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Pesquisadora na area da mediunidade? Sim, mas mãe de criança pequena, produtora rural, portanto sem tempo, exausta. Não dá para ter comentarios, edições, produção de video, formatação, etc. email psychictaboo@gmail.com

Friday, November 3, 2023

O vale das chaminés


 

Quando os desequilíbrios do vortéx aconteciam, uma das paredes do ginásio mudava de cor. Esse sinal geralmente era seguido por um tremor de maior ou menor intensidade mas, quando ocorria, os controladores já estavam a meio caminho do vale das chaminés, como era chamado o local do vórtice.

Por causa do que significava, o sinal de alarme alterava o comportamento de todos no ginásio, que corriam para uma estreita porta no canto da parede dos fundos da arena; a mesma parede que um dia havia tragado Vethusta e NA; cuja escada em espiral conduzia até um salão onde as criaturas de transporte já estavam prontas para sair. Era um momento muito tenso e ninguém fazia piada nessas horas.

O caminho até o vale era feito por túneis escavados dentro da montanha, descendo até o fundo do abismo que as cordilheiras formavam. Não eram da mesma cor escura das cavernas, mas de paredes claras como a areia do ginásio. A mesma misteriosa fonte de luz que alimentava as esferas da vila estava presente ali, iluminando o caminho. Era claramente uma estrutura feita por um tipo de inteligência que NA sabia não ser a dos habitantes da vila.

Embora pudesse se vingar de NA nessas horas, arranhando-a pelo estreito túnel, Tripoli corria por eles sem escorregar, nem esbarrar nas paredes, mostrando o quanto estava concentrado em seu trabalho. A rapidez deixaria outros seres enjoados, mas NA estava acostumada a grandes velocidades no Planeta mãe. No final desse corredor havia uma plataforma muito parecida com a da montanha de onde tantas vezes alçou vôo, só que nessa ela mergulhava na água, assim que passava a membrana que, como em todo lugar, mantinha a água para fora das construções.

As esferas de luz que iluminavam a vila acima se intensificavam durante os distúrbios, clareando a parte do abismo aonde as chaminés se formavam. A vista que se tinha do vale entre as encostas era magnífica. Olhando-se para cima, via-se a parede do ginásio muito longe, mas claramente iluminado pela esfera e, ao redor, podia-se ver a areia clara do fundo, as chaminés na encosta oposta e o longo vale que se perdia na escuridão além do alcançe da luz da esfera. O cenário todo era em tons de cinza, incluindo as baleias, que nadavam mais acima de onde estavam. Elas também não brincavam nessas horas.

As chaminés não eram, com seus jatos quentíssimos, o que importava para os controladores, mas o que saia dentre elas. Eram criaturas fluidas e quase invisíveis, podendo mais ser percebidas pela vibração na água do que pela cor ou aparência e todo controlador havia, um dia, subestimado esse fato, sofrendo a terrível dor que era encostar nelas. A única coisa que NA viu em comum com os seres que teve contato no Planeta mãe foi o fato de se moverem por um instinto coletivo que as unia e as fazia tentar escapar de seus limites. As dali, quando confrontadas, reagiam tão rápido como as que conhecia.

No vale das chaminés, não era função de NA mover-se em sentido contrário ao do vortéx, mas das baleias. Elas ajudavam muito a conter o que escapava pelas fissuras, usando seus sonares para interferir na capacidade elétrica que as criaturas possuiam, tornando-as mais lentas. Então, a tarefa dos controladores era de juntá-las e forçá-las para dentro das fissuras de onde tinham saído.

O pequeno cristal que Tétis, mãe de Vethusta e Metvah, havia colocado em seu peito mostrou ter mais de uma função, sendo ativado instintivamente, intensificando sua luz e criando um campo que agia como uma rede, empurrando as criaturas de volta as fissuras. As armas que usavam para os treinos era apenas para mostrar do que os controladores eram capazes e disciplinar seus movimentos não sendo usadas ali. NA era a única que possuia o cristal, mas Vethusta não sentia falta disso. Ele, bem como os machos menores, possuiam aquela tinta escura que uma vez a envolveu, e que produzia o mesmo efeito que a luz de seu cristal.

A luz da grande esfera voltava ao normal quando o desequilibrio era contido e não havia, como no Planeta mãe, dança ou canto de vitória para os controladores. As baleias, por sua vez, que não precisavam de iluminação para enxergarem, nadavam cantando exóticas canções que contavam os feitos umas das outras naquele combate, com muita gozação no meio. NA percebia, um tanto desapontada, que elas é que ficavam com toda diversão.

Na volta de um desses combates, antes de chegar a plataforma de entrada dos corredores, NA ouviu um chamado. Parou e olhou para as chaminés. Vethusta percebeu que havia algo e perguntou:

- Você sabe o que é?

- Não - e voltou a olhar para as chaminés, percebendo uma claridade entre duas delas e o forte chamado para que fosse até lá.

- O que é isso? –perguntou e ele respondeu:

-Sem dúvida os pais de minha mãe querem vê-la. É uma grande honra. Ninguém costuma cruzar aquela passagem. As energias do interior do planeta são muito fortes.- falou com os olhos brilhando de felicidade porque sua nova esposa recebia uma honra que o alegrava muito.

NA ficou surpresa quando entendeu que ele não viria junto, mas ele respondeu que só tinha contato com os antigos regentes em casos de grande importância, onde suportar o choque das energias fosse muito necessário. NA tinha adquirido uma facilidade que poucos viriam à ter, por causa da intervenção direta da Grande Rainha no Planeta Mãe. Ele terminou a conversa dizendo, com um grande sorriso:

-Você deve agradecer isso. Eu volto para a vila e aviso todos pois da fissura para dentro não há como se comunicar com ninguém de fora. NA acenou com a cabeça e nadou em direção a claridade entre as chaminés.

No fim de um longo túnel, NA avistou dois tronos de pedra, não tão grandes como o da Grande Rainha, e dois seres de mãos dadas que tinham a mesma altura de NA e que, embora não mostrassem sinais físicos, eram muito, muito velhos, de uma antiguidade que NA não havia conhecido até então. Nereu era o nome do Grande Rei e Dóris, sua gêmea, era a Grande Rainha. NA sentia que estavam muito felizes em vê-la e brilhavam uma luz dourada ao seu redor. Aproximou-se e ajoelhou.

Nereu quem disse, entre um monte de risos:

-Não precisa disso, filha, não precisa... venha ...segure minha mão e sente-se aos meus pés.

NA ficou muito feliz em tocá-los, eram avós de Vethusta e Metvah e sentia uma energia mais forte, mais densa, mas menos agressiva que de seus netos.

-Sente-se bem, minha pequena? O caminho até aqui lhe incomodou?

-Não, falou olhando para Dóris, que se sentia muito agradada pela felicidade de Nereu. Sinto-me sem nenhuma perturbação.

-Ótimo, ótimo! Lamentamos o que teve de acontecer no Planeta mãe, mas vemos que temos aqui uma interessante cruza de energias que beneficia muito todas as linhagens e engrandece bastante seus maridos. Que bela coisa, não? – NA não sabia responder, era a primeira vez que olhava para o passado com outros olhos, já que, de fato, a terrível forma como havia tido seu Segundo marido a havia possibilitado fazer contato com criaturas que a maioria não conseguia e isso estava, de fato, beneficiando muitos, além dela e de seu gêmeo.

Nereu era capaz de enxergar o tempo futuro e interagir com ele, uma combinação rara, e havia visto algo em NA que o fez compartilhar alguns ensinamentos a esse respeito. Em cada encontro que tiveram, Nereu instruiu NA com paixão, sempre sob os olhares felizes de Dóris. Sabia que o conhecimento que passava não seria necessário antes de muitos milênios se passarem, mas ela os usaria com muita capacidade em horas de desespero.

A vida como controladora foi assim, treinos, troca de fatores, excursões ao campo das chaminés para equilibrio de forças e longas horas conversando com Nereu e Dóris, até que o momento de fazer parte da abundância do Oceano chegou para os gêmeos.

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