Dias
se passavam e a situação foi piorando. Os gêmeos recém-chegados tinham pouca,
ou nenhuma, condição de dizer qual seria o próximo passo. O ambiente não era o
deles e nem mesmo as regras do lugar tinham sido compreendidas, ainda. Por outro
lado, para Vethusta e Metvah, que sabiam da triste história da integração deles
no Planeta Mãe, a preocupaçã crescia, pois ali nunca havia acontecido de gêmeos
estrangeiros não absorverem o fator através da união com os nativos. As
gerações anteriores conheciam histórias de um caso semelhante, mas não havia
ocorrido no Oceano Profundo e tudo o que podiam fazer era opinar sem certeza.
Então,
pensando muito sobre a capacidade dos gêmeos de subir muito alto e descer a
grande profundidade sem serem, por isso, afetados, Vethusta decidiu testar
algo. Sem esperar mais, levou NA e ZU para o ponto central daquele povo, o
local mais sagrado deles: o ginásio.
Entre
as encostas da cadeia de montanhas do Oceano Profundo, na estreita faixa que
havia entre elas, uma grande estrutura sobressaia entre as pequenas redomas.
Não era transparente como essas, mas uma edificação retangular feita da mesma
rocha das montanhas. Tudo era iluminado por uma grande esfera de luz, réplica
em grande escala das outras esferas que se encontravam em todos os cantos dessa
vila e dentro de todas as construções. NA nunca chegou a entender a natureza
dessa fonte de luz, que em determinado momento diminuia, mostrando aos habitantes
a hora de se recolher, mas teve certeza que era tecnologia do Povo do Facho De
Luz pois sentia serem radioativas.
Na
lateral da construção, um portão artisticamente trabalhado era a entrada do
ginásio. Dentro dele, uma grande arena retangular com arquibancadas do lado
direito e, no lado esquerdo, uma parede lisa com um anel de pedra na sua
metade, bem no alto. O chão do ginásio era feito de areia fina e clara e, passando
pelo portão, assim como nas redomas, a água não entrava. Espadas, lanças e
outros armamentos ficavam em uma parede ao fundo. Uma das paredes estava
completamente no escuro. A luz da esfera não iluminava aquele canto. Achou
estranho, mas estava curiosa demais para dar atenção.
ZU
estava muito fraco e foi colocado na arquibancada. NA observou vários machos,
todos com a mesma aparencia física que Vethusta, mas mais magros e menores que
ele, treinando luta e arremesso de lança. Ela passeava, olhando tudo com muita
curiosidade, quando Vethusta, esperando no meio da arena, a chamou. Enquanto
andava até ele, viu que os pequenos machos pararam o treino. Eles pularam a
arquibancada, cercaram ZU e o cutucaram com as lanças. Surpreso com a afronta gratuita,
ZU se irritou, mas sua tentativa de atacá-los resultou em um desmaio devido a
fraqueza. Foi o quanto bastou para NA se metamorfosear. Vendo isso, Vethusta
chamou os machos de volta e lhe disse calmamente, com a cara tranquila e os
braços cruzados:
-
Eles vão machucá-la, NA. Vão fazer com você o que o Segundo marido fez, todos
eles, e agora. – Ela abriu a boca em choque, algo estava muito errado ali.
Respondeu com calma:
-Não,
eles não vão, pois não há permissão. – deu uma segunda olhada nos pequenos
machos se aproximando, pensando que não havia nada ali para ela. – Não há
permissão! – repetiu.
Vethusta
abriu um sorriso e disse:
-Aqui
não precisa de permissão. – continuava calmo, seus olhos brilhavam.
ZU
havia se recobrado do desmaio e arrepiou suas escamas, sentindo a ameaça real
para NA. Olhou os machos menores, olhou sua irmã muito irritada e pediu à eles
que não fizessem aquilo, pois sairiam machucados. Eles olharam para Vethusta,
que apenas acenou com a cabeça em direção a NA. Estavam armados e ela contava
apenas com seu corpo.
Não
foi um ataque justo. Eram machos jovens e ela uma fêmea descendente de linhagem
para combate. Só a cauda dela mandou três para o chão. Estava muito ofendida e
ZU muito chocado com a falta de respeito, porque era raro entre eles, mesmo quando
de espécies diferentes. NA não levou um minuto para por todos contra as paredes
e chão do lugar. Não se levantavam, sua raiva era tão grande que a umidade do
ar virava vapor ao redor dela.
Vethusta
era o maior mestre de combate que aquele lugar havia produzido. Observando bem
sua Segunda esposa, havia entendido que ela, ao contrario das fêmeas locais,
era a parte ativa do sistema que os gêmeos eram e entendeu o que tinha que ser
feito. Só precisava ativar nela o humor certo para fazê-la a melhor aluna que
haveriam de ver no lugar. Acreditou que isso a faria, finalmente, absorver o
fator que tanto precisavam. Se não por ele, que fosse através da luta.
Não
acreditava em como tinha tido sorte em seu segundo casamento. Era uma excelente
união, mas treiná-la... era uma história diferente... se conseguisse fazê-la
compreender. Viu-a jogar os seus melhores pupilos ao chão e achou que era hora
de começar o treino. Se havia alguma coisa que Vethusta nunca haveria de sentir
era dó, e partiu para cima dela sem nenhuma.
NA
percebeu, pela energia, a intenção dele e gritou:
-Você
não está falando sério! – disse ofendida como nunca havia sido, mas sem se
mover do lugar. Vethusta respondeu:
-NA,
é bom que você entenda... na nossa historia não entra perdão. – e veio de forma
lenta, mas ferozmente.
Tentou
acertar a perna dela e ela recuou. Tentou pegar sua cauda e imobilizá-la e ela puxou-a
girando rapidamente. Ele andou ao redor dela. NA estava chocada, não sentia
vibrações de agressão vindo dele e ela nunca havia combatido seres que não
irradiavam agressão.
-Para
que? Para que você faz isso!- gritou sem obter resposta, só o ataque dele,
segurando seus braços.
Caíram
ao chão, mas o segurou com as garras dos pés e o jogou longe. Ele se ergueu
rápido, parecia ter gostado, e pegou um bastão, vindo fogoso para cima de NA.
Esta estava pasma pois ele estava muito excitado e não estavam tentando trocar
fatores, não que percebesse. Ela olhou para ZU e viu que o combate estava
extenuando ele, mais ainda por não conseguir atacar quem estava ofendendo sua
gêmea. Afinal, NA não tinha atacado ele, ainda.
Os
habitantes começaram a se juntar na arquibancada. Vethusta não tinha costume de
lutar, não haviam lutadores do nível dele ali há muito tempo. Fêmeas, com
exceção de sua gêmea, Metvah, que era, como ele, um caso aparte, eram
procriadoras e não guerreiras. A energia do combate chamou muita atenção e a
multidão ia crescendo. NA não se deu conta disso, estava bufando de raiva com
choque da ofensa. A cordialidade para com quem chega de fora era algo muito
importante para sua espécie e agora queria ensinar uma lição no que considerava
uma falha de caráter do Terceiro marido. Quando Vethusta acertou o ombro dela
com o bastão, NA partiu para cima dele com ódio puro. Ele ria, estava surpreso
e deliciado, sentia muito prazer. O golpe fez os dois irem ao chão. Ele não
tinha asas e seu bastão caiu longe. NA o segurou com as garras, sentia as do pé
enterradas nas coxas dele, que se manteve quieto, então ela falou, com as
presas bem a mostra:
-Isso...
não... é...apropriado!- ela gritava. Ele respondeu, empurrando-a com força:
-Vou
repetir: nessa história não entra perdão... lembra? Eu nunca irei pedir perdão
pelo que fiz ou farei.- empurrou NA que caiu de costas.
Viu
que ele ficou com as marcas das garras dela nas coxas. Ele estava visívelmente
excitado, e ela, bem, ela estava fora de si. Levantou, encolheu as asas e
atacou-o no peito. Ele absorveu o choque de seus punhos e ficou em pé com as
mãos na cintura. Lágrimas de raiva corriam pelo rosto dela. O insulto do
comportamento dele era demais, mas não perdeu o controle, nem ele, que atacava
sem descanso.
Ele
a segurou pelos cabelos e ela, por sua vez, arranhou sua barriga. Ele tentou
segurar suas asas em uma chave e ela o empurrou, abrindo-as. Em momento algum
havia intenção de ferir, mas suas naturezas estavam saindo do controle, sem
problemas de consciência. O combate seguia sem vencedor, ambos tinham a mesma
força, até que algo inesperado aconteceu... A parede escura no fundo da arena
se abriu, tomou forma de um portal e sugou instantaneamente os dois, Vethusta e
NA. Ao verem isso, os habitantes, não surpresos, dispersaram, levando ZU,
desmaiado, para a enfermaria. Metvah chegou à tempo de vê-los serem tragados
pelo portal e seu desgosto era visível.
Aquele
que os impediu de continuarem lutando era parte do Conselho de anciões do
local. Embora a Rainha deles estivesse consciente de que a luta não estava,
como Vethusta havia imaginado, fazendo NA absorver o fator, e sim, exaurindo
eles e seus respectivos gêmeos, quem interveio foi o ancião menos visto do
Conselho, mas muito respeitado por sua experiência e força.
Quando
percebeu estar dentro do portal, Vethusta se ajoelhou como quem soubesse que
seria corrigido por algum erro grave. NA se agitou ao ver que o local era uma caverna
dentro da montanha. Sua parede de rochas muito escuras mostrava a antiguidade
do lugar e notou que a mesma substância negra produzida por Metvah flutuava ao
redor deles, em grande quantidade. Vethusta falou, ajoelhado:
-Pare
de se mexer! – ela parou imediatamente, assustada com o fato de não enxergar saídas
dali.
-Independente
do que aconteça aqui, lhe apoiarei e darei proteção sempre. – essas palavras a
fizeram olha-lo atentamente .
Viu
que ele falava sério. O que quer que aquele lugar significasse, ele sabia, e
seus olhos mostravam que a segurança dela era muito importante para ele. Depois
de uma luta tão feroz, ele era a imagem de um marido que se importava. Não
entendeu essa modificação, mas gostou da vibração dele. Não houve tempo de
abraçá-lo como queria, pois uma névoa densa vinda do fundo da caverna a
envolveu.
NA
foi erguida do solo e a névoa se transformou num ser gigantesco, um macho que
ora mostrava seus contornos, ora se fazia amorfo e envolveu NA completamente. O
toque era suave, mas rijo como a rocha e lembrava muito a secura dos toques de
Vethusta. Ele manipulou o corpo de NA de várias formas, como que procurando a
solução para um problema. Quando entendeu que ela não assimilava o fator, mesmo
com a intervenção dele, a deitou no chão, lentamente. Sem ter emitido um som,
saiu da caverna da mesma forma que entrou, como uma densa névoa. Vethusta
parecia reverencia-lo e NA sentiu um profundo respeito por aquele ancião que
era conhecido pelo nome Proteus e era o pai de Vethusta.
Vethusta
se ergueu e colocou NA de pé. Ele falou, então, para segui-lo pois iriam ao
encontro “dela”. Como estava atordoada, não perguntou quem era “ela” e o
seguiu. Havia um corredor da caverna para outra cavidade mas esta, diferente da
primeira, era gigantesca. Era um único e imenso geodo de cristal. Viu uma
figura feminina belíssima dentro desse cristal. Seus cabelos eram negros e
fartos, um vestido de tons azuis cobria seu corpo, sua pele era claríssima e os
olhos azuis, lembrava muito o de sua filha Metvah. A elegante fêmea veio até o
limite de uma das facetas do cristal e olhou para NA. Ela disse:
-
Ela não absorve e não absorverá por si mesma, o fator da nossa linhagem. Eu tomei
a decisão de dá-lo do meu, diretamente, para que ela e o gêmeo possam ficar e
assumir seus lugares aqui. Ela será conhecida, de agora em diante, por ‘Branca’
e tudo que lhe digo deve ser repetido no Conselho. Não devem restringi-la, nem
impedi-la, mas guardem distância de Branca, porque carrega o meu fator. Usufruam-se,
uns aos outros que, em seu tempo, as duas esposas gestarão minhas crias.
Vethusta
se inclinou e disse que seria cumprido como pedia. Tétis, mãe de Vethusta e
Metvah, amada mãe do Oceano profundo, aproximou-se de NA e colocou um pequeno
cristal na altura da garganta dela, e brilhava tanto que seus cabelos ficaram
totalmente brancos.
Saíram
pela caverna, atravessaram o portal e pisaram na areias do ginásio. ZU e Metvah
estavam lá. Esta estava tensa, o que significava que piscava os olhos com mais
frequência. Sua preocupação por Vethusta era sincera e pediu comforto para ele.
NA viu que seu irmão estava fraco, ainda, mas em seu peito uma estrela branca
brilhava, mexendo quando respirava. Haviam conseguido absorver o fator,
novamente por intervenção da geração anterior e estavam aliviados. Não estavam
conscientes de que, depois da experiência no Planeta mãe, isso sempre
aconteceria, nem de que a placa do peito de NA, colocada ali por Mika-el, tinha
tido uma grande influência na não absorção do fator. Agora, o ginásio estava
vazio e os dois casais se abraçavam calados.

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