatores com
seus pares. A água que preenchia os containers era uma versão sintética do que
os estaria esperando fora da nave. Esse líquido podia ser comandado por
processadores dentro da nave e mudavam sua propriedade química de acordo com o
que a espécie de gêmeos necessitasse. Além disso, tinham que aumentar a
quantidade de sal e compostos a água lentamente e, assim, tornar os colossos
que todos gêmeos eram, prontos para os locais onde viveriam. Mas sem a troca de
fatores, só podiam esperar e alguns casais estavam levando mais tempo para se
unirem novamente.
Para NA, no caso deles a portadora dos canais de entrada, ser observada
e analisada daquela forma, não sentir seus pais e ver a péssima condição de seu
irmão, não a fazia desejar trocar energias. Não sabia, mas aquilo que sentia
chamava-se constrangimento. Não arrebentava a caixa aonde os tinham colocado
porque sabia que seres do Facho de Luz eram transportadores, portanto criaturas
pacíficas. Sentia que estavam sendo preparados para algo e que os amavam, a seu
jeito, portanto os observava da mesma forma, anotando tudo mentalmente e minuciosamente.
NA não viu Pássaro de Fogo ou Mika-el, e por este último, se o visse, teria
quebrado a caixa.
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