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Pesquisadora na area da mediunidade? Sim, mas mãe de criança pequena, produtora rural, portanto sem tempo, exausta. Não dá para ter comentarios, edições, produção de video, formatação, etc. email psychictaboo@gmail.com

Sunday, November 5, 2023

O Ginásio

 


Dias se passavam e a situação foi piorando. Os gêmeos recém-chegados tinham pouca, ou nenhuma, condição de dizer qual seria o próximo passo. O ambiente não era o deles e nem mesmo as regras do lugar tinham sido compreendidas, ainda. Por outro lado, para Vethusta e Metvah, que sabiam da triste história da integração deles no Planeta Mãe, a preocupaçã crescia, pois ali nunca havia acontecido de gêmeos estrangeiros não absorverem o fator através da união com os nativos. As gerações anteriores conheciam histórias de um caso semelhante, mas não havia ocorrido no Oceano Profundo e tudo o que podiam fazer era opinar sem certeza.

Então, pensando muito sobre a capacidade dos gêmeos de subir muito alto e descer a grande profundidade sem serem, por isso, afetados, Vethusta decidiu testar algo. Sem esperar mais, levou NA e ZU para o ponto central daquele povo, o local mais sagrado deles: o ginásio.

Entre as encostas da cadeia de montanhas do Oceano Profundo, na estreita faixa que havia entre elas, uma grande estrutura sobressaia entre as pequenas redomas. Não era transparente como essas, mas uma edificação retangular feita da mesma rocha das montanhas. Tudo era iluminado por uma grande esfera de luz, réplica em grande escala das outras esferas que se encontravam em todos os cantos dessa vila e dentro de todas as construções. NA nunca chegou a entender a natureza dessa fonte de luz, que em determinado momento diminuia, mostrando aos habitantes a hora de se recolher, mas teve certeza que era tecnologia do Povo do Facho De Luz pois sentia serem radioativas.

Na lateral da construção, um portão artisticamente trabalhado era a entrada do ginásio. Dentro dele, uma grande arena retangular com arquibancadas do lado direito e, no lado esquerdo, uma parede lisa com um anel de pedra na sua metade, bem no alto. O chão do ginásio era feito de areia fina e clara e, passando pelo portão, assim como nas redomas, a água não entrava. Espadas, lanças e outros armamentos ficavam em uma parede ao fundo. Uma das paredes estava completamente no escuro. A luz da esfera não iluminava aquele canto. Achou estranho, mas estava curiosa demais para dar atenção.

ZU estava muito fraco e foi colocado na arquibancada. NA observou vários machos, todos com a mesma aparencia física que Vethusta, mas mais magros e menores que ele, treinando luta e arremesso de lança. Ela passeava, olhando tudo com muita curiosidade, quando Vethusta, esperando no meio da arena, a chamou. Enquanto andava até ele, viu que os pequenos machos pararam o treino. Eles pularam a arquibancada, cercaram ZU e o cutucaram com as lanças. Surpreso com a afronta gratuita, ZU se irritou, mas sua tentativa de atacá-los resultou em um desmaio devido a fraqueza. Foi o quanto bastou para NA se metamorfosear. Vendo isso, Vethusta chamou os machos de volta e lhe disse calmamente, com a cara tranquila e os braços cruzados:

- Eles vão machucá-la, NA. Vão fazer com você o que o Segundo marido fez, todos eles, e agora. – Ela abriu a boca em choque, algo estava muito errado ali. Respondeu com calma:

-Não, eles não vão, pois não há permissão. – deu uma segunda olhada nos pequenos machos se aproximando, pensando que não havia nada ali para ela. – Não há permissão! – repetiu.

Vethusta abriu um sorriso e disse:

-Aqui não precisa de permissão. – continuava calmo, seus olhos brilhavam.

ZU havia se recobrado do desmaio e arrepiou suas escamas, sentindo a ameaça real para NA. Olhou os machos menores, olhou sua irmã muito irritada e pediu à eles que não fizessem aquilo, pois sairiam machucados. Eles olharam para Vethusta, que apenas acenou com a cabeça em direção a NA. Estavam armados e ela contava apenas com seu corpo.

Não foi um ataque justo. Eram machos jovens e ela uma fêmea descendente de linhagem para combate. Só a cauda dela mandou três para o chão. Estava muito ofendida e ZU muito chocado com a falta de respeito, porque era raro entre eles, mesmo quando de espécies diferentes. NA não levou um minuto para por todos contra as paredes e chão do lugar. Não se levantavam, sua raiva era tão grande que a umidade do ar virava vapor ao redor dela.

Vethusta era o maior mestre de combate que aquele lugar havia produzido. Observando bem sua Segunda esposa, havia entendido que ela, ao contrario das fêmeas locais, era a parte ativa do sistema que os gêmeos eram e entendeu o que tinha que ser feito. Só precisava ativar nela o humor certo para fazê-la a melhor aluna que haveriam de ver no lugar. Acreditou que isso a faria, finalmente, absorver o fator que tanto precisavam. Se não por ele, que fosse através da luta.

Não acreditava em como tinha tido sorte em seu segundo casamento. Era uma excelente união, mas treiná-la... era uma história diferente... se conseguisse fazê-la compreender. Viu-a jogar os seus melhores pupilos ao chão e achou que era hora de começar o treino. Se havia alguma coisa que Vethusta nunca haveria de sentir era dó, e partiu para cima dela sem nenhuma.

NA percebeu, pela energia, a intenção dele e gritou:

-Você não está falando sério! – disse ofendida como nunca havia sido, mas sem se mover do lugar. Vethusta respondeu:

-NA, é bom que você entenda... na nossa historia não entra perdão. – e veio de forma lenta, mas ferozmente.

Tentou acertar a perna dela e ela recuou. Tentou pegar sua cauda e imobilizá-la e ela puxou-a girando rapidamente. Ele andou ao redor dela. NA estava chocada, não sentia vibrações de agressão vindo dele e ela nunca havia combatido seres que não irradiavam agressão.

-Para que? Para que você faz isso!- gritou sem obter resposta, só o ataque dele, segurando seus braços.

Caíram ao chão, mas o segurou com as garras dos pés e o jogou longe. Ele se ergueu rápido, parecia ter gostado, e pegou um bastão, vindo fogoso para cima de NA. Esta estava pasma pois ele estava muito excitado e não estavam tentando trocar fatores, não que percebesse. Ela olhou para ZU e viu que o combate estava extenuando ele, mais ainda por não conseguir atacar quem estava ofendendo sua gêmea. Afinal, NA não tinha atacado ele, ainda.

Os habitantes começaram a se juntar na arquibancada. Vethusta não tinha costume de lutar, não haviam lutadores do nível dele ali há muito tempo. Fêmeas, com exceção de sua gêmea, Metvah, que era, como ele, um caso aparte, eram procriadoras e não guerreiras. A energia do combate chamou muita atenção e a multidão ia crescendo. NA não se deu conta disso, estava bufando de raiva com choque da ofensa. A cordialidade para com quem chega de fora era algo muito importante para sua espécie e agora queria ensinar uma lição no que considerava uma falha de caráter do Terceiro marido. Quando Vethusta acertou o ombro dela com o bastão, NA partiu para cima dele com ódio puro. Ele ria, estava surpreso e deliciado, sentia muito prazer. O golpe fez os dois irem ao chão. Ele não tinha asas e seu bastão caiu longe. NA o segurou com as garras, sentia as do pé enterradas nas coxas dele, que se manteve quieto, então ela falou, com as presas bem a mostra:

-Isso... não... é...apropriado!- ela gritava. Ele respondeu, empurrando-a com força:

-Vou repetir: nessa história não entra perdão... lembra? Eu nunca irei pedir perdão pelo que fiz ou farei.- empurrou NA que caiu de costas.

Viu que ele ficou com as marcas das garras dela nas coxas. Ele estava visívelmente excitado, e ela, bem, ela estava fora de si. Levantou, encolheu as asas e atacou-o no peito. Ele absorveu o choque de seus punhos e ficou em pé com as mãos na cintura. Lágrimas de raiva corriam pelo rosto dela. O insulto do comportamento dele era demais, mas não perdeu o controle, nem ele, que atacava sem descanso.

Ele a segurou pelos cabelos e ela, por sua vez, arranhou sua barriga. Ele tentou segurar suas asas em uma chave e ela o empurrou, abrindo-as. Em momento algum havia intenção de ferir, mas suas naturezas estavam saindo do controle, sem problemas de consciência. O combate seguia sem vencedor, ambos tinham a mesma força, até que algo inesperado aconteceu... A parede escura no fundo da arena se abriu, tomou forma de um portal e sugou instantaneamente os dois, Vethusta e NA. Ao verem isso, os habitantes, não surpresos, dispersaram, levando ZU, desmaiado, para a enfermaria. Metvah chegou à tempo de vê-los serem tragados pelo portal e seu desgosto era visível.

Aquele que os impediu de continuarem lutando era parte do Conselho de anciões do local. Embora a Rainha deles estivesse consciente de que a luta não estava, como Vethusta havia imaginado, fazendo NA absorver o fator, e sim, exaurindo eles e seus respectivos gêmeos, quem interveio foi o ancião menos visto do Conselho, mas muito respeitado por sua experiência e força.

Quando percebeu estar dentro do portal, Vethusta se ajoelhou como quem soubesse que seria corrigido por algum erro grave. NA se agitou ao ver que o local era uma caverna dentro da montanha. Sua parede de rochas muito escuras mostrava a antiguidade do lugar e notou que a mesma substância negra produzida por Metvah flutuava ao redor deles, em grande quantidade. Vethusta falou, ajoelhado:

-Pare de se mexer! – ela parou imediatamente, assustada com o fato de não enxergar saídas dali.

-Independente do que aconteça aqui, lhe apoiarei e darei proteção sempre. – essas palavras a fizeram olha-lo atentamente .

Viu que ele falava sério. O que quer que aquele lugar significasse, ele sabia, e seus olhos mostravam que a segurança dela era muito importante para ele. Depois de uma luta tão feroz, ele era a imagem de um marido que se importava. Não entendeu essa modificação, mas gostou da vibração dele. Não houve tempo de abraçá-lo como queria, pois uma névoa densa vinda do fundo da caverna a envolveu.

NA foi erguida do solo e a névoa se transformou num ser gigantesco, um macho que ora mostrava seus contornos, ora se fazia amorfo e envolveu NA completamente. O toque era suave, mas rijo como a rocha e lembrava muito a secura dos toques de Vethusta. Ele manipulou o corpo de NA de várias formas, como que procurando a solução para um problema. Quando entendeu que ela não assimilava o fator, mesmo com a intervenção dele, a deitou no chão, lentamente. Sem ter emitido um som, saiu da caverna da mesma forma que entrou, como uma densa névoa. Vethusta parecia reverencia-lo e NA sentiu um profundo respeito por aquele ancião que era conhecido pelo nome Proteus e era o pai de Vethusta.

Vethusta se ergueu e colocou NA de pé. Ele falou, então, para segui-lo pois iriam ao encontro “dela”. Como estava atordoada, não perguntou quem era “ela” e o seguiu. Havia um corredor da caverna para outra cavidade mas esta, diferente da primeira, era gigantesca. Era um único e imenso geodo de cristal. Viu uma figura feminina belíssima dentro desse cristal. Seus cabelos eram negros e fartos, um vestido de tons azuis cobria seu corpo, sua pele era claríssima e os olhos azuis, lembrava muito o de sua filha Metvah. A elegante fêmea veio até o limite de uma das facetas do cristal e olhou para NA. Ela disse:

- Ela não absorve e não absorverá por si mesma, o fator da nossa linhagem. Eu tomei a decisão de dá-lo do meu, diretamente, para que ela e o gêmeo possam ficar e assumir seus lugares aqui. Ela será conhecida, de agora em diante, por ‘Branca’ e tudo que lhe digo deve ser repetido no Conselho. Não devem restringi-la, nem impedi-la, mas guardem distância de Branca, porque carrega o meu fator. Usufruam-se, uns aos outros que, em seu tempo, as duas esposas gestarão minhas crias.

Vethusta se inclinou e disse que seria cumprido como pedia. Tétis, mãe de Vethusta e Metvah, amada mãe do Oceano profundo, aproximou-se de NA e colocou um pequeno cristal na altura da garganta dela, e brilhava tanto que seus cabelos ficaram totalmente brancos.

Saíram pela caverna, atravessaram o portal e pisaram na areias do ginásio. ZU e Metvah estavam lá. Esta estava tensa, o que significava que piscava os olhos com mais frequência. Sua preocupação por Vethusta era sincera e pediu comforto para ele. NA viu que seu irmão estava fraco, ainda, mas em seu peito uma estrela branca brilhava, mexendo quando respirava. Haviam conseguido absorver o fator, novamente por intervenção da geração anterior e estavam aliviados. Não estavam conscientes de que, depois da experiência no Planeta mãe, isso sempre aconteceria, nem de que a placa do peito de NA, colocada ali por Mika-el, tinha tido uma grande influência na não absorção do fator. Agora, o ginásio estava vazio e os dois casais se abraçavam calados.

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