Quando
os desequilíbrios do vortéx aconteciam, uma das paredes do ginásio mudava de
cor. Esse sinal geralmente era seguido por um tremor de maior ou menor
intensidade mas, quando ocorria, os controladores já estavam a meio caminho do
vale das chaminés, como era chamado o local do vórtice.
Por
causa do que significava, o sinal de alarme alterava o comportamento de todos
no ginásio, que corriam para uma estreita porta no canto da parede dos fundos
da arena; a mesma parede que um dia havia tragado Vethusta e NA; cuja escada em
espiral conduzia até um salão onde as criaturas de transporte já estavam
prontas para sair. Era um momento muito tenso e ninguém fazia piada nessas horas.
O
caminho até o vale era feito por túneis escavados dentro da montanha, descendo
até o fundo do abismo que as cordilheiras formavam. Não eram da mesma cor
escura das cavernas, mas de paredes claras como a areia do ginásio. A mesma
misteriosa fonte de luz que alimentava as esferas da vila estava presente ali,
iluminando o caminho. Era claramente uma estrutura feita por um tipo de
inteligência que NA sabia não ser a dos habitantes da vila.
Embora
pudesse se vingar de NA nessas horas, arranhando-a pelo estreito túnel, Tripoli
corria por eles sem escorregar, nem esbarrar nas paredes, mostrando o quanto
estava concentrado em seu trabalho. A rapidez deixaria outros seres enjoados,
mas NA estava acostumada a grandes velocidades no Planeta mãe. No final desse
corredor havia uma plataforma muito parecida com a da montanha de onde tantas
vezes alçou vôo, só que nessa ela mergulhava na água, assim que passava a
membrana que, como em todo lugar, mantinha a água para fora das construções.
As
esferas de luz que iluminavam a vila acima se intensificavam durante os
distúrbios, clareando a parte do abismo aonde as chaminés se formavam. A vista
que se tinha do vale entre as encostas era magnífica. Olhando-se para cima,
via-se a parede do ginásio muito longe, mas claramente iluminado pela esfera e,
ao redor, podia-se ver a areia clara do fundo, as chaminés na encosta oposta e
o longo vale que se perdia na escuridão além do alcançe da luz da esfera. O
cenário todo era em tons de cinza, incluindo as baleias, que nadavam mais acima
de onde estavam. Elas também não brincavam nessas horas.
As
chaminés não eram, com seus jatos quentíssimos, o que importava para os
controladores, mas o que saia dentre elas. Eram criaturas fluidas e quase
invisíveis, podendo mais ser percebidas pela vibração na água do que pela cor
ou aparência e todo controlador havia, um dia, subestimado esse fato, sofrendo
a terrível dor que era encostar nelas. A única coisa que NA viu em comum com os
seres que teve contato no Planeta mãe foi o fato de se moverem por um instinto
coletivo que as unia e as fazia tentar escapar de seus limites. As dali, quando
confrontadas, reagiam tão rápido como as que conhecia.
No
vale das chaminés, não era função de NA mover-se em sentido contrário ao do
vortéx, mas das baleias. Elas ajudavam muito a conter o que escapava pelas
fissuras, usando seus sonares para interferir na capacidade elétrica que as
criaturas possuiam, tornando-as mais lentas. Então, a tarefa dos controladores
era de juntá-las e forçá-las para dentro das fissuras de onde tinham saído.
O
pequeno cristal que Tétis, mãe de Vethusta e Metvah, havia colocado em seu
peito mostrou ter mais de uma função, sendo ativado instintivamente,
intensificando sua luz e criando um campo que agia como uma rede, empurrando as
criaturas de volta as fissuras. As armas que usavam para os treinos era apenas
para mostrar do que os controladores eram capazes e disciplinar seus movimentos
não sendo usadas ali. NA era a única que possuia o cristal, mas Vethusta não
sentia falta disso. Ele, bem como os machos menores, possuiam aquela tinta
escura que uma vez a envolveu, e que produzia o mesmo efeito que a luz de seu
cristal.
A
luz da grande esfera voltava ao normal quando o desequilibrio era contido e não
havia, como no Planeta mãe, dança ou canto de vitória para os controladores. As
baleias, por sua vez, que não precisavam de iluminação para enxergarem, nadavam
cantando exóticas canções que contavam os feitos umas das outras naquele combate,
com muita gozação no meio. NA percebia, um tanto desapontada, que elas é que ficavam
com toda diversão.
Na
volta de um desses combates, antes de chegar a plataforma de entrada dos
corredores, NA ouviu um chamado. Parou e olhou para as chaminés. Vethusta
percebeu que havia algo e perguntou:
-
Você sabe o que é?
-
Não - e voltou a olhar para as chaminés, percebendo uma claridade entre duas
delas e o forte chamado para que fosse até lá.
-
O que é isso? –perguntou e ele respondeu:
-Sem
dúvida os pais de minha mãe querem vê-la. É uma grande honra. Ninguém costuma
cruzar aquela passagem. As energias do interior do planeta são muito fortes.-
falou com os olhos brilhando de felicidade porque sua nova esposa recebia uma
honra que o alegrava muito.
NA
ficou surpresa quando entendeu que ele não viria junto, mas ele respondeu que
só tinha contato com os antigos regentes em casos de grande importância, onde
suportar o choque das energias fosse muito necessário. NA tinha adquirido uma
facilidade que poucos viriam à ter, por causa da intervenção direta da Grande
Rainha no Planeta Mãe. Ele terminou a conversa dizendo, com um grande sorriso:
-Você
deve agradecer isso. Eu volto para a vila e aviso todos pois da fissura para
dentro não há como se comunicar com ninguém de fora. NA acenou com a cabeça e
nadou em direção a claridade entre as chaminés.
No
fim de um longo túnel, NA avistou dois tronos de pedra, não tão grandes como o da
Grande Rainha, e dois seres de mãos dadas que tinham a mesma altura de NA e
que, embora não mostrassem sinais físicos, eram muito, muito velhos, de uma
antiguidade que NA não havia conhecido até então. Nereu era o nome do Grande
Rei e Dóris, sua gêmea, era a Grande Rainha. NA sentia que estavam muito
felizes em vê-la e brilhavam uma luz dourada ao seu redor. Aproximou-se e
ajoelhou.
Nereu
quem disse, entre um monte de risos:
-Não
precisa disso, filha, não precisa... venha ...segure minha mão e sente-se aos
meus pés.
NA
ficou muito feliz em tocá-los, eram avós de Vethusta e Metvah e sentia uma
energia mais forte, mais densa, mas menos agressiva que de seus netos.
-Sente-se
bem, minha pequena? O caminho até aqui lhe incomodou?
-Não,
falou olhando para Dóris, que se sentia muito agradada pela felicidade de
Nereu. Sinto-me sem nenhuma perturbação.
-Ótimo,
ótimo! Lamentamos o que teve de acontecer no Planeta mãe, mas vemos que temos
aqui uma interessante cruza de energias que beneficia muito todas as linhagens
e engrandece bastante seus maridos. Que bela coisa, não? – NA não sabia
responder, era a primeira vez que olhava para o passado com outros olhos, já
que, de fato, a terrível forma como havia tido seu Segundo marido a havia
possibilitado fazer contato com criaturas que a maioria não conseguia e isso
estava, de fato, beneficiando muitos, além dela e de seu gêmeo.
Nereu
era capaz de enxergar o tempo futuro e interagir com ele, uma combinação rara,
e havia visto algo em NA que o fez compartilhar alguns ensinamentos a esse
respeito. Em cada encontro que tiveram, Nereu instruiu NA com paixão, sempre
sob os olhares felizes de Dóris. Sabia que o conhecimento que passava não seria
necessário antes de muitos milênios se passarem, mas ela os usaria com muita
capacidade em horas de desespero.
A
vida como controladora foi assim, treinos, troca de fatores, excursões ao campo
das chaminés para equilibrio de forças e longas horas conversando com Nereu e
Dóris, até que o momento de fazer parte da abundância do Oceano chegou para os
gêmeos.
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