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Pesquisadora na area da mediunidade? Sim, mas mãe de criança pequena, produtora rural, portanto sem tempo, exausta. Não dá para ter comentarios, edições, produção de video, formatação, etc. email psychictaboo@gmail.com

Wednesday, November 8, 2023

O direito a postura



 Quem poderia ter previsto o que a situação iria provocar não estava mais naquele planeta. Como todos daquela raça, NA precisava do marido para digerir as substâncias do ambiente, e, como ZU não conseguia evitar não querer estar com ela, NA se viu obrigada a procurar somente seu Segundo Marido, algo que a ofendia muito, mas que sabia não poder mudar.

A combinação do ódio mais a natureza de sua espécie acentuou o instinto de caça violenta e precocemente. Durante o treino, dera mostras de que seria caçadora e essa certeza apareceu quando ela demonstrou que iria, sim, exigir sua postura de volta. NA só suportou a ideia de procurar PI quando a dor a impediu de treinar, e fez isso caçando-o de forma impiedosa. IZAH havia lhe dado um arco, mas não explicou o uso dele. Não foi necessário, pois NA levantou naquela manhã e soube exatamente como faria.

Estavam conectados agora, então localizou-o facilmente e PI soube, assim que a viu no céu, que iria exercer seu direito à postura. Sabia que não adiantava combatê-la e correu. Poderia estar seguro perto dos machos. NA, voando atrás dele, disparou flechas sem dó, disparos esses que chegavam a ferir superficialmente o pobre coitado, que corria apavorado, sem o recurso do vôo que NA possuia. Ninguém interferia pelo acordo que havia sido feito no Conselho. Por todo o planeta as fêmeas sentiram o chamado. Era o direito a postura sendo usado. Em minutos o céu se encheu de criaturas aladas que se mantiveram a distância suficiente para presenciar o ato, sem interferir. Elas compartilhavam o sentimento de NA, e os machos o pavor de PI.

Quando seu ódio cedeu um tanto, mergulhou e imobilizou PI no chão, com seu imenso corpo. Ele não se defendeu, nem nessa nem em nenhuma das vezes que ela o procurou. Esperou ela drenar sua energia e se levantou.

NA não sabia, mas PI era um botânico e médico. Seu trabalho fazia com que tivesse desenvolvido muita paciência para lidar com ela, que era, embora agressiva, excelente espécime, cuja essência podia estudar cada vez que eles trocavam fatores. Apesar do pavor que sentia quando a via voando atrás de si, reconhecia a dor dela e sentia por isso. Era a única fêmea que produzia o fator duplo, por causa da metamorfose e ele achava muita sorte em poder ser o único a estuda-lá de perto pelos laços de relacionamento, laços esses que seriam eternos. Enquanto ZU evitou NA, esses eventos aconteceram frequentemente deserto afora.

Mesmo assim, NA sofria com a separação de seu gêmeo. Dormia do lado de fora da montanha onde estava a Cidadela, no ponto mais próximo do quarto que ZU dormia e que ela conseguia identificar com facilidade, escutando os batimentos do coração dele. Uma formação rochosa em círculo era o que considerava seu dormitório. Deixava o arco ao lado e dormia sem medo mas com dor.

Certa manhã estava preparando faixas para os punhos com outras fêmeas jovens quando sentiu perigo. Não conseguia identificar o que era, mas a intensa movimentação no acampamento e a mudança nos ventos mostrava que era algo grande. IZAH veio a seu encontro:

-Agora você verá para o que nasceu. Seja fiel a sua natureza, siga todos os seus instintos, e não falhe!- disse isso em altos brados, segurando os braços de NA, pois o vento fazia um barulho ensurdecedor.

Naquele momento, o planeta inteiro presenciava a primeira contenção de energias que NA iria participar. Alçou vôo completamente metamorfoseada, imensa. Suas asas escamosas brilhando conforme os raios da tempestade elétrica clareavam o céu. ZU a viu passar em direção a Grande Mancha com muita angustia. Estava metamorfoseado mas não podia segui-la. Ela não o notou, não obtendo um olhar dela, mesmo sentindo seus corações batendo na mesma frequencia.

A Mancha parecia viva, a velocidade era a mesma, mas as cores explodiam com fúria. Pequenos vultos escuros voavam como que dançando. Fora da Mancha, a atmosfera parecia acordar acompanhando um chamado. Se o alto grau de perigo fosse desconsiderado, a imagem era um espetaculo de grandiosidade imensurável.

Chegando perto da Grande Mancha não pousou no chão. Lançou-se ao campo magnético, que não estava visível por ser dia, e o escalou achando uma brecha de entrada. Ao cair lá dentro entendeu o porquê do treino em vórtices de calor. Não precisou pedir explicações. Soube imediatamente que criaturas escapavam pela passagem do olho da Mancha e tentavam expandir o campo magnetico.

NA escutou uma ordem dentro de si. As criaturas não tinham autorização e deveriam ser contidas. Enquanto subia até o ponto mais alto da Mancha, via em sua mente as consequencias daquele evento. O planeta entraria em colapso energético e a reação em cadeia causaria explosões que não teriam retorno pois abalariam o eixo e as cargas eletricas do centro. Era o equilibrio da natureza inteira que estava em jogo ali. E ela viu que a essência de sua linhagem era o contraposto de todo aquele desequilibrio. As fêmeas eram portadoras do que fazia o planeta se equilibrar. Não viu mais imagens, entregou-se a sua natureza e mergulhou no vortice.

Voando contra os ventos, suas asas na capacidade máxima, com sua vontade interna irradiando ordens de contenção, as criaturas escuras retornavam, mergulhando pelo olho. Aqueles que resistiam eram pegos por flechas que disparava a favor do vento, girando seu corpo ao encolher as asas. Todas as fêmeas faziam o mesmo, mas as criaturas continuavam a sair pela passagem. IZAH acelerou a velocidade contra, e NA entendeu que era necessário reduzir a força dos ventos para contê-los. Parou de atirar e colocou mais força no vôo. Sua cauda mantinha sua direção com precisão e sentia sua pele em fogo.

Nesse momento, todos os machos do planeta se aproximaram da Mancha permanecendo do lado de fora do campo. ZU também foi e, embora não a visse, sentia sua pele queimar. Foi avisado de que deveria deixar as energias fluirem e permanecesse ali, não importando o que acontecesse. Sentiu um grande empuxo e viu sua energia ser drenada para dentro do vortice. NA sentiu um forte alívio e pode voar mais rapido ainda. Sem pensar, mergulhou em alta velocidade atravez do olho, onde os ventos não sopravam. Sentiu a passagem pelas rochas mas tinha olhos para o fundo. Viu uma leva daquelas criaturas e sentiu amor. Sentiu –o com muita força e estacou abrindo as asas batendo-as em cadência lenta e forte. Ergueu os braços e deixou que a energia que sentiu no alto se soltasse. As criaturas pararam imediatamente. Pareciam se acalmar e recolher, como se houvessem obtido o que haviam saido para buscar. NA exauriu e teria caído se não fosse outra criatura escura porém gigantesca, vinda do fundo da passagem,a agarrar e voar rapidamente para fora da Mancha.

Só conseguiu pensar em se Pássaro de Fogo faria desses salvamentos uma regra. Queria perguntar se havia feito algo errado, mas não conseguia mover os lábios. Não entendeu como ele saiu da Mancha, mas estava aos pés de vários machos e viu ZU. Estava apavorado.

-Ela os conteve, mas há aqui um problema, a distância entre ela e o gêmeo não sustentou a energia de contenção e ela não pode se manter. E você, apontou para ZU, não faz idéia do que fazer não e mesmo? Ponha sua mão no coração dela, agora!

ZU estava chocado com sua irmã aos pés, sem vida, mesmo com os olhos abertos. Acordou com a ordem e colocou sua mão no peito de NA. Imediatamente ela inspirou rapidamente e se moveu. Olhou ao redor, piscou diversas vezes olhando para ZU. Não falou, virou-se, ergueu-se e voou para a Mancha. Pássaro de Fogo olhou para ZU e disse, antes de voar:

-Você esta em sérios apuros, menino - os outros machos olharam com pena para ZU e sairam. Ele ficou estático, sem conseguir entender o que havia acontecido.

Ao entardecer, os ventos acalmaram. NA continuava a voar e observava as irmãs. Estavam cansadas mas havia felicidade em todas e uma dança foi feita para homenagear o combate que venceram. Todas as fêmeas voavam em igual cadência, para o alto, gritando seus cantos específicos, antes de mergulhar. Isso, as cores do vórtice, e o sol se pondo era outro daqueles espetáculos magníficos. “O que podia ser melhor do que aquilo?” - NA pensou. A sensação era de pertencimento, de alinhamento com tudo para o que sabia ser certo e belo. Sentia seus pais muito felizes e sentia também o agradecimento daquela a quem ainda não havia encontrado pessoalmente: a Grande Rainha.

Voltou mais algumas vezes à Mancha para conter os eventuais desequilíbrios, mas nenhuma vez foi tão intenso como aquela primeira e não desceu até o fundo da passagem, pois não houve necessidade. Ocupada pelo trabalho no vórtice, os treinos, as perseguições a seu Segundo marido, NA havia digerido a energia de PI e sua cor agora era a mesma do planeta mãe, uma mistura de ocre, laranja e vermelho terroso. Havia crescido e amadurecido belamente. Continuava dormindo todas as noites ao pé da montanha e, naquela noite, voou até lá, sem prever que ZU estaria esperando por ela. Ele sempre soube onde ela dormia, e era de se esperar, pois estavam conectados nessa profundidade desde o nascimento. Sentiu-a próxima todo esse tempo, mas não foi procurá-la. Viu-a sair para o vórtice várias vezes, mas de longe. Escutou seu choro diversas noites e esteve só o tempo todo. Para ele não foi escolhida uma Segunda Esposa, não havia necessidade naquele momento, teve uma ou outra concubina, escolhidas pelos machos mais velhos, mas sempre dormiu só.

ZU não mudaria sua natureza nunca, sempre fora cauteloso e calmo, detestando mover-se com rapidez e sempre tendo dentro de si a prioridade de defender NA. O afastamento que tiveram o chocou muito. Não conseguia compreender o fato de não desejá-la, nem nada que estava se desenrolando desde o dia que a colocou em correntes. Não sabia como proteger NA de tudo aquilo que estavam passando. Sempre seria parte de sua natureza levar mais tempo para processar informações externas. Viu o tratamento que NA dava a PI, mas não podia interferir, não conseguia nem chegar perto dele para conversar, pois estava digerindo aquela mesma energia que o fazia se afastar de sua esposa amada. Assistiu a tudo que se passou com assombro. Dedicou-se ao estudo da medicina e, como parte de sua natureza, bem ao contrário da irmã, obedeceu aos mais velhos porque sentia ser certo agir assim. Ele também se desenvolveu fisicamente com os treinos e mudou sua cor junto com NA. Foi assim que soube que ela já não exalava o desequilíbrio e que iria vê-la quando ela voltasse para o local onde dormia.

Quando ela pousou, ele saiu da sombra que o escondia e tentou abraçá-la, mas NA havia vivido a ausência dele por tanto tempo, o cheiro de ambos havia mudado tanto, que estranhou o próprio irmão e reagiu, inteiramente arrepiada, jogando-o de encontro a rocha. Irritado, tentou segurá-la novamente e foi arranhado por suas garras. Houve combate nas sombras daquela noite, ZU gritando que era ele, mas seus movimentos sempre seriam mais lentos. Quando ambos mudaram a cor para o familiar azul, NA, espantada, olhou a fundo, e viu que ela estava dentro desses olhos que a encaravam arregalados. Só havia uma pessoa no planeta que a tinha dentro de si e abraçou o corpo mais forte e inteiramente azul de seu irmão. Ele a viu chorar pela primeira vez e não soube o que fazer. Deixou-a abraçada a si até que ela dormiu como se houvesse chegado ao lar que estava longe há muito tempo.

Deste dia em diante puderam estar juntos novamente. Um acordo mútuo e instantâneo se fez sentir entre os dois: eles eram a prioridade de suas vidas. Passaram por uma longa e intensa lua-de-mel e aprenderam que sempre voltariam um para o outro, não importando o que lhes acontecesse. ZU sentiu a diferença de NA depois de um Segundo marido e não foi desagradável. Sua irmã percebeu a presença de outras pequenas fêmeas em sua energia, e achou que estava muito bom ver ZU mais forte do que antes.

Voltaram a viver grudados como na infância, com a distância máxima de trinta metros um do outro. Por vezes, quando o distúrbio no vórtice era muito grande, NA e as fêmeas com treino suficiente saiam sem os machos, para que eles não fossem feridos. Em outras vezes,somente os gêmeos desciam até o núcleo, metamorfoseados, e faziam contato pacífico com os seres de lá, trazendo notícias na volta e aproveitando as energias da tempestade para se unirem em vôo, produzindo um fator diverso do que havia na região. Era seu portador eterno e ter escamas só fazia diferença no tipo de energias que eram digeridas, mas não na profundidade do que sentiam.

A metamorfose da qual eram capazes deixou-os fisicamente aptos a poder entrar pelo vórtice do planeta e fazer contato com as espécies que habitavam abaixo, bem mais próximo do núcleo do planeta. NA e ZU foram emissários entre os dois povos, além de NA continuar fazendo parte do grupo que saia durante os desequilíbrios na Grande Mancha.

Muito tempo após chegarem ao planeta, os gêmeos escutaram um chamado vindo do núcleo e não era de aviso de tempestade. Ambos sabiam que isso significava vir direto da Rainha e se dirigiram para lá. Ao chegar, em uma caverna de proporções gigantescas, com um imenso rio de lava que corria a direita, estava um imenso trono de pedra, com uma figura que era dez vezes maior que os gêmeos e imanava muita força. Ela se parecia muito com FAH, mas bem maior e algo mais velha. Por trás do trono ouvia-se ruídos assustadores de criaturas que os gêmeos nunca chegaram conhecer à fundo e que nunca saiam dali. O tamanho do reino que havia atrás do portal do trono nunca foi totalmente compreendido por eles. A Rainha os chamou como uma mãe o faria:

-Filhos, venham cá. Eu lhes chamei aqui pois é chegado o tempo de vocês procriarem. Para que isso possa acontecer, escolhi um macho de minha linhagem que está se mostrando merecedor de uma fêmea como você, NA. É um presente que lhe faço e sei que irá lhe agradar muito. Este será seu primeiro concubino. – enquanto ela falava, um ser de escamas negras veio voando de onde vinham os ruídos e pousou perto do trono. Não tirava os olhos de NA.

Ao contrário do Segundo Marido, este macho não causou nojo em NA. A Rainha sabia o que agradaria a filha de FAH, aquela para quem havia dado diretamente seu fator. Sendo o jovem macho seu filho direto, faria muito bem a pequena NA.

NA olhou para ZU, que, como sempre, estava acessando tudo lentamente, porém, estava tranquilo e isso era o que NA precisava para estar bem também. Era um macho mais magro que ZU, mas NA se encantou com suas escamas, asas muito negras e olhos vermelho-rubros. Algo na energia dele a fascinou: sentiu que ele não sabia o que era ter uma esposa para si. Entendeu que ele não nascera gêmeo, mas sozinho, mostrando que suas espécies eram distantes. Mesmo assim, seu cheiro e sua energia fresca causaram muito agrado em NA. Não teria esposas, mas uma ou outra concubina, quando a Rainha indicasse. NA sabia que era muito honroso ser a primeira delas.

Não foi agressiva com ele como era com PI. Deixou ele observá-la o tanto que quis, e achou muita graça quando ele começou a tocar seu corpo bem maior que o dele. Era uma inspeção que ele fazia. Exibiu suas imensas asas orgulhosamente. Não havia como ter conforto dele, a diferença de tamanho não permitia, mas abraçavam-se em curiosidade mútua. NA parava de vez em quando para olhar seus olhos de espanto. Ficou muito feliz por ver que ele a estava achando uma excelente concubina.

Decidiu esperar o quanto ele precisasse, afinal ele que não tinha esposa. Quando iniciou-se a troca de fator, NA se surpreendeu muito ao ver que o jovem macho não fornecia, mas tirava dela. Nem PI tinha essa qualidade! Mas isso não doía, um alívio suave e constante invadia NA. Embora fosse um macho de espécie mais agressiva do que a deles, a recepção de fator estava indo de forma carinhosa. ZU, no colo da Rainha, conversava com ela e recebia pequenas doses de seu fator não sentindo as horríveis cócegas como na infância. No final, a Rainha agradeceu NA por ter aceitado o filho dela. O fator aceleraria consideravelmente a evolução dele e, por isso, seria treinado como dirigente de seus outros irmãos.

Os gêmeos voltaram para a superfície e todos perceberam que o tempo dela procriar estava próximo. Os membros do Conselho estudaram as mudanças que aquele tipo de união causava nos gêmeos e, com permissão da Rainha, Pássaro de Fogo também estava no grupo que fez a pesquisa. Não muito tempo depois, afastaram-se de todos. ZU deixou NA guiá-lo para uma região do planeta que tinha uma formação de pedras algo parecida com a lua aonde nasceram.

Ela estava extremamente inquieta, bem mais irritada e agia guiada puramente pelo instinto. Era quase como se não fosse ela mesma. Seria sua primeira parição e, sem saber, estavam sendo vigiados por todos: FAH e BOH, pelos habitantes do Facho de Luz, que guardavam boa distância e pela Rainha. Está última estava muito agradada, ao contrário de sua parente FAH, que sentia nervosismo pelo bem estar da filha. Lembrava de sua primeira parição e sentia o que normalmente mães do universo todo sentem por suas filhas em mesma situação - uma apreensão instintiva. BOH se ocupava em não deixar a vibração de FAH cair e em mandar mensagens de apoio para ZU, pois sabia que ele se sentia perdido, como a maioria dos machos na primeira parição.

Nenhum sinal de prenhes aparecia no corpo de NA. A única coisa visível era seu comportamento.Depois de várias voltas pelo mesmo lugar, olhando nervosamente aqui e ali, sem falar uma palavra,e sempre seguida pelo fiel ZU, NA sentiu um espasmo e deitou encostada na pedra. Uma imobilidade total a paralizou e, de seu umbigo brotavam milhares de criaturas minúsculas e aladas. Cada punhado que saia se dirigia a ZU que as tocava com o dedo fazendo uma pequena luz brilhar dentro delas. Esse processo levou alguns dias, com NA completamente imóvel e ZU ao seu lado trasmitindo seu fator as criaturinhas que formavam uma nuvem fofa ao redor de ambos. Eram filhos diretos da divindade do lugar, não eram embriões de ZU, nem de NA. Mas, como Primeiro Marido, ZU seria o pai que os pequenos seres reconheceriam para sempre, bem como teriam por mãe a jovem NA, que não pode participar ativamente deste primeiro parto. ZU estava encantado com o que estava sendo gerado, sentindo-se satisfeito e completo.

A primeira parição da espécie deles gerava seres menos complexos que pertenceriam ao ambiente e não necessitavam da presença dos pais por longos períodos , como as criaturas mais complexas. Assim foi a feliz conclusão da primeira etapa da vida dos gêmeos

Tuesday, November 7, 2023

Transporte para o planeta Terra


 

Depois de alguns dias, as criaturinhas aladas brilhantes começaram a se espalhar. O que era uma nuvem ao redor dos gêmeos agora se dispersava. Quando isso aconteceu, NA voltou a se mover. ZU teve de ampará-la, estava enfraquecida e não o reconhecia, nem onde estava ou o que tinha acontecido. ZU ficou horas tentando passar conforto. Como NA não conseguia ficar em pé, deitou-a num local onde improvisou uma cama mais macia e ficou com ela em seus braços por dias, até que ela se recuperou o suficiente para perguntar onde estavam os filhotes e se tudo tinha ido bem. Ele respondeu:

-Os filhotes voaram, e, sim, tudo foi muito bem, você está muito bonita.- achou engraçado vê-lo paternal, estava diferente.

-Eram muitos? Você viu todos? – sua voz estava fraca, ainda.

-Eram muitos e eu toquei todos.

Como se ouvissem a dúvida da mãe, alguns filhotes apareceram voando e pousaram em sua face. Eram macios e quentes. Emitiam uma pequena fagulha de energia que fazia NA feliz. Mas ainda estava cansada e dormiu em posição de conforto, nos braços de seu gêmeo.

Mais alguns dias e NA conseguiu se erguer. Ficaram em posição de conforto em pé, esperando que seus campos equalizassem. Ainda apareciam alguns filhotes para beijar suas peles, de quando em quando. Eles se sentiam alegres, como se houvessem sobrevivido a algo importante e, felizmente, dessa vez, de uma forma bem suave.

Quando voltaram para a montanha, foram felicitados silenciosamente por todos. Não perceberam que muitos também estavam se despedindo, pois já sabiam que os gêmeos haviam sido escolhidos para seguir adiante em uma nova etapa. Os filhotes gerados ficariam na área que nasceram sendo entregues aos cuidados de entidades do planeta.

No amanhecer do dia seguinte, NA entrou no quarto que habitavam desde o reencontro e viu vários seres do Povo do Facho de Luz. ZU estava a sua frente e houve tempo de vê-lo ser injetado no pescoço por uma seringa e deitado em um transporte. NA não teve tempo de pensar, porque entrou em estado de dormência, e seguiu o veículo que carregava seu marido como se hipnotizada. PI os viu entrarem na nave, mas não pode se despedir de sua Segunda Esposa, mesmo porque ela não iria ficar triste com o seu afastamento.

Entraram em uma gigantesca nave com formato achatado que começou a mover assim que a porta se fechou atrás do grupo. Não viram FAH nem BOH, não se despediram de ninguém. Assim que entraram, NA foi levada para uma sala onde a deitaram, ainda sob hipnose, numa mesa. Um indivíduo diferente dos seres do Povo do Facho de Luz se aproximou e começou a trabalhar em cima do peito arfante de NA. Seu corpo não era translúcido como os dos seres do Facho de Luz, vestia uma túnica verde, era tão alto como ZU, sua pele era clara, seus olhos castanhos e seus cabelos da mesma cor eram encaracolados. Tinhas asas maiores que as de NA, porém eram brancas.

NA não sabia, mas ele era de uma raça que já estava no planeta para onde estavam se dirigindo, eram parentes próximos do Povo do Facho de Luz, por isso a semelhança. Ele inseria sob a pele de NA, com grande destreza, uma placa fina como papel, que mudava de dourado para prateado e cobriu todo o seu peito, fixando-se na caixa torácica. Tudo não levou mais que alguns minutos e, quando finalizado, aquele ser passou a mão por sobre a pele de NA e nenhuma cicatriz pode ser vista. NA não soube da presença dessa placa por milênios.

As primeiras imagens que se lembrou, quando sua consciência começou a voltar, foi de estar sentada e ver seres do Facho de Luz passando ao fundo da sala e dois de outra raça discutindo ferozmente, mesmo que suas vozes não se alterassem. Um deles,embora em aparência fisica muito diferente do que conhecia, era Pássaro de Fogo, muito irritado e falando bruscamente:

-Você errou e sabe disso! Ela é minha responsabilidade também! Eu deveria ter sido consultado! – como ele tinha uma forma diferente, suas penas não arrepiavam e achou estranho.

-Sou responsável pela segurança dos que habitam lá. Não quero mais problemas do que a outra fêmea já está causando. Já me basta uma.- achou esse ser muito desagradável, não gostou dele de imediato.

-Tudo o que acontecer, ou deixar de acontecer, com ela, por conta da placa, será você a responder! Está bem claro... Mika-el? – Pássaro de Fogo deixava claro que a conversa se encerava ali. O outro respondeu a pleno peito:

-Sim, eu bem sei!- se olharam com ódio e sairam por portas diferentes.

NA voltava da inconsiencia diversas vezes e quando o fazia, pensava no que havia presenciado. Pensava que sabia a origem de Pássaro de Fogo e tinha forte ligação com ele, mas vendo os dois juntos, percebeu que, por algum motivo, eram de raças relacionadas. Algo os assemelhava de forma que não compreendia. Tinham a mesma estatura e pareciam se conhecer profundamente. Aquilo a incomodava, tanto como o fato de não conseguir se mover e entender onde estava seu gêmeo. Nunca havia visto paredes como aquelas, nem vestes assim, eles não usavam armas, nada ali a fazia se sentir calma.

Pela forma como os seres se comportavam, pode ver que aquele a quem chamavam pelo estranho nome de Mika-el era quem dirigia o que quer que fosse aquilo. Seu corpo formigava quando abria os olhos e pensou ser melhor não dar a entender que acordava para avaliar a situação. Sentia que ZU estava na mesma dormência e que não haviam lhe causado mal e saberia o que fazer que sentisse perigo.

NA não saberia por milênios à frente que a placa era um modo de conter a ligação energética entre ela e seu gêmeo. Enfraquecia a transmissão entre seus centros energéticos do coração, pois era por onde eram mais unidos. Esse ponto não recebendo tanta energia, todos os outros centros de trocas em seus corpos também se enfraqueceriam e os faria menos reativos a qualquer situação que viessem a passar.

A decisão daquela criatura desconhecida, embora calculada, veio a causar reações colaterais nos gêmeos por um tempo longuíssimo, que foram tão imprevisíveis quanto aquilo que ele tentava evitar e tão ruins quanto o que queria previnir. Mas era a autoridade do lugar para onde estavam sendo levados e teve autorização para fazer o que fez. NA e ZU não souberam desse procedimento e não puderam entender muitas das coisas que vieram a passar daquele momento em diante.

NA percebeu que não havia apenas seres do Facho de Luz e dessa espécie a que Mika-el pertencia, e que cada um tinha uma função naquele lugar. Ela não tinha entendido que era um veículo de transporte pois não sentia movimento. Isso até que, ainda recobrando da dormência e sentada no mesmo local que a haviam colocado, pode ver uma grande movimentação e uma tela imensa se abrir na parede do fundo de onde estava. Viu a mesma nave, cinza chumbo, achatada, flutuando acima de algo que se movia. Parecia líquido, mas não pode dizer se era como o campo magnético da Grande Mancha. A nave flutuava nesse líquido e começou a afundar, lentamente, com jatos desse líquido sendo esguichados pelas laterais. Ali soube que era uma nave, já havia visto alguns no Planeta mãe. Sabia que eram usados para transportes em viagens de grande distância. Sentiu um aperto no peito pensando o quão longe do planeta os teriam levado, mas encantou-se de ver a nave submergir lentamente no líquido. Sentiu estar rodeada por algo que não conhecia e o fato de ser novo touxe a metamorfose. Ali perceberam claramente que ela havia acordado.

Então foi solta dentro de uma caixa imensa, conseguia enxergar por todos os lados. Não entendia qual era o material, mas era transparente e não deixava que ela saisse de onde havia sido colocada. Cordas trouxeram seu irmão. Eles eram muito maiores que as criaturas que movimentavam a máquina. O imenso corpo de ZU estava inerte e NA ficou completamente arrepiada, mais ainda por ver que ele não se arrepiava junto. Percebeu o quanto ele não estava bem. As cordas o baixaram dentro da caixa lentamente e um teto transparente se fechou por cima de suas cabeças. Assustada, rápidamente abraçou seu gêmeo e chamando diversas vezes por ele. Os seres do Facho de Luz os olhavam e faziam anotações. Ser observada assim a deixou mais irritada ainda.

Depois de algumas horas, com ZU despertando e sentindo muito cansaço, a caixa transparente começou a ser preenchida, lentamente, com um líquido. NA abraçava seu irmão, preocupada com ele não estar trocando fatores, sua força estava drenada como ela nunca havia sentido. O líquido era algo que NA percebeu ser muito agradável na pele, era relaxante de uma forma que nunca havia sentido e sua famosa curiosidade só não foi maior por ver que o líquido piorou a condição de ZU mais ainda.

A caixa já estava completamente preenchida com o líquido e os gêmeos flutuavam nele. NA achou estranho respirar aquilo, era mais pesado que o ar, mas sentia-se a vontade, se não fosse por ver o que pareciam fêmeas os observando e escrevendo. Não pareciam felizes, mas aborrecidas. NA não sabia que elas enxergavam a placa que não sabia que agora possuia no peito. Concentrava-se em ficar na posição de conforto e tentar reestabelecer seu irmão o mais rápido possível.

Haviam outros recipientes iguais ao redor com outros casais dentro, todos imensos e pode, ainda, reconhecer algumas espécies que nasceram na mesma lua que a sua. O desconforto era geral, em alguns casos a fêmea estava sentindo mais a diferença, noutros, o macho, como no caso de ZU.

Os transportadores estavam esperando que os gêmeos que haviam trazido para aquele planeta se recuperassem para serem soltos. Esperavam que os sinais vitais se equilibrassem e isso só aconteceria se todos trocassem fatores com seus pares. A água que preenchia os containers era uma versão sintética do que os estaria esperando fora da nave. Esse líquido podia ser comandado por processadores dentro da nave e mudavam sua propriedade química de acordo com o que a espécie de gêmeos necessitasse. Além disso, tinham que aumentar a quantidade de sal e compostos a água lentamente e, assim, tornar os colossos que todos gêmeos eram, prontos para os locais onde viveriam. Mas sem a troca de fatores, só podiam esperar e alguns casais estavam levando mais tempo para se unirem novamente.

Para NA, no caso deles a portadora dos canais de entrada, ser observada e analisada daquela forma, não sentir seus pais e ver a péssima condição de seu irmão, não a fazia desejar trocar energias. Não sabia, mas aquilo que sentia chamava-se constrangimento. Não arrebentava a caixa aonde os tinham colocado porque sabia que seres do Facho de Luz eram transportadores, portanto criaturas pacíficas. Sentia que estavam sendo preparados para algo e que os amavam, a seu jeito, portanto os observava da mesma forma, anotando tudo mentalmente e minuciosamente. NA não viu Pássaro de Fogo ou Mika-el, e por este último, se o visse, teria quebrado a caixa.

De qualquer forma, mesmo ZU estando dormente, chegou o ponto que se colocou em cima dele e forçou os fatores circularem, para o bem de ambos. Seus instintos estavam certos, pois, mesmo ainda reagindo negativamente ao líquido, ZU acordou e sua cor equalizou com a da irmã. O que foi seguido de muitos olhares os observando e anotando. ZU olhou sua irmã nos olhos, abraçou-a e disse que ela era o lar dele. NA suspirou e agradeceu, mais uma vez, ter seguido seu instinto. Aquele abraço ficou na memória deles pela eternidade

Monday, November 6, 2023

O Oceano Profundo

 



Assim que o brilho dos gêmeos voltou, em NA com força, mas opaco em ZU, os seres do Facho de Luz acrescentaram um sonífero a água e adormecidos foram, novamente, transportados.

NA acordou com um longo suspiro. Sentia-se bem e, abrindo os olhos, viu que estava numa redoma transparente, como um quarto com vários andares de altura e um intrigante buraco preenchido com o líquido que viu no transporte e onde a nave havia mergulhado. Levantou-se e viu que estava vestida apenas com o cinto que sempre usava, sem as armas. Sua pele estava branca, seu cabelos vermelhos mudavam a cor com a luz azul esverdeada das águas fora da redoma e não estava metamorfoseada. Então se aproximou do que parecia ser o limite do ambiente. Olhando através do mesmo material da caixa que esteve presa, pode ver, pela primeira vez em sua vida, o Oceano. Era deslumbrante, e, para além, havia luzes de outras redomas, que se estendiam por uma extensa área. ZU não estava lá. Não sentia sua presença próximo a si. Colocou as mãos no rosto e pensou: “aqui vamos nós de novo!”. Como faria para achá-lo ficou martelando em sua cabeça.

Olhando ao redor, viu que o buraco era a entrada da redoma. Não compreendia como o líquido não entrava preenchia o resto do ambiente. Percebeu que haviam machos de uma espécie desconhecida soltos lá dentro com ela, todos com longos cabelos negros e todos famintos. Como eram bem menores, não se aproximavam. NA não se sentiu atraída por nenhum deles. Não eram hostis, mas eram machos sem sinal de suas fêmeas perto e NA já sabia como isso funcionava.

Passou um longo tempo olhando pela redoma e pensando em como achar ZU, até que sentiu que sufocava como se houvesse tocado em uma das espécies que habitava a lua onde nascera, muito parecida com eles, mas cujas peles eram verde e tinham fofos pelos nos ombros, extremamente venenosos. Como não havia encostado em nada, entendeu que era algo pelo qual ZU deveria estar passando. Não era agradável, mas pode rastrear o sinal que ele emitia. Era forte e muito dolorido. Desceu os degraus da entrada e, com determinação, foi atrás de seu gêmeo.

Não sabia como se locomover naquele ambiente. Teve alguma dificuldade e compreendeu porque estranhas peles haviam aparecido entre seus dedos, ainda na nave. Olhou ao redor e sentiu de onde vinham, agora, fortes imagens do que estava acontecendo com ZU. Sem muita graciosidade, nadou pela primeira vez e seu instinto lhe valeu novamente.

Enquanto nadava, recebia imagens de uma fêmea muito agressiva e bem mais velha em frente dele, seu aspecto não era ruim, pelo contrário, era grande, seu cabelos eram negros e fartos, sua pele mudava de cor, mas um vestido cobria seu corpo, o que, para NA, era muito estranho. Ela não era nada feia, mas seus olhos e sua energia eram algo muito, muito diferente do que conhecia, e se espantou ao não conseguir ver de onde vinha... era profundo demais. Outra coisa assustava: sua intencionalidade. O que vinha dela contradizia tudo o que conhecera. Sua agressividade iria assustar um macho bem mais velho, quanto mais ZU, e nadou o mais rápido que pode.

Machos como ele não gritavam. Sofriam terrivelmente, mas não emitiam som algum. Enquanto ela nadava até as luzes, sem ver nenhuma criatura, foi sentindo a surpresa e o desespero de seu marido. Ela já tinha passado por isso e sabia como ele iria ficar. Sentia que era muito pior ver ele na situação de dor do que viver ela mesma.

Quando definiu de qual redoma vinha o chamado, com uma piscina de entrada igual a sua, subiu os degraus. A saída da água para o ar era algo novo, a sensação nas pernas era estranha e causava muito peso em seu corpo, tendo de sentar nos últimos degraus. Olhou em volta e viu que ZU estava deitado numa cama em tudo parecida com a que tinha acordado. O local estava escuro, apenas uma fraca luz vinha das paredes. Ela conseguia sentir que ele não estava bem, seu corpo se contorcia como que com nojo. Estava nu, mas uma névoa negra, como tinta, cobria seus quadris. Ele chorava um choro lento, triste. Aquilo foi realmente demais para NA, dando-lhe forças para levantar e andar até ele.

Ele não conseguia enxergá-la, pois a imagem e a vibração da fêmea estava pelo quarto todo e era ainda muito forte. Ao tocá-lo, NA viu mais cenas do que havia acontecido pouco antes. A fêmea havia entrado na redoma cercada pelo líquido da entrada, flutuando ao seu redor. Seus olhos não se desprendiam de ZU, imobilizado-o. E foi assim, sem conversa, sem apresentações, que ela simplesmente encostou nele e como que devorou suas energias, deixando a sua que era escura e densa. ZU não conseguia absorver essa substância, pois a receptora de fatores era NA e isso não mudaria nunca. A surpresa, o não consentimento dele para essa relação, a nova energia, ficaram no campo áurico dele e não era agradável.

Não imaginava quem ela fosse, mas era agressiva demais. Olhou ZU, olhou ao redor e não viu ninguém. Sabia qual era o único remédio e não pensou em como iria reagir a energia que não conhecia. Lentamente se aproximou dele, cercado por todo aquele líquido negro, sabendo que ele não a sentia,mas ela precisou apenas se abrir, agradecendo vê-lo novamente, de não o ter perdido, aceitando a energia do que havia transformado seu amado gêmeo.

Aquela substância subiu imediatamente pelos seus quadris, circulando externamente, sem causar mal algum. Ela apenas olhava o rosto tão querido e continuava puxando tudo, até a dor e a incompreensão que ele sentia. Muito tempo ficou ali, até ZU começar a relaxar. O líquido estava quase todo em seu campo, agora, e não lhe causava dor. Quando ele abriu os olhos e viu que era NA e não a outra fêmea, chorou e abraçou-a. Seu fator voltou a circular entre eles, a cor de ambos mudou para azul e cabelos lisos e negros, como os machos que encontrou na outra redoma, cresceram até os ombros de ZU.

Ele havia mudado. Estava mais sofrido, mais alerta e falava mais. NA teve sua energia renovada e não percebeu que a substância que produziu era absorvida por muitos seres minusculos ao redor, chamando a atenção dos habitantes do local. Foram necessárias muitas trocas até que estabilizassem seus campos naquele ambiente novo. Então a conversa que ele não estava pronto para ter, depois do que o Segundo marido havia provocado, veio aos seus lábios e disse de coração:

-Preciso me desculpar por não ter lhe compreendido quando você sofreu. – NA percebeu que ele falava sem olhar em seus olhos, sinal de vergonha.

-Não estou machucada agora, ZU, você está.- ela disse, mostrando que fazia parte da vida.

-Ele lhe fez mal e não havia compreendido o quanto.

-Eu estou bem.

-Não pode estar... não ajudei você... não lhe dei conforto... não estive com você depois do que ele lhe provocou. – falava entre longas pausas -Você sofreu... eles lhe amarraram... não sabia como isso poderia doer.

-ZU, agora é a nossa dor e eu sinto você.- nunca imaginou que a experiencia com o Segundo marido fosse ajudá-la em algo.

-Não, NA, eu não me encontrei dentro de você, naquela hora, e isso não foi bom, isso lhe feriu.- tinha muita dor em seus olhos. Ela tentou modificar isso:

-Mas hoje pude lhe compreender e ajudar rápido. Você não precisou esperar muito. Senti seu chamado e vim rapidamente.- deu um grande sorriso - Estamos dentro um do outro! Nossos pais podem se orgulhar de nós!

-Eu não sabia que essa dor existia.-seus olhos mostravam a imagem da outra fêmea.-Não consegui desejar ela... não consegui, NA. Ela não parecia querer ter trocas, não estava sofrendo sem fator.

-ZU, ela era mais velha. Talvez da geração de nossa mãe. Você não podia falar, ela não deixaria!

-Mas seu Segundo marido não era mais velho, ele machucou você e eu permiti. Não quero que isso aconteça mais.- isso impressionou NA. Ele estava se posicionando e ZU não era do tipo de se posicionar sem escutar a opinião dos mais velhos.

Mesmo abraçando seu gêmeo e passando comforto enquanto dormiam, percebeu que a energia de ataque da outra fêmea, embora não mais nele, tinha deixado um rastro num canto do quarto, como um aviso de que retornaria. NA dormiu, sem medo, mas apreensiva.

Eles estavam na redoma já há algum tempo. ZU não estava melhorando o tanto que era necessário para sairem dali. Foi quando NA sentiu a forte presença de outro ser. A vibração era mais intensa do que havia sentido mesmo de machos bem mais velhos e ambos se levantaram olhando para a escada da entrada. Ela estava impressionada pela ferocidade da vibração que sentia e antes que pudesse falar algo... ele apareceu.

Seu gêmeo era um espécime claro, imenso como a irmã, forte e com calmos e grandes olhos claros. O que subia as escadas da piscina, lentamente, era alto, esguio, também muito forte. Seus olhos eram escuros, ferinos, sua pele ocre tinha algo que intimidava e seus cabelos negros brilhavam com a água escorrendo pelo rosto. Sem adornos ou armas, tudo nele era naturalmente agressivo. Quando seu olhar atingiu NA, a imobilizou. Estava chocada com a energia que sentia. Nunca havia visto um macho preparado para combate. Não sabia que eles também podiam nascer assim. A surpresa era tão grande quanto a curiosidade e ela não conseguia se mover.

NA,ainda estática, viu ZU ser chamado por aquele macho e segui-lo. Quando os dois sairam da visão dela, conseguiu se mexer e correu atrás de seu gêmeo. Fora da redoma havia um pequeno veículo que flutuava e seu irmão foi deitado dentro dele. Parou na metade da escada e protestou. O estranho veio até onde ela estava e segurou seu pulso firmemente, olhou seus olhos com dureza e disse, com secura:

-Você não pode ir. – mas como sentiu algo ao tocá-la, mudou de expressão. Virou a mão dela e deslizou os dedos por sua palma, subiu pelos braços e parou, voltando a encará-la. Falou num tom de voz surpreso e terno:

-Você é uma bela fêmea. Nunca vi nada assim por aqui. Espere por mim, quero conversar melhor com você. Agora, ele precisa ir para o ginásio. – e a deixou para acompanhar o veículo onde ZU parecia dormir.

NA não compreendeu o que poderia ser “ginásio” nem o que quis dizer com “conversar”. Achou estranho que, embora estivesse fascinada, não havia sentido atração por ele. O que a gêmea dele havia feito com ZU já deveria ter sido o suficiente em relação a energia do local, mas isso estava muito longe da verdade. A placa que não sabia possuir no peito manifestava seu primeiro efeito, amortecendo a intensidade de energias que entrassem em seu campo, boas ou não.

Ela voltou para a redoma, sua curiosidade provocava perguntas, mas como sentia que ZU não estava melhorando, a preocupação também aumentava.

Não esperou muito. Aquele macho voltou e, de novo, NA paralizou ao vê-lo subir os degraus, mas, desta vez, com uma lentidão de quem observa atentamente a presa. Quando percebeu a energia de caça nele seu sangue ferveu, sua curiosidade explodiu, pois nunca havia sido tratada como presa e nem por um minuto se ofendeu como aconteceu com PI. Entendeu que seria seu Terceiro marido, pois pode ver que era, sim, o gêmeo daquela fêmea agressiva que havia atacado ZU. Ele andou até onde ela estava sentada e ajoelhou apoiando-se nos joelhos de NA. Ele não tirava os olhos dos dela.

NA viu que só tinha a gêmea por esposa então tomaria a honrosa posição de Segunda, mas a primeira de outra linhagem e isso seria eterno. NA sentiu muita satisfação.

Ele não se dirigiu a ela com suavidade, como seu gêmeo ou o concubino. Tampouco com medo, como seu Segundo marido. A espécie à qual ele pertencia não se parecia com nada que houvesse visto, primeiramente porque ele, e não a fêmea, era preparado para combate. Sua energia era por demais diferente para conseguir segurar sua curiosidade deixá-lo tocá-la da forma que quisesse, como fez com o primeiro concubino,e assim, poder estudá-lo.

Ele percorria todo seu corpo com as mãos. Embora não fosse indelicado, seus movimentos eram rudes, urgentes. Sentiu muito prazer, mas percebeu que a escura tinta, que a gêmea dele também produzia, não estava sendo absorvida por ela. Lembrou-se que o mesmo havia acontecido com ZU.

Mais curiosa ainda ficou quando o viu, depois de muitas horas manipulando o corpo de uma NA muito interessada, ter um espasmo e expelir outra forma de substância que não conhecia. Era uma espuma branca que a envolveu principalmente ao redor dos quadris, mas que também não absorveu. Ele não falou uma palavra, embora desse para ver seu contentamento. Percebeu que NA não estava absorvendo seu fator e que não havia tido nenhum espasmo. Ele também era curioso.

Aquela fêmea era diferente de tudo que havia conhecido. Sabia da fama dela, todos sabiam de seus feitos no Planeta Mãe. Nunca havia tido trocas daquela forma que não com sua gêmea. Nenhuma de suas concubinas o fazia sentir-se faminto e isso não era normal . Quando viu que não estava dentro dos olhos dela, percebeu que a troca de fator não havia acontecido. Em vez de se sentir embaraçado, ficou muito interessado em descobrir o porquê. Levasse o tempo ou manobra que fosse necessário.

NA adorou vê-lo sentir tanta curiosidade como ela. Analisando-o, constatou que a energia dele era forte, densa e muito durável, mas não percebeu que ela mesma enfraquecia, já que estavam há dias no novo ambiente sem conseguir digerir as substâncias locais. O que havia ocorrido no passado voltava a acontecer. ZU voltou para a redoma, para vê-la caída na cama com aquele estranho deitado ao seu lado. Estava melhor e pode correr para sua irmã, sem prestar atenção em quem estava com ela. NA falou:

-Não estou absorvendo o fator, ZU. Não estou brava com ele, como com PI, mas não consigo absorver, desculpe. Gostei muito dele, estou feliz com esse marido, não sei o que pode estar errado. – o estranho havia acordado e observava os dois.

Ele gostou muito do que viu no gêmeo de NA. Ergueu-se e aproximou dele. Trocaram olhares, ele segurou o pescoço de ZU, numa clara demonstração de agrado. Sorria e ZU sorriu de volta, medindo-o dos pés a cabeça. ZU se acalmou, aquele macho lhes traria muita honra e gostou dele. NA pediu comforto para seu irmão e ele deitou-se a seu lado, sem deixar de olhar para o novo marido. Podia sentir a energia da fêmea que o tinha atacado e era, agora, sua Segunda esposa.

Nuvens coloridas começaram a transitar entre os gêmeos e NA observou como a energia dele era mais doce que a de seu novo marido e aquilo era muito bom. Ele estava macio e transmitia muito bem estar, diferente da aspereza e força do outro. Este estava muito interessado nas cores que transmitiam entre si. Analizava a nova esposa em detalhes para encontrar um jeito de lhe passar o fator. Percebia que o casal estava se enfraquecendo e não queria ver a triste história que passaram antes vir a se repetir ali.

Aproximou-se de NA e tirou-a de perto do irmão lentamente, mostrando respeito. Sem falar uma palavra mostrou que tentaria de novo. NA não foi agressiva, deixou que ele a segurasse enquanto sentia o fator de seu irmão equilibrá-la. Sentiu proteção em seus braços. Esses contatos atrairam, inevitavelmente, a nova esposa de ZU que entrava rodeada pela água como antes. Estava um pouco mais calma e NA manteve-se alerta, observando a situação.

Embora fosse angulosa e forte como o irmão, tinha um corpo de curvas cheias e seus cabelos, muito longos, eram volumosos e negros,flutuando ao seu redor. No seu rosto, belíssimo, brilhava um par de olhos azuis, frios, mas aparentemente felizes. Por estarem todos presentes, as apresentações foram feitas. A nova esposa se chamava Metvah e seu gêmeo Vethusta.

Ela permanecia calada, flutuava pelo quarto como se ainda estivesse na água, seus cabelos a envolvendo completamente. Quando chegou, a mancha que permanecia num dos cantos do quarto desapareceu. Ela avançou, como um jato de tinta, para cima de ZU, que não se moveu, apavorado, olhando para NA que ainda estava abraçada ao seu Terceiro marido. Vendo que sua irmã olhava tranquilamente para ele, transmitindo mentalmente que o defenderia, se fosse necessário, e o novo marido, que, com olhos bem arregalados e balançando a cabeça, deixava claro que era péssima idéia recusar sua irmã, como quem soubesse o que ela faria.ZU resolveu ceder completamente por era muita informação para processar.

A agressividade de Metvah assustava tanto ZU que o instinto de perigo fez NA reagir e a metamorfose aconteceu enquanto mostrava para seu novo marido a forma que transmitia conforto. Olhou para Vethusta com apreensão e viu que eles não estranharam suas escamas, que agora pareciam mais com a de um peixe, nem suas garras e asas. Vethusta não a soltou, mas sim ergueu-a do chão, examinando seu corpo com um grande sorriso de satisfação. Metvah pareceu se tanquilizar, talvez considerando ZU mais masculino quando metamorfoseado.

Ambos casais se adaptaram melhor uns aos outros depois da metamorfose, mas a tão necessária troca de fatores não aconteceu. Quando os novos esposos foram embora, ZU e NA puderam dormir em posição de comforto. Estavam em melhor condição do que na outra experiência que viveram, mas enfraqueciam a olhos vistos.

Sunday, November 5, 2023

O Ginásio

 


Dias se passavam e a situação foi piorando. Os gêmeos recém-chegados tinham pouca, ou nenhuma, condição de dizer qual seria o próximo passo. O ambiente não era o deles e nem mesmo as regras do lugar tinham sido compreendidas, ainda. Por outro lado, para Vethusta e Metvah, que sabiam da triste história da integração deles no Planeta Mãe, a preocupaçã crescia, pois ali nunca havia acontecido de gêmeos estrangeiros não absorverem o fator através da união com os nativos. As gerações anteriores conheciam histórias de um caso semelhante, mas não havia ocorrido no Oceano Profundo e tudo o que podiam fazer era opinar sem certeza.

Então, pensando muito sobre a capacidade dos gêmeos de subir muito alto e descer a grande profundidade sem serem, por isso, afetados, Vethusta decidiu testar algo. Sem esperar mais, levou NA e ZU para o ponto central daquele povo, o local mais sagrado deles: o ginásio.

Entre as encostas da cadeia de montanhas do Oceano Profundo, na estreita faixa que havia entre elas, uma grande estrutura sobressaia entre as pequenas redomas. Não era transparente como essas, mas uma edificação retangular feita da mesma rocha das montanhas. Tudo era iluminado por uma grande esfera de luz, réplica em grande escala das outras esferas que se encontravam em todos os cantos dessa vila e dentro de todas as construções. NA nunca chegou a entender a natureza dessa fonte de luz, que em determinado momento diminuia, mostrando aos habitantes a hora de se recolher, mas teve certeza que era tecnologia do Povo do Facho De Luz pois sentia serem radioativas.

Na lateral da construção, um portão artisticamente trabalhado era a entrada do ginásio. Dentro dele, uma grande arena retangular com arquibancadas do lado direito e, no lado esquerdo, uma parede lisa com um anel de pedra na sua metade, bem no alto. O chão do ginásio era feito de areia fina e clara e, passando pelo portão, assim como nas redomas, a água não entrava. Espadas, lanças e outros armamentos ficavam em uma parede ao fundo. Uma das paredes estava completamente no escuro. A luz da esfera não iluminava aquele canto. Achou estranho, mas estava curiosa demais para dar atenção.

ZU estava muito fraco e foi colocado na arquibancada. NA observou vários machos, todos com a mesma aparencia física que Vethusta, mas mais magros e menores que ele, treinando luta e arremesso de lança. Ela passeava, olhando tudo com muita curiosidade, quando Vethusta, esperando no meio da arena, a chamou. Enquanto andava até ele, viu que os pequenos machos pararam o treino. Eles pularam a arquibancada, cercaram ZU e o cutucaram com as lanças. Surpreso com a afronta gratuita, ZU se irritou, mas sua tentativa de atacá-los resultou em um desmaio devido a fraqueza. Foi o quanto bastou para NA se metamorfosear. Vendo isso, Vethusta chamou os machos de volta e lhe disse calmamente, com a cara tranquila e os braços cruzados:

- Eles vão machucá-la, NA. Vão fazer com você o que o Segundo marido fez, todos eles, e agora. – Ela abriu a boca em choque, algo estava muito errado ali. Respondeu com calma:

-Não, eles não vão, pois não há permissão. – deu uma segunda olhada nos pequenos machos se aproximando, pensando que não havia nada ali para ela. – Não há permissão! – repetiu.

Vethusta abriu um sorriso e disse:

-Aqui não precisa de permissão. – continuava calmo, seus olhos brilhavam.

ZU havia se recobrado do desmaio e arrepiou suas escamas, sentindo a ameaça real para NA. Olhou os machos menores, olhou sua irmã muito irritada e pediu à eles que não fizessem aquilo, pois sairiam machucados. Eles olharam para Vethusta, que apenas acenou com a cabeça em direção a NA. Estavam armados e ela contava apenas com seu corpo.

Não foi um ataque justo. Eram machos jovens e ela uma fêmea descendente de linhagem para combate. Só a cauda dela mandou três para o chão. Estava muito ofendida e ZU muito chocado com a falta de respeito, porque era raro entre eles, mesmo quando de espécies diferentes. NA não levou um minuto para por todos contra as paredes e chão do lugar. Não se levantavam, sua raiva era tão grande que a umidade do ar virava vapor ao redor dela.

Vethusta era o maior mestre de combate que aquele lugar havia produzido. Observando bem sua Segunda esposa, havia entendido que ela, ao contrario das fêmeas locais, era a parte ativa do sistema que os gêmeos eram e entendeu o que tinha que ser feito. Só precisava ativar nela o humor certo para fazê-la a melhor aluna que haveriam de ver no lugar. Acreditou que isso a faria, finalmente, absorver o fator que tanto precisavam. Se não por ele, que fosse através da luta.

Não acreditava em como tinha tido sorte em seu segundo casamento. Era uma excelente união, mas treiná-la... era uma história diferente... se conseguisse fazê-la compreender. Viu-a jogar os seus melhores pupilos ao chão e achou que era hora de começar o treino. Se havia alguma coisa que Vethusta nunca haveria de sentir era dó, e partiu para cima dela sem nenhuma.

NA percebeu, pela energia, a intenção dele e gritou:

-Você não está falando sério! – disse ofendida como nunca havia sido, mas sem se mover do lugar. Vethusta respondeu:

-NA, é bom que você entenda... na nossa historia não entra perdão. – e veio de forma lenta, mas ferozmente.

Tentou acertar a perna dela e ela recuou. Tentou pegar sua cauda e imobilizá-la e ela puxou-a girando rapidamente. Ele andou ao redor dela. NA estava chocada, não sentia vibrações de agressão vindo dele e ela nunca havia combatido seres que não irradiavam agressão.

-Para que? Para que você faz isso!- gritou sem obter resposta, só o ataque dele, segurando seus braços.

Caíram ao chão, mas o segurou com as garras dos pés e o jogou longe. Ele se ergueu rápido, parecia ter gostado, e pegou um bastão, vindo fogoso para cima de NA. Esta estava pasma pois ele estava muito excitado e não estavam tentando trocar fatores, não que percebesse. Ela olhou para ZU e viu que o combate estava extenuando ele, mais ainda por não conseguir atacar quem estava ofendendo sua gêmea. Afinal, NA não tinha atacado ele, ainda.

Os habitantes começaram a se juntar na arquibancada. Vethusta não tinha costume de lutar, não haviam lutadores do nível dele ali há muito tempo. Fêmeas, com exceção de sua gêmea, Metvah, que era, como ele, um caso aparte, eram procriadoras e não guerreiras. A energia do combate chamou muita atenção e a multidão ia crescendo. NA não se deu conta disso, estava bufando de raiva com choque da ofensa. A cordialidade para com quem chega de fora era algo muito importante para sua espécie e agora queria ensinar uma lição no que considerava uma falha de caráter do Terceiro marido. Quando Vethusta acertou o ombro dela com o bastão, NA partiu para cima dele com ódio puro. Ele ria, estava surpreso e deliciado, sentia muito prazer. O golpe fez os dois irem ao chão. Ele não tinha asas e seu bastão caiu longe. NA o segurou com as garras, sentia as do pé enterradas nas coxas dele, que se manteve quieto, então ela falou, com as presas bem a mostra:

-Isso... não... é...apropriado!- ela gritava. Ele respondeu, empurrando-a com força:

-Vou repetir: nessa história não entra perdão... lembra? Eu nunca irei pedir perdão pelo que fiz ou farei.- empurrou NA que caiu de costas.

Viu que ele ficou com as marcas das garras dela nas coxas. Ele estava visívelmente excitado, e ela, bem, ela estava fora de si. Levantou, encolheu as asas e atacou-o no peito. Ele absorveu o choque de seus punhos e ficou em pé com as mãos na cintura. Lágrimas de raiva corriam pelo rosto dela. O insulto do comportamento dele era demais, mas não perdeu o controle, nem ele, que atacava sem descanso.

Ele a segurou pelos cabelos e ela, por sua vez, arranhou sua barriga. Ele tentou segurar suas asas em uma chave e ela o empurrou, abrindo-as. Em momento algum havia intenção de ferir, mas suas naturezas estavam saindo do controle, sem problemas de consciência. O combate seguia sem vencedor, ambos tinham a mesma força, até que algo inesperado aconteceu... A parede escura no fundo da arena se abriu, tomou forma de um portal e sugou instantaneamente os dois, Vethusta e NA. Ao verem isso, os habitantes, não surpresos, dispersaram, levando ZU, desmaiado, para a enfermaria. Metvah chegou à tempo de vê-los serem tragados pelo portal e seu desgosto era visível.

Aquele que os impediu de continuarem lutando era parte do Conselho de anciões do local. Embora a Rainha deles estivesse consciente de que a luta não estava, como Vethusta havia imaginado, fazendo NA absorver o fator, e sim, exaurindo eles e seus respectivos gêmeos, quem interveio foi o ancião menos visto do Conselho, mas muito respeitado por sua experiência e força.

Quando percebeu estar dentro do portal, Vethusta se ajoelhou como quem soubesse que seria corrigido por algum erro grave. NA se agitou ao ver que o local era uma caverna dentro da montanha. Sua parede de rochas muito escuras mostrava a antiguidade do lugar e notou que a mesma substância negra produzida por Metvah flutuava ao redor deles, em grande quantidade. Vethusta falou, ajoelhado:

-Pare de se mexer! – ela parou imediatamente, assustada com o fato de não enxergar saídas dali.

-Independente do que aconteça aqui, lhe apoiarei e darei proteção sempre. – essas palavras a fizeram olha-lo atentamente .

Viu que ele falava sério. O que quer que aquele lugar significasse, ele sabia, e seus olhos mostravam que a segurança dela era muito importante para ele. Depois de uma luta tão feroz, ele era a imagem de um marido que se importava. Não entendeu essa modificação, mas gostou da vibração dele. Não houve tempo de abraçá-lo como queria, pois uma névoa densa vinda do fundo da caverna a envolveu.

NA foi erguida do solo e a névoa se transformou num ser gigantesco, um macho que ora mostrava seus contornos, ora se fazia amorfo e envolveu NA completamente. O toque era suave, mas rijo como a rocha e lembrava muito a secura dos toques de Vethusta. Ele manipulou o corpo de NA de várias formas, como que procurando a solução para um problema. Quando entendeu que ela não assimilava o fator, mesmo com a intervenção dele, a deitou no chão, lentamente. Sem ter emitido um som, saiu da caverna da mesma forma que entrou, como uma densa névoa. Vethusta parecia reverencia-lo e NA sentiu um profundo respeito por aquele ancião que era conhecido pelo nome Proteus e era o pai de Vethusta.

Vethusta se ergueu e colocou NA de pé. Ele falou, então, para segui-lo pois iriam ao encontro “dela”. Como estava atordoada, não perguntou quem era “ela” e o seguiu. Havia um corredor da caverna para outra cavidade mas esta, diferente da primeira, era gigantesca. Era um único e imenso geodo de cristal. Viu uma figura feminina belíssima dentro desse cristal. Seus cabelos eram negros e fartos, um vestido de tons azuis cobria seu corpo, sua pele era claríssima e os olhos azuis, lembrava muito o de sua filha Metvah. A elegante fêmea veio até o limite de uma das facetas do cristal e olhou para NA. Ela disse:

- Ela não absorve e não absorverá por si mesma, o fator da nossa linhagem. Eu tomei a decisão de dá-lo do meu, diretamente, para que ela e o gêmeo possam ficar e assumir seus lugares aqui. Ela será conhecida, de agora em diante, por ‘Branca’ e tudo que lhe digo deve ser repetido no Conselho. Não devem restringi-la, nem impedi-la, mas guardem distância de Branca, porque carrega o meu fator. Usufruam-se, uns aos outros que, em seu tempo, as duas esposas gestarão minhas crias.

Vethusta se inclinou e disse que seria cumprido como pedia. Tétis, mãe de Vethusta e Metvah, amada mãe do Oceano profundo, aproximou-se de NA e colocou um pequeno cristal na altura da garganta dela, e brilhava tanto que seus cabelos ficaram totalmente brancos.

Saíram pela caverna, atravessaram o portal e pisaram na areias do ginásio. ZU e Metvah estavam lá. Esta estava tensa, o que significava que piscava os olhos com mais frequência. Sua preocupação por Vethusta era sincera e pediu comforto para ele. NA viu que seu irmão estava fraco, ainda, mas em seu peito uma estrela branca brilhava, mexendo quando respirava. Haviam conseguido absorver o fator, novamente por intervenção da geração anterior e estavam aliviados. Não estavam conscientes de que, depois da experiência no Planeta mãe, isso sempre aconteceria, nem de que a placa do peito de NA, colocada ali por Mika-el, tinha tido uma grande influência na não absorção do fator. Agora, o ginásio estava vazio e os dois casais se abraçavam calados.

Saturday, November 4, 2023

Tripoli


 

A vida foi plena para os quatro, agora perfeitamente unidos entre si. Vethusta treinava NA, ambos haviam nascido para combate e, por toda eternidade, o fariam com prazer. Metvah acompanhava ZU aonde ele fosse, demostrando carinho de forma calada e firme. Era uma situação que ele aceitava com receio. Ela mudava de humor muito rápido e a única forma de acalmá-la era trocando fatores. Fugir não era uma alternativa. Para um macho calmo como ele, esse relacionamento estava exigindo muito.

NA descobriu que o novo fator a havia transformado em nutriz para os numerosos seres elementais dali. Entendeu o significado disso quando, nadando para o ginásio, criaturas a rodearam, lambendo sua pele, carinhosamente, em busca de minerais que os sustentavam. Ao ver isso, ZU caiu na risada, que mudou para desgosto quando viram que ele também produzia a substância na pele.Para desespero dos dois, foram seguidos cada vez que se encontravam fora das redomas.

Também aprendeu que o Oceano Profundo, Intermediario e de Superfície eram berços de todos os tipos de vida daquele planeta. As fêmeas não eram nascidas para combate porque sua origem era voltada a fecundação e gestação. A beleza que produziam, a doçura do nascimento, o brilho das novas vidas encantou NA de forma irreversível. Ia ao berçário muitas vezes, pois as fêmeas frequentemente se encontravam lá em processo de gestação ou parto. Mesmo assim, o ponto principal daquelas vilas no Oceano Profundo era o ginásio e havia um motivo para isso.

Assim como em qualquer planeta, ali também havia um equilibrio entre criaturas do interior e exterior do núcleo. Eram os mesmos vórtices de energia que necessitavam de constante vigilância para reverter os desequilibrios. Os machos voltados ao treino para o vórtice eram chamados de controladores e NA seria a primeira fêmea, que se tinha notícia, a ter esse título no Oceano Profundo. Metvah era agressiva, mas era lenta como ZU e não gostava de nada que pedisse velocidade, como a que era necessária para as idas ao vórtice. Seu gêmeo já fazia um bom trabalho e não se interessava nem um pouco em ir junto. Porém, quando houve necessidade de seguir os controladores, somente a presença dela bastava para muita coisa não acontecer. Ela não gostava de confusão. Seu olhar podia gelar até mesmo seu gêmeo e sabia impor seu desgosto, quando assim achasse certo.

NA já havia visto, mentalmente, como era o cenário nos desequilibrios do vórtice dali, mas não entendeu as criaturas que viu fazendo parte dos combates, até que Vethusta lhes apresentou. Foi a primeira vez que viu baleias. Soube que haviam nascido naquele planeta e já eram consideradas uma espécie antiga. Elas gostavam de ficar ali, entre o abismo do vórtice e a vila, porque gostavam das luzes das esferas e do calor que vinha das chaminés do vórtice. Aprendeu que eram comandadas pela fêmea mais velha, considerada a Rainha. Haviam vários grupos, cada qual com sua governante. Eram muito inteligentes, passavam informação entre gerações, carregando muito conhecimento, mesmo quando jovens. NA e ZU gostaram muito delas e o mesmo aconteceu com as baleias, que decidiram chamar NA “aquela que é bela” e ZU “aquele que é amado”. Vethusta era chamado de “aquele que vence” e Metvah era “ Filha”, apenas. Elas davam novos nomes para todos que conheciam.

No contato com elas, os gêmeos aprenderam que para uma baleia não gostar de alguém é preciso muito esforço. Como são fortes, são também muito pacientes. Quando não gostavam de algo, tinham uma forma bem dolorida de mostrar, com um som agudo que imobilizava qualquer um. Eram sarristas, adoravam uma piada e rir. Tiravam sarro de tudo e todos. Não era possível ficar sério perto delas, principalmente dos machos, sem ouvir uma piada. Adoravam as crias de todas as espécies e eram muito maternais. Cuidaram de NA e ZU como se fossem parte do bando e se afeiçoaram muito a eles.

As baleias eram controladoras também. Vethusta explicou que as criaturas que tentavam sair do vórtice eram muito mais densas que as que conhecia no Planeta mãe e as baleias criavam “peso” na situação com sua massa corporal, sendo capazes de produzir, estando em bando, muita energia.

Quando o desequilibrio era muito sério, elas iam junto e em seus treinos iniciais, ficou óbvio que NA não conseguiria acompanhá-las. Nadavam muito rápido para uma fêmeazinha jovem que nasceu num deserto rochoso e tinha asas. Mesmo tendo desenvolvido membranas na nave de transporte, não era páreo para as nadadeiras das baleias e sempre chegava atrasada. Foi quando Vethusta trouxe um presente de Proteus especialmente escolhido para NA. Ela nunca mais iria esquecer aquele dia.

Trípoli chegou puxado por Vethusta. Era um cavalo de cor azul, crina negra, grandalhão e famoso por seu mau humor. A criatura mordia, dava trabalho para montar, mas era veloz e nisso ninguém o superava. Ele era orgulhoso disso... muito orgulhoso. Foi ódio a primeira vista. Ela nunca havia visto um cavalo e Trípoli sabia disso. Aprendeu que também tinham senso de humor, do tipo cínico. Jogou-a ao chão assim que ela tentou montar. Ela levantou metamorfoseada, querendo quebrar a porcaria da criatura, mas Vethusta a segurou. Trípoli, vendo a metamorfose, achou NA grotesca.

ZU tentou ajudar na décima tentativa de NA para montá-lo, pois ia ao chão assim que ele sentia suas escamas. Para maior irritação dela, Trípoli adorou ZU... achou-o perfeito e NA pensou que não havia criatura mais subversiva e mau humorada que aquela. ZU tocou seu focinho e conversou com ele, e, então, Trípoli deixou NA montá-lo. Isso foi para sempre assim, cada vez que era preciso ir ao vórtice, ZU pedia e Trípoli obedecia, levando NA até os campos de combate. Sim, pois Trípoli era briguento, mas obedecia incondicionalmente na hora da batalha. Sabia antes dela o local para onde deveriam ir e sempre os fazia chegar primeiro, seu orgulho ditava isso. Não conhecia o cenceito de medo e se fosse para entrar no combate, defendia NA com cascos e dentes, afinal, mesmo achando-a horrorosa, era seu trabalho e ninguem deveria se meter nisso. Ele ensinou NA a montar melhor que qualquer um. Nunca chegaram a se dar bem... ele era uma criatura altiva e cheia de julgamentos.

Mesmo se encantando de ver NA montada e querendo ensinar alguns truques, Vethusta não interveio. Ele também tinha montaria, mas a espécie que montava era assustadora. Era uma criatura amorfa, como Proteus que NA havia conhecido na caverna do ginásio e havia lhe presenteado com Tripoli. Era uma massa de cor ocre, quase sempre rodeada por uma densa névoa. Podia-se sentir sua agressividade à distância. Só interagia com o dono e foi por entender essa relação muito pessoal, que Vethusta deixou Trípoli e NA se entenderem sozinhos.