A
vida foi plena para os quatro, agora perfeitamente unidos entre si. Vethusta
treinava NA, ambos haviam nascido para combate e, por toda eternidade, o fariam
com prazer. Metvah acompanhava ZU aonde ele fosse, demostrando carinho de forma
calada e firme. Era uma situação que ele aceitava com receio. Ela mudava de
humor muito rápido e a única forma de acalmá-la era trocando fatores. Fugir não
era uma alternativa. Para um macho calmo como ele, esse relacionamento estava
exigindo muito.
NA
descobriu que o novo fator a havia transformado em nutriz para os numerosos
seres elementais dali. Entendeu o significado disso quando, nadando para o
ginásio, criaturas a rodearam, lambendo sua pele, carinhosamente, em busca de
minerais que os sustentavam. Ao ver isso, ZU caiu na risada, que mudou para
desgosto quando viram que ele também produzia a substância na pele.Para
desespero dos dois, foram seguidos cada vez que se encontravam fora das
redomas.
Também
aprendeu que o Oceano Profundo, Intermediario e de Superfície eram berços de
todos os tipos de vida daquele planeta. As fêmeas não eram nascidas para
combate porque sua origem era voltada a fecundação e gestação. A beleza que
produziam, a doçura do nascimento, o brilho das novas vidas encantou NA de
forma irreversível. Ia ao berçário muitas vezes, pois as fêmeas frequentemente
se encontravam lá em processo de gestação ou parto. Mesmo assim, o ponto
principal daquelas vilas no Oceano Profundo era o ginásio e havia um motivo
para isso.
Assim
como em qualquer planeta, ali também havia um equilibrio entre criaturas do
interior e exterior do núcleo. Eram os mesmos vórtices de energia que necessitavam
de constante vigilância para reverter os desequilibrios. Os machos voltados ao
treino para o vórtice eram chamados de controladores e NA seria a primeira
fêmea, que se tinha notícia, a ter esse título no Oceano Profundo. Metvah era
agressiva, mas era lenta como ZU e não gostava de nada que pedisse velocidade,
como a que era necessária para as idas ao vórtice. Seu gêmeo já fazia um bom
trabalho e não se interessava nem um pouco em ir junto. Porém, quando houve
necessidade de seguir os controladores, somente a presença dela bastava para
muita coisa não acontecer. Ela não gostava de confusão. Seu olhar podia gelar
até mesmo seu gêmeo e sabia impor seu desgosto, quando assim achasse certo.
NA
já havia visto, mentalmente, como era o cenário nos desequilibrios do vórtice
dali, mas não entendeu as criaturas que viu fazendo parte dos combates, até que
Vethusta lhes apresentou. Foi a primeira vez que viu baleias. Soube que haviam
nascido naquele planeta e já eram consideradas uma espécie antiga. Elas
gostavam de ficar ali, entre o abismo do vórtice e a vila, porque gostavam das
luzes das esferas e do calor que vinha das chaminés do vórtice. Aprendeu que eram
comandadas pela fêmea mais velha, considerada a Rainha. Haviam vários grupos,
cada qual com sua governante. Eram muito inteligentes, passavam informação
entre gerações, carregando muito conhecimento, mesmo quando jovens. NA e ZU
gostaram muito delas e o mesmo aconteceu com as baleias, que decidiram chamar NA
“aquela que é bela” e ZU “aquele que é amado”. Vethusta era chamado de “aquele
que vence” e Metvah era “ Filha”, apenas. Elas davam novos nomes para todos que
conheciam.
No
contato com elas, os gêmeos aprenderam que para uma baleia não gostar de alguém
é preciso muito esforço. Como são fortes, são também muito pacientes. Quando
não gostavam de algo, tinham uma forma bem dolorida de mostrar, com um som
agudo que imobilizava qualquer um. Eram sarristas, adoravam uma piada e rir.
Tiravam sarro de tudo e todos. Não era possível ficar sério perto delas,
principalmente dos machos, sem ouvir uma piada. Adoravam as crias de todas as
espécies e eram muito maternais. Cuidaram de NA e ZU como se fossem parte do bando
e se afeiçoaram muito a eles.
As
baleias eram controladoras também. Vethusta explicou que as criaturas que
tentavam sair do vórtice eram muito mais densas que as que conhecia no Planeta
mãe e as baleias criavam “peso” na situação com sua massa corporal, sendo
capazes de produzir, estando em bando, muita energia.
Quando
o desequilibrio era muito sério, elas iam junto e em seus treinos iniciais,
ficou óbvio que NA não conseguiria acompanhá-las. Nadavam muito rápido para uma
fêmeazinha jovem que nasceu num deserto rochoso e tinha asas. Mesmo tendo
desenvolvido membranas na nave de transporte, não era páreo para as nadadeiras
das baleias e sempre chegava atrasada. Foi quando Vethusta trouxe um presente de
Proteus especialmente escolhido para NA. Ela nunca mais iria esquecer aquele
dia.
Trípoli
chegou puxado por Vethusta. Era um cavalo de cor azul, crina negra, grandalhão
e famoso por seu mau humor. A criatura mordia, dava trabalho para montar, mas
era veloz e nisso ninguém o superava. Ele era orgulhoso disso... muito
orgulhoso. Foi ódio a primeira vista. Ela nunca havia visto um cavalo e Trípoli
sabia disso. Aprendeu que também tinham senso de humor, do tipo cínico. Jogou-a
ao chão assim que ela tentou montar. Ela levantou metamorfoseada, querendo
quebrar a porcaria da criatura, mas Vethusta a segurou. Trípoli, vendo a
metamorfose, achou NA grotesca.
ZU
tentou ajudar na décima tentativa de NA para montá-lo, pois ia ao chão assim
que ele sentia suas escamas. Para maior irritação dela, Trípoli adorou ZU... achou-o
perfeito e NA pensou que não havia criatura mais subversiva e mau humorada que
aquela. ZU tocou seu focinho e conversou com ele, e, então, Trípoli deixou NA
montá-lo. Isso foi para sempre assim, cada vez que era preciso ir ao vórtice,
ZU pedia e Trípoli obedecia, levando NA até os campos de combate. Sim, pois
Trípoli era briguento, mas obedecia incondicionalmente na hora da batalha.
Sabia antes dela o local para onde deveriam ir e sempre os fazia chegar primeiro,
seu orgulho ditava isso. Não conhecia o cenceito de medo e se fosse para entrar
no combate, defendia NA com cascos e dentes, afinal, mesmo achando-a horrorosa,
era seu trabalho e ninguem deveria se meter nisso. Ele ensinou NA a montar
melhor que qualquer um. Nunca chegaram a se dar bem... ele era uma criatura
altiva e cheia de julgamentos.
Mesmo
se encantando de ver NA montada e querendo ensinar alguns truques, Vethusta não
interveio. Ele também tinha montaria, mas a espécie que montava era assustadora.
Era uma criatura amorfa, como Proteus que NA havia conhecido na caverna do
ginásio e havia lhe presenteado com Tripoli. Era uma massa de cor ocre, quase
sempre rodeada por uma densa névoa. Podia-se sentir sua agressividade à
distância. Só interagia com o dono e foi por entender essa relação muito pessoal,
que Vethusta deixou Trípoli e NA se entenderem sozinhos.
No comments:
Post a Comment
Note: Only a member of this blog may post a comment.