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Pesquisadora na area da mediunidade? Sim, mas mãe de criança pequena, produtora rural, portanto sem tempo, exausta. Não dá para ter comentarios, edições, produção de video, formatação, etc. email psychictaboo@gmail.com

Monday, November 13, 2023

Introdução ao livro Relações Permitidas

 Sem edição, sem maquiagem, com tarefas a serem feitas. Sem comentários, só informação.



Sunday, November 12, 2023

Aurora da vida na lua maternidade

 


Era uma noite comum. A cor negra das rochas com seu brilho molhado fazia as montanhas ainda mais belas de se olhar. A rajada de fogo que soprava na aurora daquele dia estava como sempre. O brilho vermelho com suas nuances em laranja e amarelo ouro como que despencavam céu afora, mas sem modificar o rubro do horizonte tão familiar para os moradores da lua.

Dentro de uma das muitas cavernas que existem no sem fim de montanhas, um casal da raça que habita esse mundo está passando por um dos momentos mais intensos de suas vidas, embora não fosse a primeira vez. São criaturas de grande proporção, beirando os quatro metros de altura, cuja pele marfim reluz maciamente ao olhar. A fêmea tem uma cabeleira farta, vermelha como a aurora dessa lua,seus olhos são claros, é uma figura extremamente forte, mas encantadoramente delicada, seu nome é FAH. Seu marido, BÔ, é da mesma altura e porte, embora mais forte, e em tudo parecido com ela, menos pelos cabelos. Em seu lugar, dois chifres três vezes curvados, mostram que está no auge da maturidade. Não há roupas cobrindo seus corpos, uma faixa envolve a cintura dilatada da fêmea e um cinto com uma espada é só o que veste seu marido.

Ele olha com muito carinho e preocupação para sua esposa que está reclinada sobre um patamar dentro da caverna, da mesma pedra negra e brilhante que se enxerga nas montanhas do lugar. Ela se contrai com regularidade, em alguns momentos olha para BÔ e seus olhos sorriem, “está dando trabalho”, explica mentalmente, “mas eles estão bem”. Seu marido retribui um olhar encantado para ela. BÔ está esperando a hora de fazer a sua parte, que chega quando FAH contrai seu imenso corpo de forma violenta. Dentre suas pernas escorre uma bolsa de cor cinza chumbo. Algo se mexe dentro dela e a estoura, vazando um líquido negro viscoso e duas criaturinhas cujas pernas estão unidas por uma membrana. Carregarão a marca da união para sempre.

BÔ, agora pai, os limpa com as mãos, sem os tirar do chão, pois as rochas absorvem todos os mucos que saíram com os dois bebês. A pequena fêmea é a primeira a tossir e abrir os olhos. Como que chamando para a vida, ela grita para o pequeno macho, ainda atado a ela pelas pernas. Este abre os olhos inseguros e tosse. Assim que as rochas terminam de absorver os líquidos,o pai os ergue e os segura junto a seu peito. Ficarão lá pelo tempo que estiverem unidos pelas pernas. Seus movimentos são confusos, estão surpresos com a luz que enxergam. Eles se olham pela primeira vez, suas pequenas mãos curiosas tocam o pai e um ao outro. Os recém nascidos se maravilhavam, como se não soubessem que eram dois e não um só.

FAH ainda está reclinada, seus olhos estão fechados, o parto ainda não se completou, ela expulsa líquidos que são absorvidos pelo solo rochoso, solo esse que parece cuidar de FAH como se fosse uma parteira invisível. A membrana que une as pernas dos pequenos começa a se desfazer lentamente. BÔ está muito feliz em segurá-los e olha para FAH com intensidade. Os gêmeos parecem com os pais em tudo, são miniaturas idênticas: a femeazinha semelhante a mãe e o irmão, ao pai, mas sem os chifres. A única diferença é que eles são azuis, sua peles não tem a cor da dos pais, nem o cabelo, ainda molhado, da filha é vermelho, mas azul.

Ali, enquanto FAH se recupera do parto, ela se lembra de como foi a concepção. O tempo de procriar havia chegado e amar seu compaheiro era aquilo que a movimentava estes milênios todos. Mas isso requeria um esforço maior, pois as fêmeas geravam clones femininos e os machos clones masculinos. Assim, enquanto ela formava um feto fêmea com a união de BÔ, ele também passava pelo processo de gerar um feto com o fator dela. Ambos ficavam muito vulneráveis nesse período, então permaneciam dentro da caverna que escolheram para a criação dos filhos. Não era a primeira gravidez que gestavam, mas sua espécie procriava uma vez em milênios, então havia muito tempo que isso não ocorria. Ambos agora eram mais velhos e experientes.

Sabiam o motivo dos bebês serem de cor diferente e ela não pode evitar a lembrança do dia em que a gravidez havia sido afetada com aquela inesperada contaminação. Ninguém sabia como lidar com os machos da nova espécie que havia sido trazida para a lua. Não imaginava encontrar um deles e quando aconteceu não pode se defender como faria, usando o bastão que havia sido o pesadelo de vários machos inexperientes e atrevidos. Se colocasse sua conhecida ferocidade na luta, perderia os gêmeos e BÔ não poderia estar com ela por muito tempo. Agora, vendo sua família, não se arrependia de ter entregue o combate. Contudo, os filhotes nasceram com traços da contaminação vinda daquele macho estrangeiro.

Voltou seu pensamento para quem amava desde sempre. Gostava de ver BÔ gerar, o momento da mudança do feto do corpo dele para o dela, onde terminaria de se desenvolver junto de sua irmã, era muito delicado. BÔ era tão amável, tão preocupado em que tudo desse certo que era difícil crer que tamanha criatura, capaz de combates tão ferozes, pudesse ser pai tão carinhoso. Seus recém – nascidos veriam isso claramente, com o passar do tempo.

Quando BÔ percebeu que FAH havia se recuperado um pouco, colocou os gêmeos, cujas pernas agora haviam se separado, em cima de seu ventre. Ela abraçou os filhos e pode olhá-los com cuidado. Chamou-os NA, a pequena fêmea e ZU o pequeno macho. Os olhos de ambos observavam a mãe com curiosidade. Mamaram nos seus seios e dormiram seu primeiro sono da mesma forma como se posicionaram dentro do seu útero e o fariam para todo o sempre: ZU envolvendo NA com os braços, ela recostada em seu peito.

Em outras muitas cavernas das montanhas, vários casais já estavam com seus filhos no colo e alguns ainda no processo de parto. Todos eles se assemelhavam, em tamanho e aspecto, com FAH e BÔ, mas alguns eram de cor diferente, e suas crianças, mesmo nascendo com as pernas unidas, tinham cores que não o azul. Alguns eram verdes, outros púrpuros, mas todos eles cópias idênticas aos pais, todos eles casais gêmeos. Aquela aurora foi a da produção de uma nova geração de seres daquele mundo

Não eram muitos, em comparação ao tamanho da lua, pois a raça era extremamente dispendiosa  para o local e para os outros povos. Eram criaturas que exigiam muito espaço físico para se desenvolver e quantidades enormes de energias do local aonde habitavam para manter sua vida. Eram belicosos também, embora não soubessem o que guerra significasse.

Por muito tempo os bebês não sairam das cavernas, que como eram extensas e seguiam montanha adentro, não faziam com que se sentissem aprisionados. O desenvolvimento era lento, mas FAH estava contente em ter filhotes de novo, e não sentia pressa em levá–los para fora. BÔ está muito satisfeito com o aspecto de FAH, isso o fazia sair para o Conselho com mais alegria. Não se preocupava com a segurança deles, pois mesmo os poucos que poderiam se interessar em entrar nas cavernas, não o faziam quando sentiam o cheiro das crias. Todos no lugar conhecem as histórias sobre a defesa das mães quando se sentiam ameaçadas e FAH tinha um reação surpreendente. Ele mesmo poderia sair muito machucado se ela sentisse algum tipo de ameaça, pois quando uma fêmea deles está em posição de defesa, não escolhe quem irá atacar. Machos maiores e mais velhos que ele carregavam, com orgulho, cicatrizes de dias ruins com suas fêmeas. Não queria ter que se defender dela, daria muito trabalho.

FAH e BÔ saiam da caverna por vezes, para se reabastecer de um mineral vital à sua espécie e do qual se alimentavam em intervalos regulares. Fora isso, não havia outra fonte de alimentação. Suas energias eram supridas diretamente da atmosfera que, embora rarefeita, os envolvia. Nas ocasiões que os pais saiam, ZU cuidava de NA, e, como sempre faria, vigiaria cada passo de sua irmã. Sim, pois NA mostrava, como todo filhote de todas as espécies do Universo, o seu caráter bem cedo. Ela era a parte ativa e curiosa dos gêmeos, nunca está muito quieta, sempre se movimenta e sempre o faz com rapidez. Mesmo antes de poder andar com segurança ela já tentava seguir ruídos, ou sombras. ZU era calmo e quando se movimentava o fazia lentamente, como se precisasse avaliar cada passo. Mas seus olhos se mexiam muito, pois não deixavam de seguir a irmã, e nas ocasiões em que a perdia de vista, gritava até FAH aproximá-los novamente. Sempre que NA pulava pelo corpo da mãe, seu irmão observava com prazer estampado em seus olhos, mas não fazia o mesmo. Sua natureza era passiva e seria assim para sempre, mesmo quando houvesse embates, e estes seriam menos agressivos e rápidos que o da irmã. Assim era a espécie e assim sempre seria. Ficava satisfeito em sentir as energias que NA produzia, era dela que vinha o que sentia do mundo, era ela que recebia e transmitia para ele.

Todas as espécies nativas desta lua tinham apenas um meio de digestão que se dava por contato direto com o que os circundava. Com exceção dos minerais que precisavam colher das ‘rochas que choram’, como as chamavam, não precisavam de mais nada. Como forma de expelir os excessos do que digeriam, os casais gêmeos se abraçavam na posição em que nasceram e permitiam que os diferenciais se igualassem, que as poucas energias de um fossem preenchidas pelas que estavam em excesso no outro. Assim, todos da raça ficavam em posição de conforto tantas vezes quantas precisassem para se equilibrarem.

BÔ abraçava sua filha mas ela só permanecia quieta quando seu irmão o fazia. Ela sempre achou seu pai muito grande, e se divertia, quando em seu colo, colocando suas mãos no rosto e nos chifres dele. Os olhos de ambos brilhavam tanto que chegavam a soltar faíscas. FAH também abraçava seu filho, mas isso só enquanto bebê, pois as energias eram mais bem distribuídas com a fêmea no centro. O abraço da mãe causava cócegas em ZU e o fazia mexer-se muito, o que era mais estranho ainda para ele que se movimentava lentamente, e causava riso nos pais, que ele entendia muito menos.BÔ também tinha passado por isso na infância.

Na primeira vez que saíram todos juntos da caverna, as crianças já não eram bebês e suas alturas atingiam os joelhos dos seus pais. Estavam curiosos, a pequena andando e mexendo em tudo, o irmão atrás dela surpreso com a grande diversidade de sensações e energias que experimentava. Sentia prazer em ver a felicidade da irmã com o mundo novo que se abria para eles.

Era exatamente assim para os outros gêmeos da espécie. Podia acontecer de a fêmea ser passiva e calma e o macho irrequieto. Muito dificilmente havia partos de mais que gêmeos. Isso gerava muita confusão, pois os irmãos e irmãs seriam extremamente belicosos e brigariam muito entre si, dando muito trabalho para os pais e para a sociedade, tendo que ser separados ainda bem jovens e criados por outras espécies que não tinham filhos na mesma época.

Então houve um período, também longo, onde a infância desse casal de gêmeos era feita de caminhadas de inspeção, idas as rochas que os supriam de minerais e brincadeiras na caverna enquanto BÔ ia ao Conselho. FAH não ia, pois as fêmeas em período de gestação e de criação se afastavam do grupo. Como todas procriavam ao mesmo tempo, não havia um Conselho nessas épocas, para as fêmeas. As idas aos locais das “rochas que choram” era muito agradável para todos os filhotes, pois podiam se olhar, embora não gostassem de se tocar. Não brincavam, apenas ficavam se olhando e observando os pais se alimentarem. Essas rochas eram negras como todas, mas suavam um líquido que cristalizava e assim era consumido por todos os adultos. As crianças apenas mamavam, então, ao acompanhar os pais, apenas observavam.

Alguns filhotes verdes apresentavam pelos em seus ombros. Eram macios e arrepiados. Todo adulto tinha a cor da pele branca, só se podia ver a diferença das raças pelos filhotes. O que se via em comum era que a beleza envolvia a todos. Seu porte e movimentos faziam o quadro todo ser uma agradável visão para os quem os observava sem interferir.Uma outra espécie acompanhava de perto os casais daquela lua Eles eram um povo diferente, cujos seres não eram tão altos e fortes, mas delicados e pequenos. Todos rodeados por um campo de luz branca translúcida. Cuidavam para que os habitantes daquela lua, e de muitas outras, não fossem perturbados em seus momentos de procriação. Apenas observavam, não causavam incômodo, eram uma presença conhecida dos pais e mães e não dos filhotes porque ainda não era o tempo.

Saturday, November 11, 2023

Povos do Facho De Luz e os campos de maturidade

 


Mas o tempo de conhecer o povo do Facho De Luz chegou. Aconteceu quando NA viu, da entrada da caverna, uma forte luz no horizonte. Essa luz emitia um chamado. Não era um som audível mas todos na caverna sentiram a convocação. FAH e BÔ se olharam, esse era um bom sinal, ficaram satisfeitos, porém ansiosos. Para lá se dirigiram, saidos de suas respectivas cavernas, todos os pares do lugar. A família de FAH caminhou longo tempo por entre as montanhas até um planalto abaixo delas. Ali, uma grande lona vermelha, de proporções gigantescas, se estendia, sem sustentação, a dez metros do solo. Embaixo da lona estavam todos os casais com seus respectivos filhos. Todos olhavam para um imenso buraco de onde saia um facho de luz intensa. Muitos estavam ajoelhados, outros em pé, mas todos imóveis e olhando fixamente para a luz. NA enlouquecia de curiosidade, provocando preocupação no irmão que, para acompanhá-la, tinha que se movimentar com uma rapidez da qual não gostava. ZU sentia que precisava proteger sua irmã, pois havia uma energia muito forte vinda através de NA e isso não seria bom para ela, se ficassem ali muito tempo.

Quando ZU viu a irmã se deslocando por entre todos, para chegar perto do facho de luz, procurou, com os olhos, pelos pais. Estes o olharam com muita calma, como se ali estivesse algo bem conhecido deles e importante. Também diziam para ir com ela. Foi o que bastou para se mover como nunca havia se movido – com muita velocidade.

NA estava bem perto do buraco, quando ZU se aproximou dela. Ali ela percebeu que toda aquela experiência era demais para ela e procurou o conforto dos braços de ZU para equilibrar suas energias. Enquanto estavam assim, algo na luz se moveu e um som se fez ouvir pelo planalto. Seres muito luminosos e longilíneos saíram de dentro dela e envolveram, em círculo, os dois, que buscaram, intrigados, os pais com olhar. Eles também ficaram envolvidos pela luz e estavam muito felizes. Seus filhos estavam maduros para outra etapa.

FAH e BÔ conheciam os seres que habitam o Facho de Luz. Eles eram os mensageiros de muitos planetas. A luz era o seu meio de transporte e de todas as raças que eles tinham conhecimento. Eram criaturas muito tranqüilas e tinham bom relacionamento com todos os quais FAH se lembrava. Não entendia direito por que só eles eram responsáveis pelo transporte, mas a movimentação entre planetas e dimensões requeria muita habilidade. Era muito bom que os seres do Facho de Luz o fizessem, confiava muito neles e seus filhos confiariam também. Mas, como muitas mães neste Universo, FAH ainda não sabia que um de seus gêmeos não concordaria totalmente com seu ponto de vista.

Foram transportados para um local do outro lado da mesma lua, aonde as planícies pareciam sem fim. NA observou que crescia ali uma grama avermelhada e, passando as mãos curiosas, sentiu como eram tenras. Viu que havia diversos animais que se alimentavam disso e dos arbustos. Ficou muito intrigada e curiosa para saber onde poderiam estar, pois o céu não tinha a faixa vermelha no horizonte. Era mais escuro, e mais difusa a claridade que o iluminava. Não havia cavernas, então dormiram em uma parte da planície onde os arbustos formavam uma pequena floresta. Passariam a dormir menos horas, seus pais também.

Ali os gêmeos perceberam que haviam filhotes mais velhos, nenhum da sua geração havia vindo junto, nenhum havia sido envolvido pelo facho de luz.Seus desenvolvimentos não estavam completos. Portanto, estavam em um ponto daquela lua onde eram as crias mais jovens, e não chegaram a ver as de sua geração, enquanto lá estiveram.

Isso não foi comum, pois, geralmente, todas as crias amadureciam juntas, o que não pareceu motivo de preocupação para ninguém, mas não era comum. Assim, os gêmeos ZU e NA continuaram crescendo e desenvolvendo suas habilidades sob o cuidado amoroso de seus pais. A exploração do ambiente, naquele lado da lua, ensinou os gêmeos a interagir com os outros seres e com a natureza local. Não haviam as “rochas que choram”, mas parecia não haver mais a necessidade da ingestão dos minerais que elas exudavam. A alimentação deles continuava a acontecer naturalmente, da interação com a atmosfera e os filhotes pela amamentação, seus excessos sendo regulados pela posição de conforto entre os casais. Isso foi assim até que veio a puberdade, a conhecida transição para a idade de maturidade física plena, comum em quase todas as espécies de todos os mundos.

Na espécie a qual pertenciam os filhotes nasciam em tudo iguais aos adultos. Embora da mesma espécie, as raças tinham pequenas diferenças físicas que faziam com que não houvesse relação entre gêmeos de casais diferentes, além disso, era da natureza deles não se interessarem uns pelos outros, apenas pelo seu único gêmeo.

A puberdade dos filhotes chegou com o desagradável aumento do ventre. A certa altura, NA observou que o corpo de ZU começava a se modificar e sentia, ultimamente, uma pressão muito grande no baixo ventre. Eles se olharam por muito tempo, com muita suspresa. FAH, ao perceber o que acontecia, chamou BÔ sentindo muita felicidade. Conversaram em linguagem falada, como não faziam há muito tempo, e foi FAH quem disse:

-- A hora do encontro chegou, meu marido. Nossos filhos se reunirão em breve. BÔ olhou com fascinação para os ventres levemente inchados.

-- Era mesmo tempo FAH, será muito bom vê-los nascer de novo. Você acha que eles estão bem?

-- Sim BÔ, eles estão muito bem, mas precisamos voltar a nos reunir. Eles têm que entender que é natural.

-- Sim, nos reunirmos será certo e belo, minha esposa.

Assim, em um dia qualquer, os pais de todos os gêmeos começaram a se unir em longos abraços, o que não acontecia desde o inicio do período de procriação. Como se uma primavera estivesse no ar, os maridos e esposas se uniam por todos os lados na planície e sua ausência causava surpresa aos filhotes. A relação deles era algo que produzia uma cor no ar que maravilhava os olhos. As crias olharam com curiosidade para as nuvens coloridas por algum tempo e depois perderam completamente o interesse, como a maioria dos filhotes do universo faz. As cenas se repetiam por vezes e vezes, ensinando, pelo exemplo, o que em breve os jovens casais iriam ter de passar.

Esse tempo chegou depois de um lento e sofrido período de crescimento dos ventres até o ponto de estarem tão distendidos que toda colônia parecia estar grávida. Aquilo causava grande constrangimento nos filhotes, que se sentiam feios e fora do contexto como qualquer adolescente no universo. Não sabiam que, enquanto pequenos, absorviam os componentes pelo leite da mãe, e a passagem para a idade adulta faria que passassem a absorvê-los direto do ambiente. Essa transição era o que inchava os ventres, e que desencadeava a passagem para a adolescência. Mas, para quem passava por isso, tudo era uma grande e triste confusão. Os pais se divertiam com o desconforto dos jovens e faziam piadas, que não ajudavam a se sentirem menos abatidos. O ritual de passagem chegava quando os ventres, tão dilatados, provocavam dores físicas que os filhotes nunca tinham sentido. A dor desencadeava substâncias dentro de seus corpos que levavam os agora não mais filhotes a se unirem para além da posição de conforto.

Esse dia chegou quando a química desencadeada impeliu os gêmeos, em desespero, um ao outro, num ritual instintivo de passagem e, assim como em muitos outros, deixaram a natureza de sua espécie agir. As gêmeas possuiam um ferrão interno que perfurava o orgão masculino e provocava a liberação do líquido que havia se acumulado em seus ventres, fazendo-o escorrer. O alívio a que isso seguia fazia com que não parassem de se abraçar. Outros casais de gêmeos, de outras pelagens, também liberavam os líquidos das mesmas cores de suas peles. Dessa forma, a planície se tornou uma grande palheta de cores, e o ar ao redor o reflexo de um imenso arco-íris. O líquido, de caracteristicas gelatinosas, permanecia sem evaporar ou ser absorvido pelo solo e, como era muito volumoso, chegava a envolvê-los como numa banheira. Quem os visse, além da beleza das cores, poderia sentir o alívio que presenciavam, e perceber uma espécie de torpor que os tomava como que tornando-os sonâmbulos. Todos os pais observavam de longe, deixando para seus filhos a privacidade de viver um dos momentos mais importantes de suas vidas, assim como eles já haviam vivido num passado distante.

Os habitantes do Facho De Luz, como sempre, os observavam e, para eles, o ritual de acasalamento era a maturidade dessa espécie que eles seguiam a incontáveis milênios. Os campos de maturação eram, no ápice da época de procriação, um evento ansiosamente esperado, porque havia poucos acontecimentos no universo que envolvessem aquele tipo de beleza. Cada casal produzia, enquanto se unia, um som, uma gama de cores, uma fragrância específica. Os casais de gêmeos, naquela que já era uma das planícies mais famosas do universo, por sua paisagem fabulosa, tornava o evento um espetáculo sensorial que, mesmo para quem estava acostumado a isso, como os guardadores do facho de luz, sentia falta nos séculos que se seguiriam até a próxima temporada de procriação.

Como o ventre desinchava lentamente e o torpor ia se diluindo concomitantemente, foram se abraçando, por meses, parando apenas para dormir, o que acontecia dentro dessa bolsa de gelatina que provia alimento, calor e proteção. Eram muitos filhotes se descobrindo, inclusive o prazer e o seu par. Quando começou a recobrar sua consciência, NA ficou surpresa com o que via em ZU. Nunca havia enxergado tão longe dentro dos olhos dele. Ela não compreendia o que via. Era seu irmão de gestação, seu marido agora, mas tinha algo mais que NA não sabia nem mesmo pronunciar. Sendo muito nova, não sabia que estava amando e acordou para essa nova consciencia com as duas mãos no tórax dele, olhando seus olhos e envolta pelo líquido que os dois derramavam.

Estavam ainda deitados quando ZU pronunciou suas primeiras palavras faladas. Ele lhe perguntou:

-- Eu tenho você dentro de mim? – disse com os olhos brilhando.

-- Sim ZU, você me tem dentro de você. Você enxerga onde você está?

-- Sim NA, eu estou dentro de você.

-- Sim, você está. – finalizou devolvendo o mesmo brilho nos olhos.

Nenhum dos dois sequer percebeu que haviam escutado a voz do outro e a própria, pela primeira vez. Estavam muito absorvidos pela surpresa. Também não perceberam que a cor azul da pele deles ia se transformando, conforme o líquido escorria. Ambos estavam ficando da cor dos pais, marfim, e os cabelos de NA agora mostravam o vermelho da aurora do planeta.

Quando o líquido todo foi absorvido, ZU se ergueu e estendeu a mão para sua, então, esposa. Puderam ver que estavam mais altos, mais desenvolvidos e seus olhares mais vívidos. Agora eram dois belos e genuínos representantes da raça a que pertenciam. NA estava com os seios mais fartos e ZU estava bem mais forte. Ela, por toda a eternidade, não se esqueceria da forma como os olhos grandes e claros de ZU se dirigiram à ela, naquele dia. Era um olhar de pertencimento que só aquela relação poderia trazer para toda a eternidade. Não sabiam que a forma como reagiram ao ritual era sem precedentes para a espécie a qual pertenciam. Entenderiam a profundidade disso mais tarde.

Friday, November 10, 2023

Transporte para o Planeta Mãe

 


Quando os gêmeos, agora unidos em níveis mais profundos, voltaram para seus pais, abraços foram trocados, confortos foram sentidos, e agora ZU envolvia a mãe como um adulto fazia. Não era do tamanho dela, ainda, mas já conseguia abraçá-la. Isso o deixou muito orgulhoso, e não iria mais sentir as desconfortáveis cócegas do passado. BÔ abraçou a filha e disse, numa voz que ela escutava pela primeira vez:

-Você está muito bonita e ZU agora está ai dentro – disse batendo seus dedos no coração dela.

-Eu sou seu pai, tenho orgulho de saber que minha filha está dentro do coração de seu marido.

-Sim, pai, eu estou sim!-respondeu NA com muita emoção.

Quase imediatamente, três representantes do povo do Facho de Luz apareceram. Manifestaram felicitações para FAH e BÔ e disseram que o transporte estava pronto. Percebia-se a satisfação no rosto dos pais. NA não entendeu o porquê. Não gostou quando os pais disseram para irem na frente.

-Iremos em seguida. Vão com eles, vocês estão prontos. – disse FAH.

NA e ZU não sabiam que cada casal de gêmeos era transportado para o planeta aonde as energias fossem mais próximas daquela que haviam produzido durante o acasalamento. Um erro no endereço de destino e poderiam machucar os corpos dos dois jovens, mas os habitantes do Facho de Luz não cometiam erros. Levaram ZU e NA para um planeta gasoso, cuja atmosfera era uma briga de matizes vermelha, amarela e marrom.

O transporte foi feito através de um canal de luz semelhante ao que NA havia visto na planície. Pela proximidade da lua onde nasceram com o planeta mãe, não foi necessário o uso de um veículo de transporte. Em minutos estavam no planeta e nenhum desconforto foi sentido por nenhum dos gêmeos. Como toda adolescente, NA estava excitada, embora constrangida pela ausência dos pais, coisa que nunca havia vivido. ZU, como sempre, observava calado, dirigindo olhares para NA. Se ela estivesse emitindo bons sinais, ele sempre estaria tranquilo.

Chegaram a uma cidade onde estavam sendo aguardados e foram recebidos com muita alegria. Os seres masculinos do local eram em algo parecidos com ZU e as algumas fêmeas tinham a pele mais escura e cabelos negros, mas a maioria era parecida com NA. Mais tarde ela entenderia que eram uma raça só e que as fêmeas transmutavam seus corpos consideravelmente, quando precisavam trabalhar.

Os machos levaram ZU para dentro da cidadela da montanha, e NA foi com as fêmeas para o deserto onde viviam. O planeta, fora sua massiva atmosfera, era um imenso deserto de areia muito fina. As cores do céu eram fantásticas aos olhos de NA, que estava se sentindo desconfortável por não ter ZU ao alcance dos olhos, mas sua curiosidade a levava para onde lhe conduziam. Gostou demais de tudo o que viu. A areia foi algo novo e bom aos seus pés, e o vento, algo que não conhecia, lhe deixou muito admirada, pois seus cabelos voavam e isso era uma experiência que lhe agradava imensamente.

A noite não trouxe felicidade. Não deixaram que visse ZU, nem que dormisse com ele e aquilo foi um choque para ela. Dormiu pelo cansaço que sentia com as novas energias entrando, mas palpava uma grande violência contra seu ser. Sabia que ele não estava sentindo bem, também, mas que obedecia aos mais velhos. Ele estava do jeito que tanto conhecia: avaliando e tomando notas mentais de tudo, assustado com a sua ausência, mas era crescido e não podia gritar por ela como havia feito na infância.

Dentro da montanha, no quarto da cidadela que lhe reservaram, ZU estava mesmo assustado, mas tinha já avaliado a situação e sabia onde NA estava. Dizia para si mesmo que estava tudo certo, mas não conseguia sentir isso. Um dos chefes do conselho, cujo físico era muito semelhante ao dele, disse que não poderiam estar juntos por algum tempo, que era melhor assim e que todos ali sabiam como isso poderia doer, pois também haviam passado por isso. Disse que deveria aguardar com calma, mas essa era uma das palavras para definir ZU, definitivamente não para NA. Ela permaneceu contida, não calma, pois estava curiosa com a novidade das asas que lhe nasciam às costas e que não fazia ideia do que eram, nem que podia tê-las e nem que sabia voar.

Foi naquela noite que as diferenças começaram. NA não havia tido tempo para entender que a sua espécie partilhava de mais de um companheiro, pois não havia visto nenhum casal com outro que não o seu gêmeo na lua onde havia nascido. Ela não sabia que FAH, sendo madura para procriar, havia completado a união com muitos maridos e seu pai, BÔ, com muitas esposas, embora a fidelidade para com seu gêmeo uterino fosse eterna. Para poderem chegar a produzir a gravidez gêmelar característica da espécie a que pertenciam, estava implícito que haviam completado o numero de uniões necessárias para isso. NA não fazia ideia do que seria pedido à ela.

E foi assim que, obedecendo a outros rituais muito antigos, naquela noite as fêmeas mais velhas trouxeram, ou caçaram, NA nunca soube ao certo, machos de espécies diferentes e trouxeram para o acampamento. Eram machos jovens, magros e belos, todos calmos como ZU. Eles foram se aproximando da fogueira. As jovens fêmeas olhavam com interesse, investigando-os como fêmeas geralmente faziam. NA, sentada, olhava com curiosidade, mas não se ergueu. Nenhum deles era forte como seu marido, nem tinha o cheiro dele, nem a cor dele muito menos o jeito de olhar dele. Por isso, contrariando sua natureza investigativa, NA calou, em profundo desgosto, e não se aproximou de nenhum deles, nem emitiu chamado para sequer um.

As fêmeas mais velhas não gostaram de ver que NA não se interessava pelos machos que haviam trazido. Isso não era certo, já que só fêmeas doentes ou em parto não o fariam. Aquilo desagradou IZAH, a mais experiente da tribo,responsável pelas fêmeas recém chegadas, que teria que falar no Conselho sobre uma situação que não acontecia há muito tempo: uma fêmea jovem e saudável não querer escolher um marido.

IZAH tinha a pele mais escura e cabelos fartamente negros e ondulados, era belíssima. Não tinha o gêmeo dela perto nem nenhum de seus maridos. Sua história havia sido diferente do usual e estava no planeta sozinha esperando o retorno de seu gêmeo. Até que isso acontecesse, por estar lá há muito mais tempo que qualquer um ali, era a responsável pelo treino das fêmeas jovens e pelas incursões aos locais onde travavam os combates. Naquele sistema, as fêmeas eram as responsáveis, por natureza da espécie, a manter a emissão dos fortes distúrbios dos campos magnéticos que o centro do planeta emitia, e que era expelido pela mancha, em equilíbrio. As fêmeas absorviam as energias e transformavam-nas em algo que não debilitava o planeta. Da forma como essas emissões saiam pelo canal interior,sem interferência das fêmeas, seria provocado um cataclisma de nível global.

Não era fácil para IZAH, “entre os fortes a mais forte”, fêmea em idade de procriação, estar sem seus maridos. Pela primeira vez em sua existência sentiu raiva ao ver aquela jovem recém-chegada que tinha o gêmeo consigo e teria seu Segundo marido, não deixar o curso natural acontecer. Não era possível que a filha de FAH, muito conhecida sua e de fama renomada, estivesse rejeitando um Segundo Marido. Não era natureza da linhagem de NA e causava outro sentimento desconhecido em IZAH... o da surpresa. Ela presenciava uma jovem sem treino, filha de uma linhagem tão preparada quanto a sua, rejeitar o que para ela fazia tanta falta. Isso era demais. Voou até a cidadela para falar no Conselho.

Na montanha, ZU sentia a energia de NA e foi perguntar aos mais velhos qual poderia ser a razão dela estar sofrendo. Os conselheiros se entreolharam e decidiram que era hora de explicar a situação.

O ambiente do planeta era extremamente hostil principalmente para quem vinha de fora. Isso queria dizer que as energias eram muito pesadas para os jovens que chegavam. Ele e a irmã aguentariam a vibração do planeta por um curto tempo, depois disso começariam a adoecer. Em cada local que vivessem isso se repetiria, e o passo para se adaptar a situações como esta era, no caso da espécie deles, através de NA. Ela havia nascido receptora. A forma como isso se processava era que ela recebesse o que era conhecido como “fator”, uma enzima, que faria com que o corpo de ambos passasse por uma transformação que permitiria à eles absorverem as energias do planeta e estarem aptos a viver ali. Esse fator era passado, geralmente, através de um macho nascido no planeta.

-Ela terá o Segundo Marido já? Tão cedo? – ZU perguntou.

-Sim, é necessário. Ela precisa encontrar o Segundo Marido logo, vocês já estão muito próximos do tempo que recém chegados aguentam por aqui.

-Por que ela está triste?

-Não sabemos, mas parece que há um problema com ela.

-Qual problema?

-Sua irmã não está aceitando os machos locais. - ao falar isso, olhavam entre si com surpresa. Precisamos que isso aconteça rápido, para que vocês não adoeçam.

-Mas ela está sofrendo, algo não está bem. – era o que conseguia explicar.

-Vamos reunir todos e vamos conversar. Você espera nossa decisão.

ZU saiu do Conselho muito abatido. Seus pais não estavam ali para ajudar a entender e sua responsabilidade era proteger NA. Sentou calmamente e esperou. Quando o chamaram estavam reunidos todos do Conselho do planeta.

-ZU?- disse o macho mais velho - Há muito tempo não acontece de uma fêmea não aceitar um macho, seja concubino, ou marido, em sua chegada. Todas as outras jovens já escolheram um Segundo marido, NA não quis tocar os que as treinadoras trouxeram.

-Mas isso não pode ser explicado para ela?

-Sim, você fará, e dirá a ela sobre a necessidade de isso acontecer rápido. Nós escolhemos um jovem macho que tem grande domínio sobre as energias, que produz um excelente fator e será muito bom começo para resolver essa situação.

-Ele protegerá NA?

-Sim, ele tem boas capacidades. Ela está vindo para cá agora, vá e explique a situação.

-Vocês não querem dizer isso pessoalmente?

-Você é o Primeiro marido, você fala com ela. Ela confia em você.

NA veio voando encontrar seu marido. Queria dizer que deveriam estar juntos, que isso era o certo. Encontrou-o na plataforma de entrada da cidadela. Não se cabiam de felicidade, ficaram em posição de conforto por bastante tempo.

-NA? Você precisa de um macho daqui. – falou no ouvido dela.

-Eu tenho você em mim, para que outro?

-NA... você precisa de um macho daqui... será seu Segundo marido.

-Do que você fala? Eu tenho marido. – era, realmente, uma conversa muito estranha para ela.

-Você precisa de outro marido. Nós precisamos que você receba o fator que fará com que possamos continuar aqui. Nossos pais não virão e você não poderá ter filhos enquanto não receber o fator daqui.

-Mas, ZU, isso precisa mesmo acontecer? Eles não deixam você comigo. Por que não?

- Por que se nós ficarmos juntos, sua recepção não fica aberta para o planeta, só para mim. NA, você precisa disto. Eu não vou poder cuidar de nós se não pudermos receber as energias desse lugar.

-Você precisa mesmo disto?

-Nós precisamos disto. Você é a porta, NA! Você sabe que é.

-Sim, mas eu não ... – queria dizer que não havia gostado da aparência dos machos dali, mas calou - tudo bem, ZU.

-Você vai encontrar agora o macho que escolheram para nos ajudar. Não demore, vá agora. Eu estarei dentro de você!

Dali saiu a figura mais deslocada, mais entristecida, mais encolhida, que o planeta havia visto em muito tempo, o que não passou despercebido pela Grande Rainha. Voou até onde encontraria o Segundo marido, não muito longe, no deserto. Ele estava sentado e a viu chegar. NA olhou para o que parecia um macho e não pode acreditar. Era estranho, muito estranho. Bem menor que ZU e magro. Sabia que os machos dali eram menores que as fêmeas, mas no dia que os trouxeram para o acampamento não chegou tão perto deles. Este tinha cabelos, eram lisos e negros, tinha olhos puxados, o que constrangeu NA muito. Seu cheiro não era como o de ZU, não era da mesma cor e não satisfazia o olhar como seu marido fazia. Não podia ser marido seu, não podia. Ele tentou pôr a mão em seu ombro e aquilo a incomodou mais do que quando seu ventre cresceu, não podia ser um marido ...aquilo ... não podia. Não ajudou muito ele tentar acalmá-la, na realidade nada do que fizesse ajudaria. NA estava assombrada demais para entender.

Mesmo a distância, ZU percebeu que algo não ia bem. Estava no Conselho e falou:

-Ela não está bem, algo não está certo. Vocês tem certeza de que esse macho é o Segundo marido?

-Sim, ele é o Segundo marido.

-Ela está vindo para cá e acho que ela não aceitou ele.

Os conselheiros se entreolharam e abaixaram a cabeça. Fazia muito tempo que não tinham uma fêmea que desse esse tipo de trabalho. Decidiram intervir.

-Você poderá ficar com ela está noite, ZU. Há muito tempo atrás, outra gêmea teve problemas quando chegou e estar perto do marido a fez aceitar o Segundo. Sua irmã lhe tem muito forte dentro de si, deve ficar orgulhoso, ela é excelente fêmea.

-Obrigado. Ela está muito forte dentro de mim também.

NA aterrissou na plataforma muito agitada. Voou direto para o conforto no  fortes braços de ZU. Tremia. Levou um tempo para ambos equalizarem seus campos. Ele nunca havia tido trabalho para acalmá-la.

-ZU, o Segundo marido não parece com você, ele tem cabelos. Isso não é bom. Não gosto de olhar ele, e cheira outra coisa, não como você.

-Eu sei, eu vejo. Vem dormir comigo.

-Eu posso? Você vai ficar em conforto comigo?

-Sim, venha ficar em conforto. – sorria aquele doce sorriso peculiar dele.

Dormiram juntos o que realmente foi inconveniente. A regra de separar os gêmeos até a chegada do Segundo marido, ou esposa, era certa, sendo uma questão de sobrevivência. No caso de NA, estar juntos ZU não iria ajudar e pela manhã isso se provou correto. ZU explicou que deveriam tentar deixar o Segundo marido passar o fator.

PI, o Segundo marido, entrou no quarto com apreensão. Iriam tentar mais uma vez, com a presença de ZU, para acalmá-la, o que foi outro erro. Ela até tentou estar calma, observou bem PI, os dois machos se olharam e ZU falou tranquilamente com PI, agradecendo ele estar ali e ter paciência. NA não gostou daquilo. Não conseguiu pensar em deixar outro macho estar com ela. Foi sentindo algo muito ruim, algo que lembrava rocha dura, o toque da rocha fria e dura.

Não houve meios de conseguir deixar ao menos que ele encostasse em sua pele, ela não aceitava.

-NA, ele veio ajudar. Fica quieta! – não era do seu feitio dar ordens.

-ZU, ele não parece você, não gosto de não parecer você, isso é duro, não estou bem! -seu irmão sentia que ela não estava bem mesmo.

Conselheiros haviam lhe avisado da necessidade de segurá-la, se ela não permitisse a aproximação do Segundo marido e foi o que ele fez. Segurou NA pelos pulsos, deitada, e disse para ela se acalmar e deixar acontecer. Um macho dessa raça é um pouco maior que a fêmea mas, como BÔ sabia e seu filho não, as fêmeas eram mais agressivas e nesse momento podiam machucar quem estivesse perto. Vários machos mais velhos carregavam as cicatrizes do ataque de suas fêmeas. NA não estava grávida, mas estava se sentindo ameaçada. Ela tentou se acalmar, pois o toque de ZU naturalmente fazia isso, até que o Segundo marido tentou, novamente, tocá-la. NA empurrou facilmente ZU, soltou-se e feriu PI sem dó.

Foi o que bastou para machos do Conselho aparecerem no quarto e colocarem correntes em NA. Eram mais velhos e conseguiam segurar uma fêmea jovem e assustada. Amarraram-na a cama onde havia dormido com ZU.Disseram para seu gêmeo que não poderia ficar lá, pois ela teria que aceitar o Segundo marido mesmo que para isso tivesse que ser acorrentada.

PI tentou se aproximar mais uma vez fazendo com que aquilo que anteriormente havia apenas irritado NA se transformasse em ofensa odiosa. Porém, naquele exato momento, NA orou. A primeira oração de sua vida, dirigida àquela que era mãe de todos no planeta e ela sabia, por intuição, estar vendo seu sofrimento. Rezou que não deixasse sua vontade ser violada.

O pedido foi ouvido pela grande responsável do planeta, mas a reação que ninguém poderia antever aconteceu quando PI tentou deitar sobre o corpo acorrentado de NA. Em minutos sua pele escureceu e enrijeceu. Uma longa cauda surgiu, seus olhos já não eram claros e suas unhas agora eram garras. Não um mostro, mas sim um ser feito para combate. Sua força quebrou as correntes e estava a ponto de machucar aquele que lhe ofendia quando viu uma águia gigantesca descendo, suas garras a prendendo junto ao solo. Era toda eriçada e vermelha, tão forte que chegava ao rubro. Dali veio o nome pelo qual ela o chamaria para sempre: Pássaro de Fogo.

A imensa ave não só era mais forte que ela, mas seu contato a fez entrar num torpor que lhe manteve imóvel. Essa criatura olhou para o grupo de machos do Conselho. Era maior que todos eles. Dirigiu o olhar para ZU, que estava caído a um canto, olhando tudo com muito espanto , sua pele da cor e textura da irmã e um rabo que apareceu do nada. Esse pássaro falou:

-Estão satisfeitos agora que criaram um pesadelo para si próprios?

-Grande Alado, não sabíamos que isso acabaria desta forma. Nunca presenciamos uma metamorfose, sabemos que existe pelo que os antigos contaram. Isso não se dá a muito tempo.

-Não me interessa o quanto sabem a respeito, mas, agora que aconteceu, esta fêmea deverá ficar presa até que aceite o Segundo Marido. – e falando isso ele próprio colocou NA entorpecida de volta as correntes.

-O processo de aceitação do Segundo Marido tem que se completar , mesmo que a Grande Rainha tenha dado seu fator diretamente a fêmea. Vocês a mantenham longe do gêmeo dela e de alimento até que ela aceite aquele ali. – e apontou o bico para PI, machucado e assustado.

NA ficou sozinha, amarrada por muitos dias, era uma fêmea jovem e forte. A metamorfose a fez mais forte ainda e para enfraquecê-la teriam que esperar. Seu ventre começou a crescer e a dor foi ficando insuportável. Pela primeira vez na vida, chorou. ZU sentiu o choro dela, e seus pais também, o que causou um problema no Conselho. Eram um povo não acostumado a ver um de seus pares em tanto sofrimento e choravam silenciosamente por isso.

Quando NA, com o ventre extremamente dilatado, e um vapor exalando de suas recém nascidas escamas, gritou por ZU, num grito parecido com o da hárpia, de uma tristeza imensa, PI entrou no quarto trazendo uma tigela e panos .O líquido era verde e ele, com muita cautela, tremendo as mãos, passou o pano embebido no líquido pelo imenso e escamoso corpo da jovem fêmea que tanto ódio lhe votava. NA observava, fraca, sentido uma dor profunda e triste como nunca havia estado. Olhou para o Segundo marido agradecendo o alívio que o líquido causava em sua pele. Então ele falou:

-Eu não lhe quis mal algum. – NA apenas virou a cabeça dando um suspiro.

-Também não me deixam ver minha gêmea, enquanto não estiver com você, NA. – ela olhou para ele, que sentia muito em ver tamanha fêmea sendo obrigada a algo que não era de seu agrado.

Dois membros do Conselho entraram, com algum desconforto por toda aquela situação. Nunca haviam visto uma fêmea amarrada daquela forma, nem haviam observado tanta dor. Tudo aquilo daria muitas reuniões de discussão, com certeza. Levantaram-na da cama deixando-a em pé. Verificaram as correntes e saíram.

Assim, a imagem que se via era de uma criatura de grande proporções, cor agora azul escura, cuja pele lembrava a de um lagarto, longos e fartos cabelos escurecidos como sua pele, asas e rabo que jaziam murchos ao encontro da pedra fria, o ventre claramente dilatado, presa a uma parede de rocha clara, as correntes esticando seus braços e pernas para que não conseguisse quebrar os elos, o que não acontecia apenas por causa da fome a que impuseram ela.

PI se aproximou dela, seu ódio não tinha passado, mas a dor e a fraqueza fizeram melhor trabalho que as correntes. Ela não movia um músculo sequer, era jovem demais para nomear ou mensurar o que passava. O único sentimento benéfico foi o ventre desinchar conforme o líquido, não azul e gelatinoso, mas escuro e sanguinolento escorria pelo chão, enquanto PI fazia sua parte. Não houve uso para aquele líquido, era fruto de uma ofensa e não se prestava a nada.

Quanto tudo terminou, ZU e outros membros do Conselho entraram no quarto. PI não conseguiu passar o fator para NA, a intervenção direta da Grande Rainha já o havia feito, e a metarmofose era prova disso, mas a aceitação como Segundo marido havia se completado. NA esperou todos entrarem e pronunciou as únicas palavras de todo aquele drama:

-Nunca haverão crias minhas com este macho.Eu não permitirei.

Tiraram as correntes e NA, sem dar um único olhar para seu gêmeo, conseguiu voar até um ponto do deserto onde ficou sozinha, calada, imóvel, absorvida em sentir as dores da primeira ofensa recebida desde que nascera. Algo que machucava mais ainda por ter acontecido tão perto da grande alegria que tinha sido descobrir o significado da união nos campos de maturidade.

Thursday, November 9, 2023

A Grande Mancha

 


Escavado na montanha onde ZU morava, estava o Salão do Conselho. Tinha uma cúpula imensa, era inteiramente talhado na rocha e no centro um teto abobadado delimitava o ambiente para discussões. Nesse dia, todos os habitantes compareceram, menos NA. Seus pais estavam presentes vindos apressadamente para a reunião. Não era uma situação usual e o assunto seria sua filha, as consequencias do que havia acontecido e o que deveriam fazer frente a isso.

FAH tinha um sentido, como todas as mães, de saber o que seus filhos sentiam e estava furiosa. Todos do Conselho a tratavam com cautela, pois sua ira era famosa. A metamorfose não era vista há muito tempo. Suas consequências eram conhecidas, mas não eram conversadas abertamente. FAH era da geração que havia presenciado a outra metamorfose, mas nunca imaginou que seus filhos viessem a vivê-la.

NA não esteve presente na reunião. Estava no deserto tentando se recuperar do grande sofrimento vivido. O fato de estar sozinha irritou bastante seu pai. ZU não foi ter com ela pois sentiu profundamente a metamorfose e não sabia como reagir ao sentir NA tão transtornada. ZU, afinal de contas, era um macho muito jovem para responder a isso de maneira apropriada. Pássaro de Fogo também estava lá, mas como um enviado. Era apenas representante de uma potestade maior e, se ela não pedisse, não poderia intervir.

O casal deixou claro que queriam seus gêmeos fora dali. Pássaro de fogo, com um olhar pesaroso, lembrou que isso não poderia acontecer, pois a aceitação da Grande Rainha fazia com que os gêmeos tivessem que completar o tempo deles no local. Isso era algo definitivo e claro. FAH e a Regente pertenciam a mesma linhagem. FAH, mesmo contrariada, sabia que era o único caminho para seus filhos. Porém, ela conseguiu um acordo: ninguém mais interferiria no desenvolvimento e aprendizado de ZU e NA que não a geração da Grande Rainha e de FAH, todos de gerações abaixo nunca mais poderiam interferir.

Embora ZU estivesse presente, não pode compreender o que isso significava, mas essa decisão incomum foi o gatilho de inumeras reações nas vidas dele e de sua irmã pela eternidade. Assim, o Conselho se desfez e todos voltaram para seus assuntos, com uma sensação única de estranhamento e novidade.

FAH saiu sozinha da montanha. Angustiada com a vibração que sentia, voou a procura da filha que sofria. Achou-a sentada na areia, as asas caídas, costas para a Cidadela, como sinal de rejeição, seu jovem corpo ainda retornando da metamorfose. As garras e cauda estavam lá e viu sua filha massageando a pele na tentativa de esconder o ocorrido. “Então é assim que uma de nós fica com a metamorfose” – pensou. Achou que ela estava linda. Era uma pena que sua filha estivesse sem poder ver a beleza que havia conquistado, e conseguia antever como seria bela quando em sua forma de combate. Sentia orgulho de que sua linhagem passasse a incluir uma fêmea assim, mas, naquele momento, era apenas sua cria machucada e envergonhada de ser vista nessas condições.

Era o que NA sentia, vergonha. Quando pousou na areia, pode ver o que havia acontecido com seu corpo apalpando-o. O vento não tocava sua pele e seu cabelo como quando chegou no planeta. A cauda era algo que não conhecia, movia-se com brutalidade, as garras lhe pareceriam ótimas em qualquer outra ocasião, mas o líquido negro que lhe escorria pelas pernas a lembrava do que havia provocado aquilo e não a deixava perceber a metamorfose como algo bem vindo. Viu com alívio a escuridão da noite, mas, então, vieram as lágrimas que não sabia poder existir e percebeu que essa novidade não seria presenciada por quem amava tanto. Seu gêmeo não estaria ali para lhe dar conforto. Levantou-se em pavor, girava para os lados tentando entender a solidão, as lágrimas, o peso da cauda, a pele com escamas. Não conseguia pensar sem a posição de conforto, sem sentir os excessos de energia fluindo para seu gêmeo, sem as mãos dele ao redor de sua cintura. Tentou levantar vôo, mas, para sua maior surpresa, não conseguiu e não sabia que era devido a falta do gêmeo e do choro a enfraquecerem. A dor veio em seguida. Sem processar os excessos, seu corpo doía, e, embora o ventre continuasse a desinchar conforme o líquido corria, sentia outras dores. Exausta, dormiu, mas as lágrimas e o líquido continuaram correndo.

Na manhã seguinte, quando NA sentiu a aproximação de sua mãe, não se animou, pelo contrário, entendeu sua condição era a pior de toda sua vida e teve vergonha. Todas as fêmeas eram muito orgulhosas de sua linda postura, e isso era algo que não tinha naquele momento. Não poderia fugir, seria uma ofensa inimaginável. Não sabia como explicar o que tinha acontecido, nem a ausência de seu irmão. A vontade de ser aninhada nos braços de sua mãe superou a vergonha e NA, com as lágrimas correndo silenciosamente, olhou para ela em pé a sua frente

FAH ajoelhou e abraçou sua filha, ainda era um pouco maior que ela e a envolveu como quando pequena. Pode absorver seus excessos para transmiti-los ao seu pai, mais tarde. A metamorfose cedeu, suas asas se ergueram um pouco. Em minutos ela respirava melhor, mas mãe e filha ficaram nessa posição por horas. FAH entendeu o quanto NA estava machucada pelo tempo que levou para equilibra-la, e esperou o necessario para que ela começasse a falar, e NA disse:

-Mãe, por que? Fiz algo errado?

-Não querida, mas lamentamos que tenha tido sua primeira interação negativa tão cedo, tão jovem, como somente outra fêmea, há muito tempo atrás, viveu.

-No que me transformei?

-Essa foi a forma do seu sistema absorver a essência do planeta. O fator de seu Segundo marido foi o catalisador para o que a Grande Rainha enviou diretamente para você. Não havia como predizer esse acontecimento. NA calou-se nos braços da mãe. Podia entender o que ela falava.

Vendo a filha em melhor condição, FAH pegou-a pelos ombros, ergueu seu rosto e falou olhando à fundo seus olhos:

-Você iria passar, cedo ou tarde, por uma interação negativa com algum macho, em combate ou não. Mas existe um motivo para que isso tenha acontecido da forma como aconteceu. É necessario que eu lhe explique algo, mesmo que você não esteja preparada para entender. Nada até aqui está errado, nem sua metamorfose é indevida, mas preste bem atenção ao que vou dizer, sim? NA balançou a cabeça afirmativamente.

-Houve um incidente na gravidez de vocês. Nos primeiros meses de gestação fui até as pedras sozinha, pois a necessidade de doses maiores para vocês no útero me fazia ir mais vezes beber da água das rochas. Seu pai ficou na montanha. Antes de chegar lá, encontrei um macho novo e sozinho. Ele era de uma espécie diferente da nossa, que tem causado problemas em todos locais para onde foram transportados. A gêmea dele estava por perto, pude sentir, mas ele se comportava como se precisasse de esposa. Sua pele era azul, tinha cabelos e eram negros. Não era agradável como seu pai. – parou para observar se ela estava entendendo e continuou:

-Entramos em combate, eu estava com meu bastão, mas soube que, mesmo sendo fácil vencê-lo, a energia de vocês estava diminuindo muito rápido e eu os perderia. Um aborto faria seu pai ter de se afastar de mim por um longo tempo e entendi que vencer aquele combate me traria perdas que não queria viver.

-Eu amava tanto seu pai e vocês! Vivemos tanto para poder tê-los que outra gravidez levaria uma eternidade para nós. Estavamos prontos para vocês, não poderia nos magoar as custas de apenas um combate, filha. Fiz a escolha de ficar com quem amava e entreguei a luta.- os olhos de NA estavam arregalados, não compreendia porque ela dizia tudo aquilo.

-Mas, mãe, o que tem isso a ver comigo e ZU? O que esse macho lhe fez?

-Foi uma interação negativa, filha. Essa espécie nova não está desautorizada a interagir com nossas fêmeas e isso passou para vocês no útero. Não havia como impedir a contaminação.

-O que isso fez em nós?

-Vocês tem mutações por causa dessa contaminação. Sua cor azul quando nova e quando nervosa, por exemplo. A precocidade de vocês também. A espécie a que esse macho pertence evolui bem mais rápido que a nossa.- NA se alterou:

-O que meu pai pensou disso? Ele combateu esse macho? Ele ficou triste? Porque eu não vi tristeza em papai? FAH abraçou a filha.

-Você sabe que BÔ não precisa combater por mim. Aquele macho saiu machucado o suficiente. Não seria próprio combater alguem tão ferido. Assegurei que ele não fizesse isso com nenhuma outra fêmea, que não a gêmea dele, por bastante tempo. Era o mínimo que podia fazer por nossa espécie.- fez outra pausa e continuou:

-Seu pai ama vocês demais e eu o orgulhei por ter escolhido a nós. Ele me amou mais por isso. Estamos mais fortes agora e temos vocês!

FAH ainda conversou algum tempo com a filha. Por fim, NA perguntou:

-O que faço agora? Para que vim aqui?

-Para treinar filha, para desenvolver aquilo que nascemos para fazer. Você tem medo?

NA se ergueu e disse:

-Não mãe, eu quero isso.

-Então vá, estarei lhe vendo de perto. Obedeça IZAH, você terá muito prazer nisso.

Separaram-se, FAH voou para a Cidadela e junto com BÔ foi transportada de volta para a lua. NA se dirigiu para o acampamento.

A interação negativa causou uma diferença na energia de NA que levaria tempo para se dissolver e esse desequilíbrio a fez não ser desejável para ZU. Quando percebeu a rejeição de seu irmão mesmo estando a distância, NA voou para o acampamento no deserto, sabendo que enquanto estivesse daquela forma não adiantaria ir até seu marido. Isso a magoou sobremaneira, mas nunca seria de sua natureza ficar quieta quando em desequilíbrio. Chegou ao acampamento e se deu por inteira ao treinamento para o qual havia vindo ao planeta mãe. Respeitaram seu silêncio e afastamento.

Não dormiu junto com as outras jovens fêmeas. Acordou na manhã seguinte e sentiu que IZAH vinha ao seu encontro. Desde a metamorfose, sua capacidade de antecipar movimentos havia se acentuado. Era mais uma surpresa no meio de tantas e nada amenizava a falta que ZU fazia.

IZAH se dirigiu para o local que NA escolheu para dormir com sentimentos contraditórios, algo raro nela. Nada em IZAH, nem em nenhuma daquelas fêmeas, poderia ser definido assim. Agora sentia uma empatia muito grande pela filha de FAH, mas também sentia ira ao vê-la passar por uma interação negativa tão nova. Acorrentada? Certamente uma afronta. Antes se irritou com ela, mas agora seria sua única treinadora, fez questão disso e seu pedido havia sido aceito pela Grande Rainha. Se era uma metamorfose de combate, então faria dela a melhor de todas as jovens fêmeas. Era filha de FAH e só isso já era bastante para ser excelente.

Encontrou NA de pé aguardando um tanto assustada. Ela percebia que IZAH não estava de bom humor.

-Se eu souber que isso lhe aconteceu de novo, eu mesma a punirei! Você tem obrigação de se defender! Venha comigo e obedeça! - não retrucou, mas pensou em como queria seu gêmeo ali.

Num local perto do acampamento, IZAH começou pelo vôo. NA tinha que fazer os mesmos movimentos que ela. Voavam até o limite da atmosfera e desciam em mergulho para abrir as asas no momento correto. Também foi treinada para se algo desse errado, como pousar com o mínimo de ferimentos aprendendo a rolar na areia. Nunca teve dificuldades em pousar, até que os treinos passaram para pequenos vórtices de vento. Tinha de voar contra, com a areia cobrindo seu corpo. Subir era penoso e descer dolorido. Não reclamou uma vez, bastava pensar que ZU deveria estar ali e toda dor parecia tola.

Dos vôos em vórtices de vento foram para os de calor. Ali não se enxergava o movimento do ar e somente a sensação na pele dava a direção a seguir. Era bem fácil, mas a lição era mudar a direção das ondas de calor com a posição das asas. NA viu a metamorfose fazer diferença. Não sabia quando vinha, mas era automático. Ao menor sinal de perigo ela acontecia fazendo com que NA detectasse algo pelo simples fato de sua estrutura mudar. Parecia que lidar com ventos era mais seguro que com altas temperaturas.

Após um curto tempo, IZAH foi até o Conselho e comunicou aos presentes que NA iria para sua primeira incursão a Grande Mancha. Um dos conselheiros falou:

-Mas isso seria perigoso, ela não pode estar pronta tão cedo.

-Ela não teve medo da altura que a levei, não teve um pouso falho, sabe se jogar em queda, controlou as temperaturas sem problemas. As escamas a protegem da areia. Não há nada mais a ensinar, só a experiencia o fará. Estaremos em três treinadoras e iremos fora de zonas de desequilibrios até que ela esteja pronta.- mesmo assim o conselheiro retrucou:

-Acho que você esta confiando demais por ela ser metamorfoseada. O acontecido foi uma fatalidade, isso não a torna melhor. - IZAH não estava gostando muito da conversa toda e ele estava dando a oportunidade de falar o que pensava. Embora não mudasse de aparência, a cor de todas as fêmeas mudava quando irritadas.

-Claro que o fato de a filha de FAH ter sido acorrentada para que um macho pudesse cumprir seu papel foi uma fatalidade. Mais ainda por não ter podido aprender antes o que era uma boa interação com outros e a forma como ela reagiu até agora, preservando a integridade física do Primeiro e Segundo maridos, mostra que ela tem mais do que preparo, ela tem consciência que está além da instintiva. Ela vai para a Grande Mancha e mais, que ela tenha sua hora de postura o mais breve possivel, para que nós não tenhamos que fazer por ela.- IZAH causou comoção no conselho:

-Você vai pedir o direito a postura em nome dela?

-Sim, nós iremos e vocês terão que dividir a energia. Aconselho aos irmãos que rezem para que ela se poste antes de nós.

Os machos do Conselho olharam com desconforto uns aos outros enquanto as treinadoras saiam. Conversaram entre si o quanto o direito a postura era correto. ZU esteve presente, já que o assunto era sua irmã. Foi explicado que era direito da fêmea se recuperar do que a havia ofendido em combate posterior. Se NA não exigisse o direito, todas as fêmeas estavam planejando fazer em nome dela e seus gêmeos e concubinos teriam de aceitar o combate. A situação que a novata havia provocado não tinha como ficar pior. Rezar começou a parecer uma boa idéia.

Ao anoitecer, voaram com NA até a Grande Mancha. Pássaro de Fogo estava presente por ordem da Rainha. NA o via pela primeira vez depois do incidente e ficou nervosa.

-Porque ele está aqui?

-Aonde vamos é território da Rainha e é para sua proteção.

-Eu não fiz nada errado!

-E não fará, ele é apenas uma testemunha do seu progresso. – aquilo não a convenceu, pois ainda sentia muito forte todas as emoções que havia passado, mas esqueceu instantaneamente, quando pode ver o tamanho da mancha no horizonte que emitia um som compacto. Ali NA renasceu. Sua curiosidade a transformou de imediato, acelerou a velocidade de vôo, mas foi detida por IZAH.

-Cuidado, preste atenção ao campo magnético! Pousaremos antes dele.

Então percebeu uma tênue luz, um escudo que parecia limitar a mancha, mas contraia-se e expandia-se conforme a mancha o fazia. NA não conseguia se conter e isso era sentido por seu gêmeo que a essa altura não passava bem, pois NA estava em perigo real. A mancha era um espetáculo para os sentidos. Só pode compreender sua vastidão quando estavam voando alto e a muitos kilometros de distância. O som era potente mas não desagradável. Quando pousaram e pode vê-la de perto, parecia-se com uma parede que mudava de cor, nos mesmos tons terra, vermelho e ocre do planeta. Foi trazida de noite para que pudesse enxergar o escudo que envolvia a mancha. A luz, produzida em ondas, era fosforecente azul, como uma membrana fina e viva. Perguntou se podia tocar.

-Sim, mas com cuidado, não sabemos sua reação a ela.

Tocou-a delicadamente. Era líquida, mas oferecia resistência. Sentia eletricidade correndo em seu corpo e aquilo a excitou muito. IZAH percebeu que poderia se metamorfosear e queria que isso acontecesse dentro da mancha. Olhou para Pássaro de Fogo que afirmou com a cabeça. Avisou NA:

-Precisamos achar um ponto fraco e entrar. Siga nossos passos. Lá dentro faremos as mesmas manobras que você treinou antes e saímos, nada mais.

-Tudo bem. – seguiu as treinadoras que já haviam começado a escalada. Sim, o campo magnético era resistente o suficiente, embora fino como uma folha, para que se escalasse. A metarmofose já se iniciava, mas NA não sentia perigo, somente prazer. Sentia que era feita para aquilo. Pensou em como era bom experimentar algo diferente do que dor e saudade.

Em dado ponto, uma das treinadoras sumiu da vista e IZAH se dirigiu para lá. Quando chegou sua vez, percebeu que havia uma falha no campo que era suficiente para passarem uma por vez e, ao cair lá dentro, se atrapalhou no vôo, pois era algo que jamais imaginara. Havia um olho no centro, onde os ventos não sopravam e tudo ao redor era areia e calor. As luzes brilhavam, vez por outra, perto do campo. No olho da mancha havia uma passagem que conectava a atmosfera a um túnel imenso na formação rochosa. Quanto mais perto do fundo, mais escuro, quanto mais alto, mais claros os padrões de cor. Era noite e só se enxergava com a luz fosforecente produzida pelo campo. Não entendeu o que produzia aqueles fenômenos,mas estava excitada demais para querer entender. Seus sentidos lhe guiavam atrás de IZAH e fez todos os movimentos que ela fazia. Nada lhe parecia difícil, pelo contrário. Se havia nascido para algo, era aquilo.

Voando ao redor do olho da mancha, IZAH fez o sinal para mergulharem. Perto da entrada da passagem na rocha ela desviou e subiu novamente. Fizeram isso várias vezes mas quando IZAH achou que o treino estava indo bem, NA não desviou da passagem. Continuou mergulhando, seus sentidos lhe guiavam, era como nascer, era como descobrir os campos de maturidade, era como o amor que sentia por seu gêmeo.

Desceu fundo, suas escamas escureceram e a armadura se fechou nas asas. Continuaria até o fim, se não fosse por aquelas garras e um forte empuxo para cima. Tentou ver as plumas de fogo dele e o que encontrou foi um ser negro, seu couro brilhando e nada feliz. Era imenso, mas agora parecia com um macho. Grudou-a na parede e olhou com olhos vermelhos e dentes afiados.

-Gosta de ser presa por garras? Porque parece que sim. Tem idéia do perigo aqui?

-Pensei que pudesse ir até o fundo. Parece tão bom. Fiz algo errado? – ele olhou para o fim da passagem e falou:

-Sim, minha Senhora, será feito. – voltou o rosto para ela e disse- Você está considerada pronta para a Grande Rainha. Fico satisfeito porque não sou sua babá, mas estarei olhando para o caso de você cometer outra imprudência. Siga-me. – voltaram para a superficie e, no caminho, os dois se transformaram. NA ficou curiosa em saber porque ele também podia se metamorfosear. Ele também podia ler a mente dela:

-A minha espécie nasce assim, você ganhou isso por outras razões. –falou secamente.

IZAH estava voando ao redor da entrada e observou cautelosamente os dois. Pássaro de Fogo deu a mensagem da Rainha. Não questionou, era de se esperar. Voltaram para o acampamento e foram relatar isso para o Conselho. NA foi se deitar. Sentia-se viva, alerta, feliz, mas percebeu que seu ventre começava a inchar e isso a lembrava do que precisava ser feito. Era hora de exigir o direito a postura.