Sem edição, sem maquiagem, com tarefas a serem feitas. Sem comentários, só informação.
Relações Permitidas
Tradução sobre visões não voluntárias que a autora experienciou. Nesse blog, com comentários, a explicação daquelas que falavam sobre a origem das uniões ou relacionamentos íntimos.
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Monday, November 13, 2023
Sunday, November 12, 2023
Aurora da vida na lua maternidade
Era uma noite comum. A cor negra das rochas com seu brilho molhado fazia
as montanhas ainda mais belas de se olhar. A rajada de fogo que soprava na aurora
daquele dia estava como sempre. O brilho vermelho com suas nuances em laranja e
amarelo ouro como que despencavam céu afora, mas sem modificar o rubro do
horizonte tão familiar para os moradores da lua.
Dentro de uma das muitas cavernas que existem no sem fim de montanhas, um
casal da raça que habita esse mundo está passando por um dos momentos mais
intensos de suas vidas, embora não fosse a primeira vez. São criaturas de
grande proporção, beirando os quatro metros de altura, cuja pele marfim reluz
maciamente ao olhar. A fêmea tem uma cabeleira farta, vermelha como a aurora
dessa lua,seus olhos são claros, é uma figura extremamente forte, mas
encantadoramente delicada, seu nome é FAH. Seu marido, BÔ, é da mesma altura e
porte, embora mais forte, e em tudo parecido com ela, menos pelos cabelos. Em
seu lugar, dois chifres três vezes curvados, mostram que está no auge da
maturidade. Não há roupas cobrindo seus corpos, uma faixa envolve a cintura
dilatada da fêmea e um cinto com uma espada é só o que veste seu marido.
Ele olha com muito carinho e preocupação para sua esposa que está
reclinada sobre um patamar dentro da caverna, da mesma pedra negra e brilhante
que se enxerga nas montanhas do lugar. Ela se contrai com regularidade, em
alguns momentos olha para BÔ e seus olhos sorriem, “está dando trabalho”,
explica mentalmente, “mas eles estão bem”. Seu marido retribui um olhar
encantado para ela. BÔ está esperando a hora de fazer a sua parte, que chega
quando FAH contrai seu imenso corpo de forma violenta. Dentre suas pernas
escorre uma bolsa de cor cinza chumbo. Algo se mexe dentro dela e a estoura,
vazando um líquido negro viscoso e duas criaturinhas cujas pernas estão unidas
por uma membrana. Carregarão a marca da união para sempre.
BÔ, agora pai, os limpa com as mãos, sem os tirar do chão, pois as
rochas absorvem todos os mucos que saíram com os dois bebês. A pequena fêmea é
a primeira a tossir e abrir os olhos. Como que chamando para a vida, ela grita
para o pequeno macho, ainda atado a ela pelas pernas. Este abre os olhos
inseguros e tosse. Assim que as rochas terminam de absorver os líquidos,o pai
os ergue e os segura junto a seu peito. Ficarão lá pelo tempo que estiverem
unidos pelas pernas. Seus movimentos são confusos, estão surpresos com a luz
que enxergam. Eles se olham pela primeira vez, suas pequenas mãos curiosas
tocam o pai e um ao outro. Os recém nascidos se maravilhavam, como se não
soubessem que eram dois e não um só.
FAH ainda está reclinada, seus olhos estão fechados, o parto ainda não
se completou, ela expulsa líquidos que são absorvidos pelo solo rochoso, solo
esse que parece cuidar de FAH como se fosse uma parteira invisível. A membrana
que une as pernas dos pequenos começa a se desfazer lentamente. BÔ está muito
feliz em segurá-los e olha para FAH com intensidade. Os gêmeos parecem com os
pais em tudo, são miniaturas idênticas: a femeazinha semelhante a mãe e o irmão,
ao pai, mas sem os chifres. A única diferença é que eles são azuis, sua peles
não tem a cor da dos pais, nem o cabelo, ainda molhado, da filha é vermelho,
mas azul.
Ali, enquanto FAH se recupera do parto, ela se lembra de como foi a
concepção. O tempo de procriar havia chegado e amar seu compaheiro era aquilo
que a movimentava estes milênios todos. Mas isso requeria um esforço maior, pois
as fêmeas geravam clones femininos e os machos clones masculinos. Assim,
enquanto ela formava um feto fêmea com a união de BÔ, ele também passava pelo
processo de gerar um feto com o fator dela. Ambos ficavam muito vulneráveis
nesse período, então permaneciam dentro da caverna que escolheram para a
criação dos filhos. Não era a primeira gravidez que gestavam, mas sua espécie
procriava uma vez em milênios, então havia muito tempo que isso não ocorria.
Ambos agora eram mais velhos e experientes.
Sabiam o motivo dos bebês serem de cor diferente e ela não pode evitar
a lembrança do dia em que a gravidez havia sido afetada com aquela inesperada
contaminação. Ninguém sabia como lidar com os machos da nova espécie que havia
sido trazida para a lua. Não imaginava encontrar um deles e quando aconteceu
não pode se defender como faria, usando o bastão que havia sido o pesadelo de
vários machos inexperientes e atrevidos. Se colocasse sua conhecida ferocidade na
luta, perderia os gêmeos e BÔ não poderia estar com ela por muito tempo. Agora,
vendo sua família, não se arrependia de ter entregue o combate. Contudo, os
filhotes nasceram com traços da contaminação vinda daquele macho estrangeiro.
Voltou seu pensamento para quem amava desde sempre. Gostava de ver BÔ
gerar, o momento da mudança do feto do corpo dele para o dela, onde terminaria
de se desenvolver junto de sua irmã, era muito delicado. BÔ era tão amável, tão
preocupado em que tudo desse certo que era difícil crer que tamanha criatura,
capaz de combates tão ferozes, pudesse ser pai tão carinhoso. Seus recém –
nascidos veriam isso claramente, com o passar do tempo.
Quando BÔ percebeu que FAH havia se recuperado um pouco, colocou os
gêmeos, cujas pernas agora haviam se separado, em cima de seu ventre. Ela
abraçou os filhos e pode olhá-los com cuidado. Chamou-os NA, a pequena fêmea e
ZU o pequeno macho. Os olhos de ambos observavam a mãe com curiosidade. Mamaram
nos seus seios e dormiram seu primeiro sono da mesma forma como se posicionaram
dentro do seu útero e o fariam para todo o sempre: ZU envolvendo NA com os braços,
ela recostada em seu peito.
Em outras muitas cavernas das montanhas, vários casais já estavam com
seus filhos no colo e alguns ainda no processo de parto. Todos eles se
assemelhavam, em tamanho e aspecto, com FAH e BÔ, mas alguns eram de cor
diferente, e suas crianças, mesmo nascendo com as pernas unidas, tinham cores
que não o azul. Alguns eram verdes, outros púrpuros, mas todos eles cópias
idênticas aos pais, todos eles casais gêmeos. Aquela aurora foi a da produção
de uma nova geração de seres daquele mundo
Não eram muitos, em comparação ao tamanho da lua, pois a raça era
extremamente dispendiosa para o local e
para os outros povos. Eram criaturas que exigiam muito espaço físico para se
desenvolver e quantidades enormes de energias do local aonde habitavam para
manter sua vida. Eram belicosos também, embora não soubessem o que guerra
significasse.
Por muito tempo os bebês não sairam das cavernas, que como eram extensas
e seguiam montanha adentro, não faziam com que se sentissem aprisionados. O
desenvolvimento era lento, mas FAH estava contente em ter filhotes de novo, e
não sentia pressa em levá–los para fora. BÔ está muito satisfeito com o aspecto
de FAH, isso o fazia sair para o Conselho com mais alegria. Não se preocupava
com a segurança deles, pois mesmo os poucos que poderiam se interessar em entrar
nas cavernas, não o faziam quando sentiam o cheiro das crias. Todos no lugar
conhecem as histórias sobre a defesa das mães quando se sentiam ameaçadas e FAH
tinha um reação surpreendente. Ele mesmo poderia sair muito machucado se ela
sentisse algum tipo de ameaça, pois quando uma fêmea deles está em posição de
defesa, não escolhe quem irá atacar. Machos maiores e mais velhos que ele carregavam,
com orgulho, cicatrizes de dias ruins com suas fêmeas. Não queria ter que se
defender dela, daria muito trabalho.
FAH e BÔ saiam da caverna por vezes, para se reabastecer de um mineral
vital à sua espécie e do qual se alimentavam em intervalos regulares. Fora
isso, não havia outra fonte de alimentação. Suas energias eram supridas
diretamente da atmosfera que, embora rarefeita, os envolvia. Nas ocasiões que
os pais saiam, ZU cuidava de NA, e, como sempre faria, vigiaria cada passo de
sua irmã. Sim, pois NA mostrava, como todo filhote de todas as espécies do
Universo, o seu caráter bem cedo. Ela era a parte ativa e curiosa dos gêmeos,
nunca está muito quieta, sempre se movimenta e sempre o faz com rapidez. Mesmo
antes de poder andar com segurança ela já tentava seguir ruídos, ou sombras. ZU
era calmo e quando se movimentava o fazia lentamente, como se precisasse
avaliar cada passo. Mas seus olhos se mexiam muito, pois não deixavam de seguir
a irmã, e nas ocasiões em que a perdia de vista, gritava até FAH aproximá-los
novamente. Sempre que NA pulava pelo corpo da mãe, seu irmão observava com
prazer estampado em seus olhos, mas não fazia o mesmo. Sua natureza era passiva
e seria assim para sempre, mesmo quando houvesse embates, e estes seriam menos
agressivos e rápidos que o da irmã. Assim era a espécie e assim sempre seria. Ficava
satisfeito em sentir as energias que NA produzia, era dela que vinha o que
sentia do mundo, era ela que recebia e transmitia para ele.
Todas as espécies nativas desta lua tinham apenas um meio de digestão
que se dava por contato direto com o que os circundava. Com exceção dos
minerais que precisavam colher das ‘rochas que choram’, como as chamavam, não
precisavam de mais nada. Como forma de expelir os excessos do que digeriam, os
casais gêmeos se abraçavam na posição em que nasceram e permitiam que os
diferenciais se igualassem, que as poucas energias de um fossem preenchidas
pelas que estavam em excesso no outro. Assim, todos da raça ficavam em posição
de conforto tantas vezes quantas precisassem para se equilibrarem.
BÔ abraçava sua filha mas ela só permanecia quieta quando seu irmão o
fazia. Ela sempre achou seu pai muito grande, e se divertia, quando em seu
colo, colocando suas mãos no rosto e nos chifres dele. Os olhos de ambos
brilhavam tanto que chegavam a soltar faíscas. FAH também abraçava seu filho,
mas isso só enquanto bebê, pois as energias eram mais bem distribuídas com a
fêmea no centro. O abraço da mãe causava cócegas em ZU e o fazia mexer-se
muito, o que era mais estranho ainda para ele que se movimentava lentamente, e
causava riso nos pais, que ele entendia muito menos.BÔ também tinha passado por
isso na infância.
Na primeira vez que saíram todos juntos da caverna, as crianças já não
eram bebês e suas alturas atingiam os joelhos dos seus pais. Estavam curiosos,
a pequena andando e mexendo em tudo, o irmão atrás dela surpreso com a grande
diversidade de sensações e energias que experimentava. Sentia prazer em ver a
felicidade da irmã com o mundo novo que se abria para eles.
Era exatamente assim para os outros gêmeos da espécie. Podia acontecer
de a fêmea ser passiva e calma e o macho irrequieto. Muito dificilmente havia
partos de mais que gêmeos. Isso gerava muita confusão, pois os irmãos e irmãs
seriam extremamente belicosos e brigariam muito entre si, dando muito trabalho
para os pais e para a sociedade, tendo que ser separados ainda bem jovens e
criados por outras espécies que não tinham filhos na mesma época.
Então houve um período, também longo, onde a infância desse casal de
gêmeos era feita de caminhadas de inspeção, idas as rochas que os supriam de
minerais e brincadeiras na caverna enquanto BÔ ia ao Conselho. FAH não ia, pois
as fêmeas em período de gestação e de criação se afastavam do grupo. Como todas
procriavam ao mesmo tempo, não havia um Conselho nessas épocas, para as fêmeas.
As idas aos locais das “rochas que choram” era muito agradável para todos os
filhotes, pois podiam se olhar, embora não gostassem de se tocar. Não
brincavam, apenas ficavam se olhando e observando os pais se alimentarem. Essas
rochas eram negras como todas, mas suavam um líquido que cristalizava e assim
era consumido por todos os adultos. As crianças apenas mamavam, então, ao acompanhar
os pais, apenas observavam.
Alguns filhotes verdes apresentavam pelos em seus ombros. Eram macios e
arrepiados. Todo adulto tinha a cor da pele branca, só se podia ver a diferença
das raças pelos filhotes. O que se via em comum era que a beleza envolvia a
todos. Seu porte e movimentos faziam o quadro todo ser uma agradável visão para
os quem os observava sem interferir.Uma outra espécie acompanhava de perto os
casais daquela lua Eles eram um povo diferente, cujos seres não eram tão altos
e fortes, mas delicados e pequenos. Todos rodeados por um campo de luz branca
translúcida. Cuidavam para que os habitantes daquela lua, e de muitas outras,
não fossem perturbados em seus momentos de procriação. Apenas observavam, não
causavam incômodo, eram uma presença conhecida dos pais e mães e não dos
filhotes porque ainda não era o tempo.
Saturday, November 11, 2023
Povos do Facho De Luz e os campos de maturidade
Mas o tempo de conhecer o povo do Facho De Luz chegou. Aconteceu quando
NA viu, da entrada da caverna, uma forte luz no horizonte. Essa luz emitia um
chamado. Não era um som audível mas todos na caverna sentiram a convocação. FAH
e BÔ se olharam, esse era um bom sinal, ficaram satisfeitos, porém ansiosos. Para
lá se dirigiram, saidos de suas respectivas cavernas, todos os pares do lugar. A
família de FAH caminhou longo tempo por entre as montanhas até um planalto
abaixo delas. Ali, uma grande lona vermelha, de proporções gigantescas, se
estendia, sem sustentação, a dez metros do solo. Embaixo da lona estavam todos
os casais com seus respectivos filhos. Todos olhavam para um imenso buraco de onde
saia um facho de luz intensa. Muitos estavam ajoelhados, outros em pé, mas
todos imóveis e olhando fixamente para a luz. NA enlouquecia de curiosidade,
provocando preocupação no irmão que, para acompanhá-la, tinha que se movimentar
com uma rapidez da qual não gostava. ZU sentia que precisava proteger sua irmã,
pois havia uma energia muito forte vinda através de NA e isso não seria bom
para ela, se ficassem ali muito tempo.
Quando ZU viu a irmã se deslocando por entre todos, para chegar perto
do facho de luz, procurou, com os olhos, pelos pais. Estes o olharam com muita
calma, como se ali estivesse algo bem conhecido deles e importante. Também
diziam para ir com ela. Foi o que bastou para se mover como nunca havia se
movido – com muita velocidade.
NA estava bem perto do buraco, quando ZU se aproximou dela. Ali ela
percebeu que toda aquela experiência era demais para ela e procurou o conforto dos
braços de ZU para equilibrar suas energias. Enquanto estavam assim, algo na luz
se moveu e um som se fez ouvir pelo planalto. Seres muito luminosos e
longilíneos saíram de dentro dela e envolveram, em círculo, os dois, que
buscaram, intrigados, os pais com olhar. Eles também ficaram envolvidos pela
luz e estavam muito felizes. Seus filhos estavam maduros para outra etapa.
FAH e BÔ conheciam os seres que habitam o Facho de Luz. Eles eram os mensageiros
de muitos planetas. A luz era o seu meio de transporte e de todas as raças que
eles tinham conhecimento. Eram criaturas muito tranqüilas e tinham bom relacionamento
com todos os quais FAH se lembrava. Não entendia direito por que só eles eram responsáveis
pelo transporte, mas a movimentação entre planetas e dimensões requeria muita
habilidade. Era muito bom que os seres do Facho de Luz o fizessem, confiava
muito neles e seus filhos confiariam também. Mas, como muitas mães neste
Universo, FAH ainda não sabia que um de seus gêmeos não concordaria totalmente
com seu ponto de vista.
Foram transportados para um local do outro lado da mesma lua, aonde as
planícies pareciam sem fim. NA observou que crescia ali uma grama avermelhada
e, passando as mãos curiosas, sentiu como eram tenras. Viu que havia diversos
animais que se alimentavam disso e dos arbustos. Ficou muito intrigada e
curiosa para saber onde poderiam estar, pois o céu não tinha a faixa vermelha
no horizonte. Era mais escuro, e mais difusa a claridade que o iluminava. Não
havia cavernas, então dormiram em uma parte da planície onde os arbustos
formavam uma pequena floresta. Passariam a dormir menos horas, seus pais
também.
Ali os gêmeos perceberam que haviam filhotes mais velhos, nenhum da sua
geração havia vindo junto, nenhum havia sido envolvido pelo facho de luz.Seus
desenvolvimentos não estavam completos. Portanto, estavam em um ponto daquela
lua onde eram as crias mais jovens, e não chegaram a ver as de sua geração,
enquanto lá estiveram.
Isso não foi comum, pois, geralmente, todas as crias amadureciam juntas,
o que não pareceu motivo de preocupação para ninguém, mas não era comum. Assim,
os gêmeos ZU e NA continuaram crescendo e desenvolvendo suas habilidades sob o
cuidado amoroso de seus pais. A exploração do ambiente, naquele lado da lua, ensinou
os gêmeos a interagir com os outros seres e com a natureza local. Não haviam as
“rochas que choram”, mas parecia não haver mais a necessidade da ingestão dos
minerais que elas exudavam. A alimentação deles continuava a acontecer
naturalmente, da interação com a atmosfera e os filhotes pela amamentação, seus
excessos sendo regulados pela posição de conforto entre os casais. Isso foi
assim até que veio a puberdade, a conhecida transição para a idade de
maturidade física plena, comum em quase todas as espécies de todos os mundos.
Na espécie a qual pertenciam os filhotes nasciam em tudo iguais aos
adultos. Embora da mesma espécie, as raças tinham pequenas diferenças físicas
que faziam com que não houvesse relação entre gêmeos de casais diferentes, além
disso, era da natureza deles não se interessarem uns pelos outros, apenas pelo
seu único gêmeo.
A puberdade dos filhotes chegou com o desagradável aumento do ventre. A
certa altura, NA observou que o corpo de ZU começava a se modificar e sentia,
ultimamente, uma pressão muito grande no baixo ventre. Eles se olharam por muito
tempo, com muita suspresa. FAH, ao perceber o que acontecia, chamou BÔ sentindo
muita felicidade. Conversaram em linguagem falada, como não faziam há muito
tempo, e foi FAH quem disse:
-- A hora do encontro chegou, meu marido. Nossos filhos se reunirão em
breve. BÔ olhou com fascinação para os ventres levemente inchados.
-- Era mesmo tempo FAH, será muito bom vê-los nascer de novo. Você acha
que eles estão bem?
-- Sim BÔ, eles estão muito bem, mas precisamos voltar a nos reunir.
Eles têm que entender que é natural.
-- Sim, nos reunirmos será certo e belo, minha esposa.
Assim, em um dia qualquer, os pais de todos os gêmeos começaram a se unir
em longos abraços, o que não acontecia desde o inicio do período de procriação.
Como se uma primavera estivesse no ar, os maridos e esposas se uniam por todos
os lados na planície e sua ausência causava surpresa aos filhotes. A relação
deles era algo que produzia uma cor no ar que maravilhava os olhos. As crias
olharam com curiosidade para as nuvens coloridas por algum tempo e depois
perderam completamente o interesse, como a maioria dos filhotes do universo
faz. As cenas se repetiam por vezes e vezes, ensinando, pelo exemplo, o que em
breve os jovens casais iriam ter de passar.
Esse tempo chegou depois de um lento e sofrido período de crescimento
dos ventres até o ponto de estarem tão distendidos que toda colônia parecia
estar grávida. Aquilo causava grande constrangimento nos filhotes, que se
sentiam feios e fora do contexto como qualquer adolescente no universo. Não
sabiam que, enquanto pequenos, absorviam os componentes pelo leite da mãe, e a
passagem para a idade adulta faria que passassem a absorvê-los direto do
ambiente. Essa transição era o que inchava os ventres, e que desencadeava a
passagem para a adolescência. Mas, para quem passava por isso, tudo era uma
grande e triste confusão. Os pais se divertiam com o desconforto dos jovens e
faziam piadas, que não ajudavam a se sentirem menos abatidos. O ritual de
passagem chegava quando os ventres, tão dilatados, provocavam dores físicas que
os filhotes nunca tinham sentido. A dor desencadeava substâncias dentro de seus
corpos que levavam os agora não mais filhotes a se unirem para além da posição
de conforto.
Esse dia chegou quando a química desencadeada impeliu os gêmeos, em
desespero, um ao outro, num ritual instintivo de passagem e, assim como em muitos
outros, deixaram a natureza de sua espécie agir. As gêmeas possuiam um ferrão
interno que perfurava o orgão masculino e provocava a liberação do líquido que havia
se acumulado em seus ventres, fazendo-o escorrer. O alívio a que isso seguia
fazia com que não parassem de se abraçar. Outros casais de gêmeos, de outras
pelagens, também liberavam os líquidos das mesmas cores de suas peles. Dessa
forma, a planície se tornou uma grande palheta de cores, e o ar ao redor o
reflexo de um imenso arco-íris. O líquido, de caracteristicas gelatinosas,
permanecia sem evaporar ou ser absorvido pelo solo e, como era muito volumoso,
chegava a envolvê-los como numa banheira. Quem os visse, além da beleza das
cores, poderia sentir o alívio que presenciavam, e perceber uma espécie de
torpor que os tomava como que tornando-os sonâmbulos. Todos os pais observavam
de longe, deixando para seus filhos a privacidade de viver um dos momentos mais
importantes de suas vidas, assim como eles já haviam vivido num passado
distante.
Os habitantes do Facho De Luz, como sempre, os observavam e, para eles,
o ritual de acasalamento era a maturidade dessa espécie que eles seguiam a
incontáveis milênios. Os campos de maturação eram, no ápice da época de
procriação, um evento ansiosamente esperado, porque havia poucos acontecimentos
no universo que envolvessem aquele tipo de beleza. Cada casal produzia,
enquanto se unia, um som, uma gama de cores, uma fragrância específica. Os
casais de gêmeos, naquela que já era uma das planícies mais famosas do
universo, por sua paisagem fabulosa, tornava o evento um espetáculo sensorial
que, mesmo para quem estava acostumado a isso, como os guardadores do facho de
luz, sentia falta nos séculos que se seguiriam até a próxima temporada de
procriação.
Como o ventre desinchava lentamente e o torpor ia se diluindo concomitantemente,
foram se abraçando, por meses, parando apenas para dormir, o que acontecia
dentro dessa bolsa de gelatina que provia alimento, calor e proteção. Eram
muitos filhotes se descobrindo, inclusive o prazer e o seu par. Quando começou
a recobrar sua consciência, NA ficou surpresa com o que via em ZU. Nunca havia
enxergado tão longe dentro dos olhos dele. Ela não compreendia o que via. Era
seu irmão de gestação, seu marido agora, mas tinha algo mais que NA não sabia
nem mesmo pronunciar. Sendo muito nova, não sabia que estava amando e acordou
para essa nova consciencia com as duas mãos no tórax dele, olhando seus olhos e
envolta pelo líquido que os dois derramavam.
Estavam ainda deitados quando ZU pronunciou suas primeiras palavras
faladas. Ele lhe perguntou:
-- Eu tenho você dentro de mim? – disse com os olhos brilhando.
-- Sim ZU, você me tem dentro de você. Você enxerga onde você está?
-- Sim NA, eu estou dentro de você.
-- Sim, você está. – finalizou devolvendo o mesmo brilho nos olhos.
Nenhum dos dois sequer percebeu que haviam escutado a voz do outro e a
própria, pela primeira vez. Estavam muito absorvidos pela surpresa. Também não
perceberam que a cor azul da pele deles ia se transformando, conforme o líquido
escorria. Ambos estavam ficando da cor dos pais, marfim, e os cabelos de NA
agora mostravam o vermelho da aurora do planeta.
Quando o líquido todo foi absorvido, ZU se ergueu e estendeu a mão para
sua, então, esposa. Puderam ver que estavam mais altos, mais desenvolvidos e
seus olhares mais vívidos. Agora eram dois belos e genuínos representantes da
raça a que pertenciam. NA estava com os seios mais fartos e ZU estava bem mais
forte. Ela, por toda a eternidade, não se esqueceria da forma como os olhos
grandes e claros de ZU se dirigiram à ela, naquele dia. Era um olhar de
pertencimento que só aquela relação poderia trazer para toda a eternidade. Não
sabiam que a forma como reagiram ao ritual era sem precedentes para a espécie a
qual pertenciam. Entenderiam a profundidade disso mais tarde.
Friday, November 10, 2023
Transporte para o Planeta Mãe
Quando os gêmeos, agora unidos em níveis mais profundos, voltaram para
seus pais, abraços foram trocados, confortos foram sentidos, e agora ZU envolvia
a mãe como um adulto fazia. Não era do tamanho dela, ainda, mas já conseguia
abraçá-la. Isso o deixou muito orgulhoso, e não iria mais sentir as
desconfortáveis cócegas do passado. BÔ abraçou a filha e disse, numa voz que
ela escutava pela primeira vez:
-Você está muito bonita e ZU agora está ai dentro – disse batendo seus dedos
no coração dela.
-Eu sou seu pai, tenho orgulho de saber que minha filha está dentro do
coração de seu marido.
-Sim, pai, eu estou sim!-respondeu NA com muita emoção.
Quase imediatamente, três representantes do povo do Facho de Luz apareceram.
Manifestaram felicitações para FAH e BÔ e disseram que o transporte estava
pronto. Percebia-se a satisfação no rosto dos pais. NA não entendeu o porquê. Não
gostou quando os pais disseram para irem na frente.
-Iremos em seguida. Vão com eles, vocês estão prontos. – disse FAH.
NA e ZU não sabiam que cada casal de gêmeos era transportado para o
planeta aonde as energias fossem mais próximas daquela que haviam produzido
durante o acasalamento. Um erro no endereço de destino e poderiam machucar os corpos
dos dois jovens, mas os habitantes do Facho de Luz não cometiam erros. Levaram
ZU e NA para um planeta gasoso, cuja atmosfera era uma briga de matizes
vermelha, amarela e marrom.
O transporte foi feito através de um canal de luz semelhante ao que NA
havia visto na planície. Pela proximidade da lua onde nasceram com o planeta
mãe, não foi necessário o uso de um veículo de transporte. Em minutos estavam
no planeta e nenhum desconforto foi sentido por nenhum dos gêmeos. Como toda
adolescente, NA estava excitada, embora constrangida pela ausência dos pais,
coisa que nunca havia vivido. ZU, como sempre, observava calado, dirigindo
olhares para NA. Se ela estivesse emitindo bons sinais, ele sempre estaria tranquilo.
Chegaram a uma cidade onde estavam sendo aguardados e foram recebidos
com muita alegria. Os seres masculinos do local eram em algo parecidos com ZU e
as algumas fêmeas tinham a pele mais escura e cabelos negros, mas a maioria era
parecida com NA. Mais tarde ela entenderia que eram uma raça só e que as fêmeas
transmutavam seus corpos consideravelmente, quando precisavam trabalhar.
Os machos levaram ZU para dentro da cidadela da montanha, e NA foi com
as fêmeas para o deserto onde viviam. O planeta, fora sua massiva atmosfera,
era um imenso deserto de areia muito fina. As cores do céu eram fantásticas aos
olhos de NA, que estava se sentindo desconfortável por não ter ZU ao alcance
dos olhos, mas sua curiosidade a levava para onde lhe conduziam. Gostou demais
de tudo o que viu. A areia foi algo novo e bom aos seus pés, e o vento, algo
que não conhecia, lhe deixou muito admirada, pois seus cabelos voavam e isso
era uma experiência que lhe agradava imensamente.
A noite não trouxe felicidade. Não deixaram que visse ZU, nem que
dormisse com ele e aquilo foi um choque para ela. Dormiu pelo cansaço que
sentia com as novas energias entrando, mas palpava uma grande violência contra
seu ser. Sabia que ele não estava sentindo bem, também, mas que obedecia aos
mais velhos. Ele estava do jeito que tanto conhecia: avaliando e tomando notas
mentais de tudo, assustado com a sua ausência, mas era crescido e não podia
gritar por ela como havia feito na infância.
Dentro da montanha, no quarto da cidadela que lhe reservaram, ZU estava
mesmo assustado, mas tinha já avaliado a situação e sabia onde NA estava. Dizia
para si mesmo que estava tudo certo, mas não conseguia sentir isso. Um dos
chefes do conselho, cujo físico era muito semelhante ao dele, disse que não
poderiam estar juntos por algum tempo, que era melhor assim e que todos ali
sabiam como isso poderia doer, pois também haviam passado por isso. Disse que
deveria aguardar com calma, mas essa era uma das palavras para definir ZU,
definitivamente não para NA. Ela permaneceu contida, não calma, pois estava
curiosa com a novidade das asas que lhe nasciam às costas e que não fazia ideia
do que eram, nem que podia tê-las e nem que sabia voar.
Foi naquela noite que as diferenças começaram. NA não havia tido tempo
para entender que a sua espécie partilhava de mais de um companheiro, pois não
havia visto nenhum casal com outro que não o seu gêmeo na lua onde havia
nascido. Ela não sabia que FAH, sendo madura para procriar, havia completado a
união com muitos maridos e seu pai, BÔ, com muitas esposas, embora a fidelidade
para com seu gêmeo uterino fosse eterna. Para poderem chegar a produzir a
gravidez gêmelar característica da espécie a que pertenciam, estava implícito
que haviam completado o numero de uniões necessárias para isso. NA não fazia
ideia do que seria pedido à ela.
E foi assim que, obedecendo a outros rituais muito antigos, naquela
noite as fêmeas mais velhas trouxeram, ou caçaram, NA nunca soube ao certo,
machos de espécies diferentes e trouxeram para o acampamento. Eram machos
jovens, magros e belos, todos calmos como ZU. Eles foram se aproximando da fogueira.
As jovens fêmeas olhavam com interesse, investigando-os como fêmeas geralmente
faziam. NA, sentada, olhava com curiosidade, mas não se ergueu. Nenhum deles
era forte como seu marido, nem tinha o cheiro dele, nem a cor dele muito menos
o jeito de olhar dele. Por isso, contrariando sua natureza investigativa, NA
calou, em profundo desgosto, e não se aproximou de nenhum deles, nem emitiu
chamado para sequer um.
As fêmeas mais velhas não gostaram de ver que NA não se interessava
pelos machos que haviam trazido. Isso não era certo, já que só fêmeas doentes
ou em parto não o fariam. Aquilo desagradou IZAH, a mais experiente da tribo,responsável
pelas fêmeas recém chegadas, que teria que falar no Conselho sobre uma situação
que não acontecia há muito tempo: uma fêmea jovem e saudável não querer escolher
um marido.
IZAH tinha a pele mais escura e cabelos fartamente negros e ondulados,
era belíssima. Não tinha o gêmeo dela perto nem nenhum de seus maridos. Sua
história havia sido diferente do usual e estava no planeta sozinha esperando o
retorno de seu gêmeo. Até que isso acontecesse, por estar lá há muito mais
tempo que qualquer um ali, era a responsável pelo treino das fêmeas jovens e
pelas incursões aos locais onde travavam os combates. Naquele sistema, as
fêmeas eram as responsáveis, por natureza da espécie, a manter a emissão dos
fortes distúrbios dos campos magnéticos que o centro do planeta emitia, e que
era expelido pela mancha, em equilíbrio. As fêmeas absorviam as energias e
transformavam-nas em algo que não debilitava o planeta. Da forma como essas emissões
saiam pelo canal interior,sem interferência das fêmeas, seria provocado um
cataclisma de nível global.
Não era fácil para IZAH, “entre os fortes a mais forte”, fêmea em idade
de procriação, estar sem seus maridos. Pela primeira vez em sua existência
sentiu raiva ao ver aquela jovem recém-chegada que tinha o gêmeo consigo e
teria seu Segundo marido, não deixar o curso natural acontecer. Não era
possível que a filha de FAH, muito conhecida sua e de fama renomada, estivesse
rejeitando um Segundo Marido. Não era natureza da linhagem de NA e causava
outro sentimento desconhecido em IZAH... o da surpresa. Ela presenciava uma
jovem sem treino, filha de uma linhagem tão preparada quanto a sua, rejeitar o
que para ela fazia tanta falta. Isso era demais. Voou até a cidadela para falar
no Conselho.
Na montanha, ZU sentia a energia de NA e foi perguntar aos mais velhos
qual poderia ser a razão dela estar sofrendo. Os conselheiros se entreolharam e
decidiram que era hora de explicar a situação.
O ambiente do planeta era extremamente hostil principalmente para quem
vinha de fora. Isso queria dizer que as energias eram muito pesadas para os
jovens que chegavam. Ele e a irmã aguentariam a vibração do planeta por um
curto tempo, depois disso começariam a adoecer. Em cada local que vivessem isso
se repetiria, e o passo para se adaptar a situações como esta era, no caso da
espécie deles, através de NA. Ela havia nascido receptora. A forma como isso se
processava era que ela recebesse o que era conhecido como “fator”, uma enzima, que
faria com que o corpo de ambos passasse por uma transformação que permitiria à
eles absorverem as energias do planeta e estarem aptos a viver ali. Esse fator
era passado, geralmente, através de um macho nascido no planeta.
-Ela terá o Segundo Marido já? Tão cedo? – ZU perguntou.
-Sim, é necessário. Ela precisa encontrar o Segundo Marido logo, vocês
já estão muito próximos do tempo que recém chegados aguentam por aqui.
-Por que ela está triste?
-Não sabemos, mas parece que há um problema com ela.
-Qual problema?
-Sua irmã não está aceitando os machos locais. - ao falar isso, olhavam
entre si com surpresa. Precisamos que isso aconteça rápido, para que vocês não
adoeçam.
-Mas ela está sofrendo, algo não está bem. – era o que conseguia
explicar.
-Vamos reunir todos e vamos conversar. Você espera nossa decisão.
ZU saiu do Conselho muito abatido. Seus pais não estavam ali para
ajudar a entender e sua responsabilidade era proteger NA. Sentou calmamente e
esperou. Quando o chamaram estavam reunidos todos do Conselho do planeta.
-ZU?- disse o macho mais velho - Há muito tempo não acontece de uma
fêmea não aceitar um macho, seja concubino, ou marido, em sua chegada. Todas as
outras jovens já escolheram um Segundo marido, NA não quis tocar os que as
treinadoras trouxeram.
-Mas isso não pode ser explicado para ela?
-Sim, você fará, e dirá a ela sobre a necessidade de isso acontecer
rápido. Nós escolhemos um jovem macho que tem grande domínio sobre as energias,
que produz um excelente fator e será muito bom começo para resolver essa
situação.
-Ele protegerá NA?
-Sim, ele tem boas capacidades. Ela está vindo para cá agora, vá e
explique a situação.
-Vocês não querem dizer isso pessoalmente?
-Você é o Primeiro marido, você fala com ela. Ela confia em você.
NA veio voando encontrar seu marido. Queria dizer que deveriam estar
juntos, que isso era o certo. Encontrou-o na plataforma de entrada da cidadela.
Não se cabiam de felicidade, ficaram em posição de conforto por bastante tempo.
-NA? Você precisa de um macho daqui. – falou no ouvido dela.
-Eu tenho você em mim, para que outro?
-NA... você precisa de um macho daqui... será seu Segundo marido.
-Do que você fala? Eu tenho marido. – era, realmente, uma conversa
muito estranha para ela.
-Você precisa de outro marido. Nós precisamos que você receba o fator
que fará com que possamos continuar aqui. Nossos pais não virão e você não
poderá ter filhos enquanto não receber o fator daqui.
-Mas, ZU, isso precisa mesmo acontecer? Eles não deixam você comigo. Por
que não?
- Por que se nós ficarmos juntos, sua recepção não fica aberta para o
planeta, só para mim. NA, você precisa disto. Eu não vou poder cuidar de nós se
não pudermos receber as energias desse lugar.
-Você precisa mesmo disto?
-Nós precisamos disto. Você é a porta, NA! Você sabe que é.
-Sim, mas eu não ... – queria dizer que não havia gostado da aparência
dos machos dali, mas calou - tudo bem, ZU.
-Você vai encontrar agora o macho que escolheram para nos ajudar. Não
demore, vá agora. Eu estarei dentro de você!
Dali saiu a figura mais deslocada, mais entristecida, mais encolhida,
que o planeta havia visto em muito tempo, o que não passou despercebido pela
Grande Rainha. Voou até onde encontraria o Segundo marido, não muito longe, no
deserto. Ele estava sentado e a viu chegar. NA olhou para o que parecia um
macho e não pode acreditar. Era estranho, muito estranho. Bem menor que ZU e
magro. Sabia que os machos dali eram menores que as fêmeas, mas no dia que os
trouxeram para o acampamento não chegou tão perto deles. Este tinha cabelos,
eram lisos e negros, tinha olhos puxados, o que constrangeu NA muito. Seu
cheiro não era como o de ZU, não era da mesma cor e não satisfazia o olhar como
seu marido fazia. Não podia ser marido seu, não podia. Ele tentou pôr a mão em
seu ombro e aquilo a incomodou mais do que quando seu ventre cresceu, não podia
ser um marido ...aquilo ... não podia. Não ajudou muito ele tentar acalmá-la,
na realidade nada do que fizesse ajudaria. NA estava assombrada demais para
entender.
Mesmo a distância, ZU percebeu que algo não ia bem. Estava no Conselho
e falou:
-Ela não está bem, algo não está certo. Vocês tem certeza de que esse
macho é o Segundo marido?
-Sim, ele é o Segundo marido.
-Ela está vindo para cá e acho que ela não aceitou ele.
Os conselheiros se entreolharam e abaixaram a cabeça. Fazia muito tempo
que não tinham uma fêmea que desse esse tipo de trabalho. Decidiram intervir.
-Você poderá ficar com ela está noite, ZU. Há muito tempo atrás, outra
gêmea teve problemas quando chegou e estar perto do marido a fez aceitar o
Segundo. Sua irmã lhe tem muito forte dentro de si, deve ficar orgulhoso, ela é
excelente fêmea.
-Obrigado. Ela está muito forte dentro de mim também.
NA aterrissou na plataforma muito agitada. Voou direto para o conforto
no fortes braços de ZU. Tremia. Levou um
tempo para ambos equalizarem seus campos. Ele nunca havia tido trabalho para
acalmá-la.
-ZU, o Segundo marido não parece com você, ele tem cabelos. Isso não é
bom. Não gosto de olhar ele, e cheira outra coisa, não como você.
-Eu sei, eu vejo. Vem dormir comigo.
-Eu posso? Você vai ficar em conforto comigo?
-Sim, venha ficar em conforto. – sorria aquele doce sorriso peculiar
dele.
Dormiram juntos o que realmente foi inconveniente. A regra de separar
os gêmeos até a chegada do Segundo marido, ou esposa, era certa, sendo uma
questão de sobrevivência. No caso de NA, estar juntos ZU não iria ajudar e pela
manhã isso se provou correto. ZU explicou que deveriam tentar deixar o Segundo
marido passar o fator.
PI, o Segundo marido, entrou no quarto com apreensão. Iriam tentar mais
uma vez, com a presença de ZU, para acalmá-la, o que foi outro erro. Ela até
tentou estar calma, observou bem PI, os dois machos se olharam e ZU falou
tranquilamente com PI, agradecendo ele estar ali e ter paciência. NA não gostou
daquilo. Não conseguiu pensar em deixar outro macho estar com ela. Foi sentindo
algo muito ruim, algo que lembrava rocha dura, o toque da rocha fria e dura.
Não houve meios de conseguir deixar ao menos que ele encostasse em sua
pele, ela não aceitava.
-NA, ele veio ajudar. Fica quieta! – não era do seu feitio dar ordens.
-ZU, ele não parece você, não gosto de não parecer você, isso é duro,
não estou bem! -seu irmão sentia que ela não estava bem mesmo.
Conselheiros haviam lhe avisado da necessidade de segurá-la, se ela não
permitisse a aproximação do Segundo marido e foi o que ele fez. Segurou NA
pelos pulsos, deitada, e disse para ela se acalmar e deixar acontecer. Um macho
dessa raça é um pouco maior que a fêmea mas, como BÔ sabia e seu filho não, as
fêmeas eram mais agressivas e nesse momento podiam machucar quem estivesse
perto. Vários machos mais velhos carregavam as cicatrizes do ataque de suas
fêmeas. NA não estava grávida, mas estava se sentindo ameaçada. Ela tentou se
acalmar, pois o toque de ZU naturalmente fazia isso, até que o Segundo marido
tentou, novamente, tocá-la. NA empurrou facilmente ZU, soltou-se e feriu PI sem
dó.
Foi o que bastou para machos do Conselho aparecerem no quarto e
colocarem correntes em NA. Eram mais velhos e conseguiam segurar uma fêmea
jovem e assustada. Amarraram-na a cama onde havia dormido com ZU.Disseram para
seu gêmeo que não poderia ficar lá, pois ela teria que aceitar o Segundo marido
mesmo que para isso tivesse que ser acorrentada.
PI tentou se aproximar mais uma vez fazendo com que aquilo que anteriormente
havia apenas irritado NA se transformasse em ofensa odiosa. Porém, naquele
exato momento, NA orou. A primeira oração de sua vida, dirigida àquela que era mãe
de todos no planeta e ela sabia, por intuição, estar vendo seu sofrimento. Rezou
que não deixasse sua vontade ser violada.
O pedido foi ouvido pela grande responsável do planeta, mas a reação
que ninguém poderia antever aconteceu quando PI tentou deitar sobre o corpo
acorrentado de NA. Em minutos sua pele escureceu e enrijeceu. Uma longa cauda
surgiu, seus olhos já não eram claros e suas unhas agora eram garras. Não um
mostro, mas sim um ser feito para combate. Sua força quebrou as correntes e
estava a ponto de machucar aquele que lhe ofendia quando viu uma águia
gigantesca descendo, suas garras a prendendo junto ao solo. Era toda eriçada e
vermelha, tão forte que chegava ao rubro. Dali veio o nome pelo qual ela o
chamaria para sempre: Pássaro de Fogo.
A imensa ave não só era mais forte que ela, mas seu contato a fez
entrar num torpor que lhe manteve imóvel. Essa criatura olhou para o grupo de
machos do Conselho. Era maior que todos eles. Dirigiu o olhar para ZU, que
estava caído a um canto, olhando tudo com muito espanto , sua pele da cor e
textura da irmã e um rabo que apareceu do nada. Esse pássaro falou:
-Estão satisfeitos agora que criaram um pesadelo para si próprios?
-Grande Alado, não sabíamos que isso acabaria desta forma. Nunca
presenciamos uma metamorfose, sabemos que existe pelo que os antigos contaram. Isso
não se dá a muito tempo.
-Não me interessa o quanto sabem a respeito, mas, agora que aconteceu,
esta fêmea deverá ficar presa até que aceite o Segundo Marido. – e falando isso
ele próprio colocou NA entorpecida de volta as correntes.
-O processo de aceitação do Segundo Marido tem que se completar , mesmo
que a Grande Rainha tenha dado seu fator diretamente a fêmea. Vocês a mantenham
longe do gêmeo dela e de alimento até que ela aceite aquele ali. – e apontou o
bico para PI, machucado e assustado.
NA ficou sozinha, amarrada por muitos dias, era uma fêmea jovem e
forte. A metamorfose a fez mais forte ainda e para enfraquecê-la teriam que
esperar. Seu ventre começou a crescer e a dor foi ficando insuportável. Pela
primeira vez na vida, chorou. ZU sentiu o choro dela, e seus pais também, o que
causou um problema no Conselho. Eram um povo não acostumado a ver um de seus
pares em tanto sofrimento e choravam silenciosamente por isso.
Quando NA, com o ventre extremamente dilatado, e um vapor exalando de
suas recém nascidas escamas, gritou por ZU, num grito parecido com o da hárpia,
de uma tristeza imensa, PI entrou no quarto trazendo uma tigela e panos .O
líquido era verde e ele, com muita cautela, tremendo as mãos, passou o pano
embebido no líquido pelo imenso e escamoso corpo da jovem fêmea que tanto ódio
lhe votava. NA observava, fraca, sentido uma dor profunda e triste como nunca
havia estado. Olhou para o Segundo marido agradecendo o alívio que o líquido
causava em sua pele. Então ele falou:
-Eu não lhe quis mal algum. – NA apenas virou a cabeça dando um
suspiro.
-Também não me deixam ver minha gêmea, enquanto não estiver com você,
NA. – ela olhou para ele, que sentia muito em ver tamanha fêmea sendo obrigada
a algo que não era de seu agrado.
Dois membros do Conselho entraram, com algum desconforto por toda
aquela situação. Nunca haviam visto uma fêmea amarrada daquela forma, nem haviam
observado tanta dor. Tudo aquilo daria muitas reuniões de discussão, com
certeza. Levantaram-na da cama deixando-a em pé. Verificaram as correntes e
saíram.
Assim, a imagem que se via era de uma criatura de grande proporções,
cor agora azul escura, cuja pele lembrava a de um lagarto, longos e fartos
cabelos escurecidos como sua pele, asas e rabo que jaziam murchos ao encontro
da pedra fria, o ventre claramente dilatado, presa a uma parede de rocha clara,
as correntes esticando seus braços e pernas para que não conseguisse quebrar os
elos, o que não acontecia apenas por causa da fome a que impuseram ela.
PI se aproximou dela, seu ódio não tinha passado, mas a dor e a
fraqueza fizeram melhor trabalho que as correntes. Ela não movia um músculo
sequer, era jovem demais para nomear ou mensurar o que passava. O único
sentimento benéfico foi o ventre desinchar conforme o líquido, não azul e
gelatinoso, mas escuro e sanguinolento escorria pelo chão, enquanto PI fazia
sua parte. Não houve uso para aquele líquido, era fruto de uma ofensa e não se
prestava a nada.
Quanto tudo terminou, ZU e outros membros do Conselho entraram no
quarto. PI não conseguiu passar o fator para NA, a intervenção direta da Grande
Rainha já o havia feito, e a metarmofose era prova disso, mas a aceitação como
Segundo marido havia se completado. NA esperou todos entrarem e pronunciou as
únicas palavras de todo aquele drama:
-Nunca haverão crias minhas com este macho.Eu não permitirei.
Tiraram as correntes e NA, sem dar um único olhar para seu gêmeo,
conseguiu voar até um ponto do deserto onde ficou sozinha, calada, imóvel,
absorvida em sentir as dores da primeira ofensa recebida desde que nascera.
Algo que machucava mais ainda por ter acontecido tão perto da grande alegria
que tinha sido descobrir o significado da união nos campos de maturidade.
Thursday, November 9, 2023
A Grande Mancha
Escavado na montanha onde ZU morava, estava o Salão do Conselho. Tinha
uma cúpula imensa, era inteiramente talhado na rocha e no centro um teto
abobadado delimitava o ambiente para discussões. Nesse dia, todos os habitantes
compareceram, menos NA. Seus pais estavam presentes vindos apressadamente para
a reunião. Não era uma situação usual e o assunto seria sua filha, as
consequencias do que havia acontecido e o que deveriam fazer frente a isso.
FAH tinha um sentido, como todas as mães, de saber o que seus filhos
sentiam e estava furiosa. Todos do Conselho a tratavam com cautela, pois sua
ira era famosa. A metamorfose não era vista há muito tempo. Suas consequências
eram conhecidas, mas não eram conversadas abertamente. FAH era da geração que
havia presenciado a outra metamorfose, mas nunca imaginou que seus filhos
viessem a vivê-la.
NA não esteve presente na reunião. Estava no deserto tentando se
recuperar do grande sofrimento vivido. O fato de estar sozinha irritou bastante
seu pai. ZU não foi ter com ela pois sentiu profundamente a metamorfose e não
sabia como reagir ao sentir NA tão transtornada. ZU, afinal de contas, era um
macho muito jovem para responder a isso de maneira apropriada. Pássaro de Fogo
também estava lá, mas como um enviado. Era apenas representante de uma
potestade maior e, se ela não pedisse, não poderia intervir.
O casal deixou claro que queriam seus gêmeos fora dali. Pássaro de
fogo, com um olhar pesaroso, lembrou que isso não poderia acontecer, pois a
aceitação da Grande Rainha fazia com que os gêmeos tivessem que completar o
tempo deles no local. Isso era algo definitivo e claro. FAH e a Regente
pertenciam a mesma linhagem. FAH, mesmo contrariada, sabia que era o único
caminho para seus filhos. Porém, ela conseguiu um acordo: ninguém mais
interferiria no desenvolvimento e aprendizado de ZU e NA que não a geração da
Grande Rainha e de FAH, todos de gerações abaixo nunca mais poderiam interferir.
Embora ZU estivesse presente, não pode compreender o que isso significava,
mas essa decisão incomum foi o gatilho de inumeras reações nas vidas dele e de
sua irmã pela eternidade. Assim, o Conselho se desfez e todos voltaram para
seus assuntos, com uma sensação única de estranhamento e novidade.
FAH saiu sozinha da montanha. Angustiada com a vibração que sentia,
voou a procura da filha que sofria. Achou-a sentada na areia, as asas caídas,
costas para a Cidadela, como sinal de rejeição, seu jovem corpo ainda
retornando da metamorfose. As garras e cauda estavam lá e viu sua filha
massageando a pele na tentativa de esconder o ocorrido. “Então é assim que uma
de nós fica com a metamorfose” – pensou. Achou que ela estava linda. Era uma
pena que sua filha estivesse sem poder ver a beleza que havia conquistado, e
conseguia antever como seria bela quando em sua forma de combate. Sentia
orgulho de que sua linhagem passasse a incluir uma fêmea assim, mas, naquele
momento, era apenas sua cria machucada e envergonhada de ser vista nessas
condições.
Era o que NA sentia, vergonha. Quando pousou na areia, pode ver o que
havia acontecido com seu corpo apalpando-o. O vento não tocava sua pele e seu
cabelo como quando chegou no planeta. A cauda era algo que não conhecia,
movia-se com brutalidade, as garras lhe pareceriam ótimas em qualquer outra
ocasião, mas o líquido negro que lhe escorria pelas pernas a lembrava do que
havia provocado aquilo e não a deixava perceber a metamorfose como algo bem
vindo. Viu com alívio a escuridão da noite, mas, então, vieram as lágrimas que
não sabia poder existir e percebeu que essa novidade não seria presenciada por
quem amava tanto. Seu gêmeo não estaria ali para lhe dar conforto. Levantou-se
em pavor, girava para os lados tentando entender a solidão, as lágrimas, o peso
da cauda, a pele com escamas. Não conseguia pensar sem a posição de conforto,
sem sentir os excessos de energia fluindo para seu gêmeo, sem as mãos dele ao
redor de sua cintura. Tentou levantar vôo, mas, para sua maior surpresa, não
conseguiu e não sabia que era devido a falta do gêmeo e do choro a
enfraquecerem. A dor veio em seguida. Sem processar os excessos, seu corpo doía,
e, embora o ventre continuasse a desinchar conforme o líquido corria, sentia
outras dores. Exausta, dormiu, mas as lágrimas e o líquido continuaram
correndo.
Na manhã seguinte, quando NA sentiu a aproximação de sua mãe, não se
animou, pelo contrário, entendeu sua condição era a pior de toda sua vida e
teve vergonha. Todas as fêmeas eram muito orgulhosas de sua linda postura, e isso
era algo que não tinha naquele momento. Não poderia fugir, seria uma ofensa
inimaginável. Não sabia como explicar o que tinha acontecido, nem a ausência de
seu irmão. A vontade de ser aninhada nos braços de sua mãe superou a vergonha e
NA, com as lágrimas correndo silenciosamente, olhou para ela em pé a sua frente
FAH ajoelhou e abraçou sua filha, ainda era um pouco maior que ela e a
envolveu como quando pequena. Pode absorver seus excessos para transmiti-los ao
seu pai, mais tarde. A metamorfose cedeu, suas asas se ergueram um pouco. Em
minutos ela respirava melhor, mas mãe e filha ficaram nessa posição por horas.
FAH entendeu o quanto NA estava machucada pelo tempo que levou para equilibra-la,
e esperou o necessario para que ela começasse a falar, e NA disse:
-Mãe, por que? Fiz algo errado?
-Não querida, mas lamentamos que tenha tido sua primeira interação
negativa tão cedo, tão jovem, como somente outra fêmea, há muito tempo atrás,
viveu.
-No que me transformei?
-Essa foi a forma do seu sistema absorver a essência do planeta. O
fator de seu Segundo marido foi o catalisador para o que a Grande Rainha enviou
diretamente para você. Não havia como predizer esse acontecimento. NA calou-se
nos braços da mãe. Podia entender o que ela falava.
Vendo a filha em melhor condição, FAH pegou-a pelos ombros, ergueu seu
rosto e falou olhando à fundo seus olhos:
-Você iria passar, cedo ou tarde, por uma interação negativa com algum
macho, em combate ou não. Mas existe um motivo para que isso tenha acontecido
da forma como aconteceu. É necessario que eu lhe explique algo, mesmo que você
não esteja preparada para entender. Nada até aqui está errado, nem sua
metamorfose é indevida, mas preste bem atenção ao que vou dizer, sim? NA
balançou a cabeça afirmativamente.
-Houve um incidente na gravidez de vocês. Nos primeiros meses de
gestação fui até as pedras sozinha, pois a necessidade de doses maiores para
vocês no útero me fazia ir mais vezes beber da água das rochas. Seu pai ficou
na montanha. Antes de chegar lá, encontrei um macho novo e sozinho. Ele era de
uma espécie diferente da nossa, que tem causado problemas em todos locais para
onde foram transportados. A gêmea dele estava por perto, pude sentir, mas ele
se comportava como se precisasse de esposa. Sua pele era azul, tinha cabelos e
eram negros. Não era agradável como seu pai. – parou para observar se ela
estava entendendo e continuou:
-Entramos em combate, eu estava com meu bastão, mas soube que, mesmo
sendo fácil vencê-lo, a energia de vocês estava diminuindo muito rápido e eu os
perderia. Um aborto faria seu pai ter de se afastar de mim por um longo tempo e
entendi que vencer aquele combate me traria perdas que não queria viver.
-Eu amava tanto seu pai e vocês! Vivemos tanto para poder tê-los que
outra gravidez levaria uma eternidade para nós. Estavamos prontos para vocês,
não poderia nos magoar as custas de apenas um combate, filha. Fiz a escolha de
ficar com quem amava e entreguei a luta.- os olhos de NA estavam arregalados,
não compreendia porque ela dizia tudo aquilo.
-Mas, mãe, o que tem isso a ver comigo e ZU? O que esse macho lhe fez?
-Foi uma interação negativa, filha. Essa espécie nova não está desautorizada
a interagir com nossas fêmeas e isso passou para vocês no útero. Não havia como
impedir a contaminação.
-O que isso fez em nós?
-Vocês tem mutações por causa dessa contaminação. Sua cor azul quando
nova e quando nervosa, por exemplo. A precocidade de vocês também. A espécie a
que esse macho pertence evolui bem mais rápido que a nossa.- NA se alterou:
-O que meu pai pensou disso? Ele combateu esse macho? Ele ficou triste?
Porque eu não vi tristeza em papai? FAH abraçou a filha.
-Você sabe que BÔ não precisa combater por mim. Aquele macho saiu
machucado o suficiente. Não seria próprio combater alguem tão ferido. Assegurei
que ele não fizesse isso com nenhuma outra fêmea, que não a gêmea dele, por
bastante tempo. Era o mínimo que podia fazer por nossa espécie.- fez outra
pausa e continuou:
-Seu pai ama vocês demais e eu o orgulhei por ter escolhido a nós. Ele
me amou mais por isso. Estamos mais fortes agora e temos vocês!
FAH ainda conversou algum tempo com a filha. Por fim, NA perguntou:
-O que faço agora? Para que vim aqui?
-Para treinar filha, para desenvolver aquilo que nascemos para fazer.
Você tem medo?
NA se ergueu e disse:
-Não mãe, eu quero isso.
-Então vá, estarei lhe vendo de perto. Obedeça IZAH, você terá muito
prazer nisso.
Separaram-se, FAH voou para a Cidadela e junto com BÔ foi transportada
de volta para a lua. NA se dirigiu para o acampamento.
A interação negativa causou uma diferença na energia de NA que levaria
tempo para se dissolver e esse desequilíbrio a fez não ser desejável para ZU.
Quando percebeu a rejeição de seu irmão mesmo estando a distância, NA voou para
o acampamento no deserto, sabendo que enquanto estivesse daquela forma não
adiantaria ir até seu marido. Isso a magoou sobremaneira, mas nunca seria de
sua natureza ficar quieta quando em desequilíbrio. Chegou ao acampamento e se
deu por inteira ao treinamento para o qual havia vindo ao planeta mãe.
Respeitaram seu silêncio e afastamento.
Não dormiu junto com as outras jovens fêmeas. Acordou na manhã seguinte
e sentiu que IZAH vinha ao seu encontro. Desde a metamorfose, sua capacidade de
antecipar movimentos havia se acentuado. Era mais uma surpresa no meio de
tantas e nada amenizava a falta que ZU fazia.
IZAH se dirigiu para o local que NA escolheu para dormir com
sentimentos contraditórios, algo raro nela. Nada em IZAH, nem em nenhuma daquelas
fêmeas, poderia ser definido assim. Agora sentia uma empatia muito grande pela
filha de FAH, mas também sentia ira ao vê-la passar por uma interação negativa
tão nova. Acorrentada? Certamente uma afronta. Antes se irritou com ela, mas
agora seria sua única treinadora, fez questão disso e seu pedido havia sido
aceito pela Grande Rainha. Se era uma metamorfose de combate, então faria dela
a melhor de todas as jovens fêmeas. Era filha de FAH e só isso já era bastante
para ser excelente.
Encontrou NA de pé aguardando um tanto assustada. Ela percebia que IZAH
não estava de bom humor.
-Se eu souber que isso lhe aconteceu de novo, eu mesma a punirei! Você
tem obrigação de se defender! Venha comigo e obedeça! - não retrucou, mas
pensou em como queria seu gêmeo ali.
Num local perto do acampamento, IZAH começou pelo vôo. NA tinha que
fazer os mesmos movimentos que ela. Voavam até o limite da atmosfera e desciam
em mergulho para abrir as asas no momento correto. Também foi treinada para se
algo desse errado, como pousar com o mínimo de ferimentos aprendendo a rolar na
areia. Nunca teve dificuldades em pousar, até que os treinos passaram para
pequenos vórtices de vento. Tinha de voar contra, com a areia cobrindo seu
corpo. Subir era penoso e descer dolorido. Não reclamou uma vez, bastava pensar
que ZU deveria estar ali e toda dor parecia tola.
Dos vôos em vórtices de vento foram para os de calor. Ali não se
enxergava o movimento do ar e somente a sensação na pele dava a direção a
seguir. Era bem fácil, mas a lição era mudar a direção das ondas de calor com a
posição das asas. NA viu a metamorfose fazer diferença. Não sabia quando vinha,
mas era automático. Ao menor sinal de perigo ela acontecia fazendo com que NA
detectasse algo pelo simples fato de sua estrutura mudar. Parecia que lidar com
ventos era mais seguro que com altas temperaturas.
Após um curto tempo, IZAH foi até o Conselho e comunicou aos presentes
que NA iria para sua primeira incursão a Grande Mancha. Um dos conselheiros
falou:
-Mas isso seria perigoso, ela não pode estar pronta tão cedo.
-Ela não teve medo da altura que a levei, não teve um pouso falho, sabe
se jogar em queda, controlou as temperaturas sem problemas. As escamas a
protegem da areia. Não há nada mais a ensinar, só a experiencia o fará.
Estaremos em três treinadoras e iremos fora de zonas de desequilibrios até que
ela esteja pronta.- mesmo assim o conselheiro retrucou:
-Acho que você esta confiando demais por ela ser metamorfoseada. O
acontecido foi uma fatalidade, isso não a torna melhor. - IZAH não estava
gostando muito da conversa toda e ele estava dando a oportunidade de falar o
que pensava. Embora não mudasse de aparência, a cor de todas as fêmeas mudava
quando irritadas.
-Claro que o fato de a filha de FAH ter sido acorrentada para que um
macho pudesse cumprir seu papel foi uma fatalidade. Mais ainda por não ter
podido aprender antes o que era uma boa interação com outros e a forma como ela
reagiu até agora, preservando a integridade física do Primeiro e Segundo
maridos, mostra que ela tem mais do que preparo, ela tem consciência que está além
da instintiva. Ela vai para a Grande Mancha e mais, que ela tenha sua hora de
postura o mais breve possivel, para que nós não tenhamos que fazer por ela.-
IZAH causou comoção no conselho:
-Você vai pedir o direito a postura em nome dela?
-Sim, nós iremos e vocês terão que dividir a energia. Aconselho
aos irmãos que rezem para que ela se poste antes de nós.
Os machos do Conselho olharam com desconforto uns aos outros enquanto
as treinadoras saiam. Conversaram entre si o quanto o direito a postura era
correto. ZU esteve presente, já que o assunto era sua irmã. Foi explicado que
era direito da fêmea se recuperar do que a havia ofendido em combate posterior.
Se NA não exigisse o direito, todas as fêmeas estavam planejando fazer em nome
dela e seus gêmeos e concubinos teriam de aceitar o combate. A situação que a
novata havia provocado não tinha como ficar pior. Rezar começou a parecer uma
boa idéia.
Ao anoitecer, voaram com NA até a Grande Mancha. Pássaro de Fogo estava
presente por ordem da Rainha. NA o via pela primeira vez depois do incidente e
ficou nervosa.
-Porque ele está aqui?
-Aonde vamos é território da Rainha e é para sua proteção.
-Eu não fiz nada errado!
-E não fará, ele é apenas uma testemunha do seu progresso. – aquilo não
a convenceu, pois ainda sentia muito forte todas as emoções que havia passado,
mas esqueceu instantaneamente, quando pode ver o tamanho da mancha no horizonte
que emitia um som compacto. Ali NA renasceu. Sua curiosidade a transformou de
imediato, acelerou a velocidade de vôo, mas foi detida por IZAH.
-Cuidado, preste atenção ao campo magnético! Pousaremos antes dele.
Então percebeu uma tênue luz, um escudo que parecia limitar a mancha,
mas contraia-se e expandia-se conforme a mancha o fazia. NA não conseguia se
conter e isso era sentido por seu gêmeo que a essa altura não passava bem, pois
NA estava em perigo real. A mancha era um espetáculo para os sentidos. Só pode
compreender sua vastidão quando estavam voando alto e a muitos kilometros de
distância. O som era potente mas não desagradável. Quando pousaram e pode vê-la
de perto, parecia-se com uma parede que mudava de cor, nos mesmos tons terra,
vermelho e ocre do planeta. Foi trazida de noite para que pudesse enxergar o
escudo que envolvia a mancha. A luz, produzida em ondas, era fosforecente azul,
como uma membrana fina e viva. Perguntou se podia tocar.
-Sim, mas com cuidado, não sabemos sua reação a ela.
Tocou-a delicadamente. Era líquida, mas oferecia resistência. Sentia
eletricidade correndo em seu corpo e aquilo a excitou muito. IZAH percebeu que
poderia se metamorfosear e queria que isso acontecesse dentro da mancha. Olhou
para Pássaro de Fogo que afirmou com a cabeça. Avisou NA:
-Precisamos achar um ponto fraco e entrar. Siga nossos passos. Lá
dentro faremos as mesmas manobras que você treinou antes e saímos, nada mais.
-Tudo bem. – seguiu as treinadoras que já haviam começado a escalada.
Sim, o campo magnético era resistente o suficiente, embora fino como uma folha,
para que se escalasse. A metarmofose já se iniciava, mas NA não sentia perigo,
somente prazer. Sentia que era feita para aquilo. Pensou em como era bom
experimentar algo diferente do que dor e saudade.
Em dado ponto, uma das treinadoras sumiu da vista e IZAH se dirigiu
para lá. Quando chegou sua vez, percebeu que havia uma falha no campo que era
suficiente para passarem uma por vez e, ao cair lá dentro, se atrapalhou no
vôo, pois era algo que jamais imaginara. Havia um olho no centro, onde os
ventos não sopravam e tudo ao redor era areia e calor. As luzes brilhavam, vez
por outra, perto do campo. No olho da mancha havia uma passagem que conectava a
atmosfera a um túnel imenso na formação rochosa. Quanto mais perto do fundo, mais
escuro, quanto mais alto, mais claros os padrões de cor. Era noite e só se
enxergava com a luz fosforecente produzida pelo campo. Não entendeu o que
produzia aqueles fenômenos,mas estava excitada demais para querer entender. Seus
sentidos lhe guiavam atrás de IZAH e fez todos os movimentos que ela fazia.
Nada lhe parecia difícil, pelo contrário. Se havia nascido para algo, era
aquilo.
Voando ao redor do olho da mancha, IZAH fez o sinal para mergulharem.
Perto da entrada da passagem na rocha ela desviou e subiu novamente. Fizeram
isso várias vezes mas quando IZAH achou que o treino estava indo bem, NA não
desviou da passagem. Continuou mergulhando, seus sentidos lhe guiavam, era como
nascer, era como descobrir os campos de maturidade, era como o amor que sentia
por seu gêmeo.
Desceu fundo, suas escamas escureceram e a armadura se fechou nas asas.
Continuaria até o fim, se não fosse por aquelas garras e um forte empuxo para
cima. Tentou ver as plumas de fogo dele e o que encontrou foi um ser negro, seu
couro brilhando e nada feliz. Era imenso, mas agora parecia com um macho.
Grudou-a na parede e olhou com olhos vermelhos e dentes afiados.
-Gosta de ser presa por garras? Porque parece que sim. Tem idéia do
perigo aqui?
-Pensei que pudesse ir até o fundo. Parece tão bom. Fiz algo errado? –
ele olhou para o fim da passagem e falou:
-Sim, minha Senhora, será feito. – voltou o rosto para ela e disse-
Você está considerada pronta para a Grande Rainha. Fico satisfeito porque não
sou sua babá, mas estarei olhando para o caso de você cometer outra
imprudência. Siga-me. – voltaram para a superficie e, no caminho, os dois se
transformaram. NA ficou curiosa em saber porque ele também podia se
metamorfosear. Ele também podia ler a mente dela:
-A minha espécie nasce assim, você ganhou isso por outras razões.
–falou secamente.
IZAH estava voando ao redor da entrada e observou cautelosamente os
dois. Pássaro de Fogo deu a mensagem da Rainha. Não questionou, era de se
esperar. Voltaram para o acampamento e foram relatar isso para o Conselho. NA
foi se deitar. Sentia-se viva, alerta, feliz, mas percebeu que seu ventre
começava a inchar e isso a lembrava do que precisava ser feito. Era hora de
exigir o direito a postura.